O utilitarismo e sua relação com o individualismo metodológico

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Jéssica Machado Costa Firmiano.

Este paper analisa a teoria do utilitarismo, com foco nas contribuições fundamentais de Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Inicialmente, explora-se o utilitarismo de Bentham, que enfatiza o princípio da felicidade, e, em seguida examina as abordagens aprimoradas de Mill, que fazem distinções qualitativas entre diferentes tipos de prazer. O objetivo é compreender como a teoria utilitarista evoluiu e suas implicações éticas ao longo do tempo.

O utilitarismo é uma teoria ética que avalia a moralidade das ações com base em suas consequências, visando maximizar o bem-estar geral. Jeremy Bentham e John Stuart Mill são dois filósofos que desempenharam papéis essenciais na formulação e refinamento desta teoria, esse paper examina a contribuição dos filósofos.

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O utilitarismo de Jeremy Bentham um enfoque na maximização do prazer e na minimização da dor. O princípio da utilidade, busca construir a felicidade através da lei e da razão. Ele define que "o princípio da utilidade aprova ou desaprova qualquer ação com base em sua tendência de aumentar ou diminuir a felicidade do indivíduo envolvido" (Bentham, 1789, p. 2). Esse princípio aplica-se tanto a ações individuais quanto a medidas governamentais.

Bentham propôs o cálculo hedonista para avaliar a moralidade das ações, esse cálculo envolve a quantificação do prazer e da dor, considerando fatores como intensidade, duração, certeza, proximidade, fecundidade e pureza. Contudo, a dificuldade de quantificar prazeres e felicidade levanta questões sobre a aplicabilidade prática desse método. Como Bentham observou, "a medida do prazer é tão incerta quanto a própria natureza do prazer" (Bentham, 1789, p. 25).

De outra banda, John Stuart Mill aprimorou o utilitarismo ao introduzir a distinção entre prazeres superiores e inferiores. Mill argumenta que "é melhor ser um homem insatisfeito do que um porco satisfeito, melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito" (Mill, 2007, p. 22). Ele enfatiza que a qualidade dos prazeres deve ser considerada além da quantidade, defendendo que prazeres intelectuais e morais são superiores aos prazeres corporais.

Mill oferece uma visão mais complexa da moralidade ao levar em conta a qualidade das experiências. No entanto, a subjetividade envolvida na avaliação dos prazeres superiores levanta questões sobre a consistência e aplicabilidade de seus critérios. O filósofo reconheceu que a dificuldade está em determinar quais prazeres são superiores. Isso sugere desafios na aplicação prática dos princípios utilitaristas, dada a natureza subjetiva das avaliações.

Ambos os filósofos compartilham a premissa central do utilitarismo, que é maximizar o bem-estar geral e avaliar as ações com base em suas consequências. Enquanto Bentham adota uma abordagem quantitativa e hedonista, Mill introduz uma análise qualitativa dos prazeres. Bentham foca na soma total de prazer, enquanto Mill argumenta que alguns prazeres são mais valiosos do que outros. As ideias de Mill  expandiram a teoria, abordando a complexidade das experiências humanas e as variadas formas de satisfação.

As contribuições de Bentham e Mill foram cruciais para o desenvolvimento do utilitarismo, oferecendo perspectivas distintas sobre o princípio da felicidade, enquanto Bentham forneceu uma base clara com o cálculo hedonista, Mill avançou a teoria ao considerar a qualidade dos prazeres. Ambas as abordagens continuam relevantes por formar a base do utilitarismo.

Penso que o utilitarismo, tanto na versão de Bentham quanto de Mill, oferece uma lente interessante para analisar questões contemporâneas, especialmente em um mundo onde acabamos mais globalizado e interconectado. Um exemplo atual que pode ser discutido à luz dessas teorias é o uso das redes sociais.

Bentham, que prioriza a quantidade de prazer sobre a qualidade, pode ser exemplificado em relação as plataformas de mídia social sendo vistas como um exemplo de maximização da felicidade, já que milhões de pessoas se conectam, compartilham suas experiências e sentem prazer ao interagir virtualmente. Sob essa perspectiva as redes sociais podem gerar prazer imediato, entretenimento e oportunidades de comunicação globalizada.

Já no caso de Mill, penso em uma dimensão mais profunda e qualitativa, já que ele destaca que, embora as redes sociais possam gerar prazer superficial, os efeitos sobre a saúde mental, o isolamento social e a superficialidade das interações podem ser prejudiciais a longo prazo. Em termos de qualidade, Mill poderia sugerir que um prazer mais elevado viria de interações humanas significativas que enriquecem a vida das pessoas, á que as redes sociais, ao promover interações rápidas e muitas vezes vazias, podem contribuir para um bem-estar de menor qualidade.

Referências

Bentham, Jeremy. uma introdução aos princípios da moral e da legislação, 1789.

Mill, John Stuart. Utilitarismo, 2007.


O Utilitarismo, o Imperativo e a boa conduta

 Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Maria Alice Martins.

A elucidação de princípios norteadores da conduta humana, especialmente da boa conduta, a conduta reta, ética e virtuosa, é para além de um exercício interessante, também, necessário em qualquer tempo e sociedade. Nesse sentido, evoca-se o utilitarismo de Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873) e traça-se contrastes e paralelos com a noção Kantiana de Imperativo Categórico para fins de explanação da temática, trazendo-se, ainda, a provocação relacionada aos limites da ótica utilitarista ante um dilema moral.

 Reconhecer o que move o ser humano é fundamental para compreender a sua conduta social. O princípio da utilidade reconhece a sujeição do ser à dor e ao prazer, colocando-a como fundamento desse sistema, cujo objetivo é construir o edifício da felicidade através da razão e da lei, aprovando ou desaprovando a ação segundo a tendência dessa aumentar ou diminuir a felicidade (BENTHAM, 1979). Em Kant (1724-1804), em contraste com o exposto acima, a motivação relaciona-se com a noção do dever de agir e, em conformidade, pauta-se também na racionalidade. A boa vontade passa pelos conceitos de dever e de respeito até o princípio do conhecimento moral da razão comum dos homens (HERRERO, 2001).

 São os interesses dos indivíduos que quando integrados em uma estrutura social geram o interesse coletivo. Pauta-se no princípio da utilidade quando a aprovação ou a desaprovação de alguma ação considera a tendência desta ação aumentar ou diminuir a felicidade da comunidade (BENTHAM, 1979). Entendendo-se a felicidade como prazer e a ausência de dor, uma existência isenta tanto quanto possível da dor, e tão rica quanto possível em prazeres, tanto na qualidade quanto na quantidade (MILL, 2007). Ora, pode-se ver alguma similaridade com a noção de Imperativo Categórico, ao se pautar a ação naquela conduta possível de replicar por todas, seria também aquela conduta capaz de gerar maior felicidade para o corpo social.

 Destacando-se o princípio da moralidade da ética de Kantiana: “devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal”. (HERRERO, 2001). Na medida que todos busquem a maximização da felicidade haveria de ser uma máxima aprazível de ser seguida. Ainda que o foco do utilitarismo esteja nas consequências e do imperativo categórico no dever da boa conduta moral, ambas prezam pela criação de um bem estar coletivo.

Durante a construção desse estado de bem estar nota-se outro contraste entre as correntes ora abordadas, no utilitarismo as ações válidas visam a felicidade da maioria das pessoas, ainda que cause danos a uma minoria, isso, na perspectiva kantiana, anula o sujeito, pois o torna objeto e o transforma em um meio para alcançar a felicidade de outrem ou de uma maioria, ao ferir a autonomia do sujeito não possui valor moral, na medida que a moralidade se dá pela universalização da motivação da ação, a saber, leis que são criadas pela razão tendo como base o dever em si (CORSI e WEBER, 2020). Relativo a vida coletiva, tem-se que, conforme Mill (2007), aqueles que não possuem afetos públicos ou privados e sentimento de companheirismo com os interesses da coletividade vive uma vida insatisfatória, sendo o egoísmo juntamente com a falta de desenvolvimento intelectual as principais causas desse estado de insatisfação. Logo, nota-se que o utilitarismo, olha pela felicidade do sujeito, ainda que prezando pela maioria.

Fonte: https://verdadenapratica.wordpress.com/2015/05/29/utilitarismo-e-seus-impactos/

A fim de ilustrar, ante o dilema moral dos trilhos do trem, onde é possível decidir direcionar o trem para trilhos onde há uma pessoa ou para onde há cinco pessoas amarradas aos trilhos, sob a perspectiva Kantiana, a ação é guiada por deveres e princípios universais, e certos atos são moralmente errados independentemente das consequências, não seria aceitável, portanto, tomar essa decisão, já um utilitarista, rapidamente responderia por decidir salvar as cinco pessoas em detrimento de uma, uma vez que objetivo é minimizar o sofrimento e maximizar o bem-estar.

Enfim, uma análise epistêmica sobre a boa conduta humana, individual e coletiva, pode evidenciar nuances quando analisada à luz de diferentes teorias que, de forma grosseira, prezam pelo mesmo bem estar coletivo. Olhando para o utilitarismo, onde busca-se a maximização da felicidade possível ou para a moral kantiana da universalização do dever ético, ambos encontram limitações, naturalmente, ante um dilema moral, e o campo de debate é infindável.

Referências: 

BENTHAM, J. Uma Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação. In: Jeremy Bentham. Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979. 

CORSI, U. V; WEBER T. Immanuel Kant: Autonomia e Vontade, uma Crítica ao Utilitarismo. REVISTA SEARA FILOSÓFICA, Número 21, Inverno/2020, pp. 32-48, 2020. Disponível em:. Acesso em: 24 set. 2024. 

HERRERO, F. Javier. A ÉTICA DE KANT. Síntese: Revista de Filosofia, [S. l.], v. 28, n. 90, p. 17–36, 2001. DOI: 10.20911/21769389v28n90p17-36/2001. Disponível em:< https://www.faje.edu.br/periodicos/index.php/Sintese/article/view/563.> Acesso em: 24 set. 2024. 

MILL, S. O que é o utilitarismo? In: MILL, S. Utilitarismo. São Paulo: Escala, 2007

Injustiça Epistêmica: a exploração do trabalho epistêmico no ambiente acadêmico

 Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Patricia Terezinha Corrêa.

Goldman e Kidd (2020), caracterizam epistemologia como uma ciência ou um estudo do conhecimento, destacando que, para que uma epistemologia seja minimamente satisfatória, ela deve desempenhar um(ns) papel(éis) social(is). Isto é, os autores declaram que é possível que a epistemologia abrace perspectivas sociais sobre o conhecimento, sem que perca seus padrões epistêmicos tradicionais.

Com base no conceito de epistemologia, Kidd, Medina e Pohlhaus (2017) definem injustiça epistêmica como as formas de tratamento injusto associados as questões do conhecimento, compreensão e participação nas práticas comunicativas. Desta forma, os autores trazem diversos tópicos de tratamentos indevidos, sendo alguns deles: exclusão e silenciamento, mal-ouvidos ou mal representados, ter status ou posição diminuídos nas práticas comunicativas, diferenciais injustos de autoridade e/ou agência epistêmica, ser cooptado ou instrumentalizado etc. Ainda, os autores trazem quatro possíveis lentes usadas para identificar as injustiças epistêmicas: 1. Contrato Social e Ignorância Coordenada, com duas categorias: aquelas que estrutura relações imparciais entre os conhecedores (knowers – geralmente brancos), criando uma classe de sub-conhecedores (sub-knowers – geralmente não-brancos) e aquelas que desviam a atenção epistêmica em benefício da dominância (privilegiando os grupos dominantes); 2. Interdependência e Relações Epistêmicas; 3: Graus de Mudança e/ou Sistemas Epistêmicos e; 4. Trabalho Epistêmico e Produção do Conhecimento – relaciona-se com três categorias: 1. Injustiças agenciais epistêmicas; 2. Invalidação do trabalho epistêmico e; 3. Exploração do trabalho epistêmico de determinados conhecedores (exploram injustamente o trabalho epistêmico). 

Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/la-filosof%C3%ADa-en-recuperaci%C3%B3n-miguel-alemany-h7ogf/

No tocante da lente do Trabalho Epistêmico e Produção do Conhecimento, especificamente sobre a categoria de exploração epistêmica Kidd, Medina e Pohlhaus (2017, citando Allen 2017; Hall 2017) traz que o poder não apenas suprime, mas também produz. Neste sentido, o caso dos alunos e jovens pesquisadores da Dinamarca que acusaram orientadores e cientistas mais velhos de roubo de ideias ganha um grande destaque. 

Um dos pesquisadores entrevistado por Marques (2022), afirma que viu seu orientador acrescentar uma lista de outros autores/pesquisadores que não tinham conexão alguma com sua pesquisa, inclusive pesquisadores estrangeiros, afirmou, ainda, que “Na minha opinião, foi um caso claro de intercâmbio de autoria, pois o nome do meu professor também foi visto em muitos trabalhos posteriores publicados por essa equipe do exterior”. Como este caso, Marques trouxe diversos outros casos parecidos: artigos escritos com base na dissertação de mestrado dos alunos, remoção do nome de alunos de seus projetos etc. 

Estes casos de exploração de trabalho epistêmico são muito comuns, pois os pesquisadores/alunos estão em posições desfavorecidas (não dominantes) em relação aos seus orientadores, e, muitas vezes, como em outro caso relatado por Marques (2022), os pesquisadores são excluidos e sofrem ameaças de retaliação, quando exigem reconhecimento. 

Neste sentido, Kidd, Medina e Pohlhaus (2017, citando Henning, 2015), relatam que uma forma de resistência a essa exploração epistêmica, seria os conhecedores (knowers) não dominantes se retirem das interações epistêmicas as quais eles avaliam justificadamente como exploratórias. 

Referências 

GOLDMAN, A. The What, Why, and How of Social Epistemology. In: Fricker, M; Graham, P.J; Henderson, D. & Pedersen, N.J.L.L. The Routledge Handbook of Social Epistemology. New York, Routledge Taylor & Francis, 2020, p. 10-21. 

KIDD, I.J; MEDINA, J.; POHLHAUS, Jr., G. (Edd) The Routledge Handbook of Epistemic Injustice, 2017. Introduction e Capítulo 1 – Varieties of Epistemic Injustice. In: https://www.routledge.com/The-Routledge-Handbook-of-Epistemic-Injustice/Kidd Medina-PohlhausJr/p/book/9780367370633

REVISTA PESQUISA FAPESP. Alunos e jovens pesquisadores da Dinamarca acusam orientadores e cientistas mais velhos de roubo de ideias. Revista Pesquisa FAPESP, 25 jul. 2024. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/alunos-e-jovens pesquisadores-da-dinamarca-acusam-orientadores-e-cientistas-mais-velhos-de roubo-de-ideias/. Acesso em: 3 set. 2024.  

As formas epistemológicas e consequentes injustiças

 Pequeno ensaio produzido pelo acadêmico Leonardo Quadros Schroeder Pontes.

A abordagem trazida pelos textos escritos por Alvin Goldman (2020) e Ian Kidd e outros (2017), são conexos e complementares, quando tratam respectivamente do que seria a Epistemologia Social e suas três faces lá designadas e, ao mesmo tempo, a percepção trazida pelo segundo texto quando trata de injustiça epistêmica.

Em minha percepção, inicialmente, fica bastante claro que há de se separar a Epistemologia Tradicional da social, tendo em vista que a primeira está focada apenas no conhecimento e como ele pode ser produzido e justificado e, por outro lado, a Epistemologia Social está preocupada também com a coletividade de agentes epistêmicos, considerados em grupos, equipes ou instituições. Essa compreensão social epistemológica foi construída após a superação do entendimento egocêntrico de metodologia autocentrada de Descartes, que em o Discurso do Método (1979), aborda questões específicas baseadas na razão e comprovação científica de tudo sem qualquer ausência de dúvida, como se modelo matemático fossem. Nessa toada, como forma de afirmar a Epistemologia Social ainda com padrões tradicionais, estabeleceu-se três abordagens que corroboram o alegado, quais sejam: interpessoal, social e institucional.

Fonte:https://www.rededucativajamli.com/2017/03/banco-de-preguntas-filosofia.html

Certamente, vislumbro que essas teorias amplificam demais o debate, permitindo que o entendimento nessas três esferas de tudo se trate e se conecte com a Epistemologia tradicional, que se preocupa apenas com o conhecimento e não com as relações sociais. As riquezas das três fontes epistemológicas acima se permeiam quando se entende o processo de conhecimento alavancado por cada um de seus estágios, pois ao mesmo tempo que o caráter interpessoal é a formação de convicção por meio de ideias de terceiros que solidificam sua própria visão, a compreensão coletiva institucional decorre naturalmente da primeira. Entendo que cada um que possui suas convicções, sem questionar a origem, mas compreendendo que todo ser individual participa de uma coletividade e, por vezes, de compreensões institucionais, é perfeitamente crível que a leitura primária interpessoal decorra das pessoas mais próximas e, certamente a leitura coletiva ou de classe sobre determinado assunto será a mesma ou muito próxima. Assim, partindo para uma visão mais ampla fica mais fácil entender que o aspecto institucional é totalmente influenciado e incorporado pelas formas epistemológicas primeiras, cujas percepções e aceitações são solidificadas através da crença de seus membros, porém, não sendo considerados uma coletividade. 

Nesse sentido, seja qual for à forma de entendimento da Epistemologia Social, percebo que a injustiça epistêmica pode estar presente em qualquer delas e de variadas formas e, como revela o texto, a injustiça ocorre dentro das atividades e instituições em que os conhecedores se envolvem a conhecer. Percebo que o texto de Kidd, Medina e Pohlhaus (2017), define essa injustiça como a negação do direito a contribuir para o conhecimento ou desqualificar o conhecimento do outro, geralmente agindo com agentes privilegiados que se escoram em seus argumentos de autoridade ou precedência sobre o tema. De maneira bastante clara, definem os autores que nem sempre essa injustiça é voluntária, mas, afirmam que podem ter características testemunhais ou hermenêuticas. Mais precisamente acerca dessas duas modalidades, traz o texto o racismo como forma de ideologia e meio de legitimação da lógica anti-negra, o que de fato mostra-se grave quando se considera uma questão estrutural e de impacto geral inclusive no campo do conhecimento. Pedro Demo, em sua obra Metodologia Científica em Ciências Sociais (1981), já alertava no trecho em que abordava a Demarcação Científica, que a ideologia não é fonte da ciência e de demarcação, bem como reconhece a dificuldade de extirpá-la do processo de conhecimento, mas revela a necessidade de neutralizá-la quando do momento de pesquisas, ou no caso em específico, na percepção de produção de conhecimento seja qual for à raça ou etnia do conhecedor. 

Vejo de maneira muito evidente, dentro da instituição que trabalho que possui natureza militar, que há dois vieses bem claros de atuação epistêmica e suas injustiças. A primeira delas é o entendimento que agimos em regra como um grupo ou classe, com mesmos padrões conceituais, corroborando a ideia de Epistemologia Social Coletiva e, segundo, a percepção geral e injustificada que órgãos militares não são locais em que mulheres deveriam trabalhar e, que as mulheres que lá estão hoje, contribuem de maneira diversa da pretendida, bem como pouco sabem como contribuir para os aspectos gerais de conhecimento da instituição, sendo colocadas em segundo plano quando se trata de atividade operacional e administrativa. Penso que na mesma toada do preconceito com sul global quanto à produção de conhecimento em relação ao eixo americano e europeu, esse ponto de vista solidifica-se em instituições militares brasileiras, pois, de forma semelhante ao que ocorre no texto quanto às filósofas feministas que perceberam a dominância e opressão do patriarcado sobre sua produção de conhecimento, não é diferente penso quanto às mulheres militares em nosso país, que por vezes são subjugadas intelectualmente somente pela sua condição de ser mulher e, na atualidade, já demonstram ser muito mais capazes que os homens nas mais diversas atividades. Tudo isso, bem definidamente ocorre quando o que chama o texto de contrato social permite que aqueles que estão em posição de dominância desenvolvam uma arrogância epistêmica que não os fazem querer mudar o “status quo” e, no caso específico das mulheres militares, ou todas aquelas em que estejam em situação semelhante, pode-se caracterizar como exclusões de primeira ordem, ou seja, aquela que dá menos credibilidade a contribuição do conhecedor pelo preconceito de identidade, o que é fato presente nos mais diversos setores da sociedade. 

Referências Bibliográficas 

DEMO, P. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, 1981. 

DESCARTES, R. Discurso do Método. In René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979. 

KIDD, I.J; MEDINA, J.; POHLHAUS, Jr., G. (Edd) The Routledge Handbook of Epistemic Injustice, 2017. Introduction e Capítulo 1 – Varieties of Epistemic Injustice. In: https://www.routledge.com/The-Routledge-Handbook-of-Epistemic Injustice/Kidd-Medina-PohlhausJr/p/book/9780367370633 

GOLDMAN, A. The What, Why, and How of Social Epistemology. In: Fricker, M; Graham, P.J; Henderson, D. & Pedersen, N.J.L.L The Routledge Handbook of Social Epistemology. New York, Routledge Taylor & Francis, 2020, p. 10-21. 

A “fonte oficial” em xeque: como validar a veracidade das crenças produzidas por grupos epistêmicos institucionais

 Pequeno ensaio produzido pelo acadêmico Julio Cesar Schvambach.

Com a democratização dos meios de comunicação, as instituições e grupos epistêmicos chamados “fontes autenticadas” estão sob xeque. Antes praticamente inquestionáveis, agora os mesmos precisam se justificar diante de um grupo cada vez maior de pessoas que questionam a sua legitimidade e veracidade.

Diante da massificação das chamadas “Fake News”, um nome popular que se dá a um rumor falso, são necessários novos meios de fazer com que os grupos epistêmicos considerados como autoridade ou especialistas possam ter as crenças produzidas por eles validadas, e mais do que isso, ter os meios de participação social que garantam essa validação e justificação.

A epistemologia social é uma das principais interessadas na análise e no impacto de como essas crenças possuem uma participação social na sua formação e quais as crenças verdadeiras que são geradas a partir dela. O presente trabalho pretende trazer luz à presente discussão.

O capítulo 02 do livro “The Routledge Handbook of Social Epistemology”, que tem como título “The What, Why, and How of Social Epistemology”, escrito por Alwin Goldman (2020), começa com as três questões centrais sobre as quais se apoia a epistemologia social: “o que?”, “por que?” e “quando?”. O objetivo final da epistemologia, seja ela tradicional ou sua variante, a epistemologia social, busca fazer com que as pessoas possam ter crenças verdadeiras, ou pelo menos, melhores. No entanto, a discussão sobre o que seria uma crença verdadeira, ou como ela se fundamentaria como legítima e genuína, tem sido fonte de questionamentos e intensos debates ao longo do últimos 100 anos. A começar pelo debate iniciado na segunda metade do século que questionou a própria noção de verdade, racionalidade e objetividade, que geralmente eram colocadas tendo como pano de fundo interesses políticos e de dominação social.

Fonte: https://irmacaputoresearch.com/estudos_reflexoes/epistemologia-filosofia-estetica-e-filosofia-da-linguagem/

Um dos pontos que o capítulo 02 do livro mencionado acima trata é justamente o da Fonte Autenticada, assunto sobre o qual este paper pretende debater. Num momento em que o mundo passa por um questionamento dos modelos de sociedade vigentes nas democracias ocidentais, e a forma como se produziu ciência até então (levanto em consideração fatores como a justiça epistêmica), a chamada “fonte autenticada” tem sido questionada a respeito da sua genuinidade, autoridade e mesmo a neutralidade. Quando falamos de “fonte autenticada”, significa abordar, por exemplo, de grupos epistêmicos coletivos ou institucionais que fornecem informações e conhecimentos considerados como “oficiais”, que servem como parâmetro. Podemos, dentro dessa categoria, colocar os órgãos governamentais de estatística que tratam sobre saúde, emprego, renda e outras informações sociais. Também podemos colocar conselhos de classe como os conselhos de medicina, conselhos de engenharia, ou organizações do terceiro setor que se dedicam a pesquisar assuntos importantes como questões de segurança pública, inclusão e combate a formas de opressão e violência, entre outros.

Ao falar sobre duas das variantes da Epistemologia Social, a ES Interpessoal e a ES Coletiva, um questionamento fica evidente e quase gritante: a necessidade que temos de desacreditar nos rumores. Rumores seriam informações improvisadas ou incompletas que circulam entre um considerável número de pessoas. Já a “Fonte Autenticada” seria embasada pela palavra de um especialista, que teria, em tese, um conhecimento elevado sobre uma determinada área do saber. Mas como confiar e aceitar as declarações deste ou daquele especialista? E quando as palavras de especialistas diferentes entram em dissonância, qual das duas opiniões devem ser aceitas? Como aceitar que aquele saber não foi propositalmente manipulado?

Embora as respostas dessas perguntas ainda estejam em construção pelos epistemólogos sociais, podemos aventar algumas pistas para poder responder isso. A primeira, é que podem existir processos que são incondicionalmente confiáveis, não porque nunca errem, mas porque a partir dele se produz um número elevadíssimo de crenças verdadeiras. Porém, a questão da justificação e da racionalidade deve também ser condicionada a uma possibilidade de atestação por agentes epistemológicos distintos, que após a análise da crença produzida, poderão concordar ou não se ela é de fato verdadeira. Um exemplo real disso seria a auditoria nos processos eleitorais das nações democráticas. Apesar das respostas para a justificação das chamadas Fontes Autenticadas ainda serem incompletas, há pistas que nos permitem pelo menos deduzir a falibilidade destas e conduzir a sociedade a crenças melhores.


A epistemologia social nos faz refletir sobre como os grupos epistêmicos produzem (e se produzem) conhecimentos que resultam em crenças verdadeiras, tanto para eles próprios quanto para os membros das instituições que são geridas ou influenciadas por esses agentes ou grupos epistêmicos. A veracidade do que uma “fonte autenticada” produz de crenças vai depender da sua disponibilidade (ex.: ditaduras ou autocracias só possuem uma fonte autenticada, sem possibilidade de auditoria externa) e do quanto de crenças verdadeiras a partir do conhecimento produzido por ela é gerado. Num momento em que a internet massificou não somente as informações úteis como também os rumores infundados e sensacionalistas, é dever dos teóricos epistêmicos sociais se debruçar em busca de garantir a confiabilidade das crenças como também preocupar-se com o seu impacto social e o quanto as massas participam desses processos.

 

REFERÊNCIAS

GOLDMAN, A. The What, Why, and How of Social Epistemology. In: Fricker, M; Graham, P.J; Henderson, D. & Pedersen, N.J.L.L  The Routledge Handbook of Social Epistemology. New York, Routledge Taylor & Francis, 2020, p. 10-21


A injustiça epistêmica no processo penal e a utilização do Tribunal do Júri como instrumento de epistemologia social

 Pequeno ensaio produzido pelo acadêmico Bruno Bertan Sartor.

Tal como previsto no texto do Kidd et al. (2071), a injustiça epistêmica se dá em diversas áreas das ciências, inclusive nas ciências jurídicas e na administração da justiça. O presente excerto trata acerca da injustiça epistêmica na administração da justiça, em específico no processo penal, bem como a utilização do Tribunal do Júri como instrumento de epistemologia social (GOLDMAN, 2020).

No direito processual penal, cujo código legal utilizado no Brasil é do ano de 1941, existem diversos resquícios de injustiça epistêmica. Kidd et al. (2017) assevera que é ainda comum essa espécie de injustiça estar presente dentro do sistema e práticas legais.

A apreciação da prova no processo criminal pelo juiz singular é um exemplo de injustiça epistêmica no âmbito judicial. Isso porque, em processos semelhantes, em que crimes iguais ou da mesma espécie são julgados, cada juiz, de acordo com os ditames legais e com base na sua interpretação do direito, pode julgar proferindo decisões diferentes e até mesmo contraditórias entre si (KIDD et al., 2017).

Uma das soluções para o problema apresentado, conforme pontua Kidd et al. (2017), seria a utilização de tribunais colegiados, ou seja, com mais de um membro julgador, de forma que a prova fosse analisada de forma conjunta. No Brasil, a Carta Constitucional de 1988, no capitulo reservado ao Poder Judiciário e à administração da justiça, estabeleceu que as decisões de segundo grau, quando há um recurso contra a decisão singular de primeiro grau, devem ser colegiadas. A análise conjunta da prova e de outros temas processuais possibilita que haja maior certeza no julgamento, reduzindo, assim, possíveis erros judiciais.

Fonte: https://www.tjma.jus.br/midia/cgj/noticia/513131/tribunal-do-juri-de-governador-nunes-freire-absolve-reu-por-homicidio

Porém, por influência do direito anglo-saxão, existe no Brasil, já no primeiro grau de jurisdição, a existência de um Tribunal colegiado, o denominado Tribunal do Júri, citado por Goldman (2020) como um instrumento de epistemologia social.

Epistemologia social é um ramo da epistemologia que prestigia os processos de tomada de decisões plurais, em um processo que se preocupa com toda a coletividade, em contrate com a epistemologia tradicional, que é voltada ao individualismo (GOLDMAN, 2020).

Em ciência a crença de um grupo coeso, e não apenas de um único indivíduo, tem um peso muito mais forte (GOLDMAN,2020). No âmbito judicial, os crimes dolosos contra a vida (homicídio, aborto, infanticídio e indução ao suicídio), em face de sua gravidade, são julgados por um tribunal coletivo, conhecido como “do júri”.

O Tribunal do Júri, composto por cidadãos maiores que cumprem certos requisitos legais, ao analisar o processo penal em conjunto com o magistrado, possibilita que a decisão tomada (condenatória ou absolutória) seja protegida de erros e tenha uma força vinculante mais forte perante a sociedade.

Goldman (2020) cita o Tribunal Popular como uma forma de epistemologia social no âmbito do Poder Judiciário justamente por essa tomada de decisão coletiva, onde o colegiado é soberano.

Destarte, o exemplo do Tribunal do Júri, como instrumento de epistemologia social dentro da justiça tende a ser um farol para aqueles processos de tomadas de decisão individual. Em outros países, como os Estados Unidos da América, a regra, hoje, já é a utilização do Júri para julgamento da maioria dos crimes. Esse processo pode chegar até o Brasil, conforme algumas propostas legislativas que tramitam no Congresso Nacional.

Por fim, é de se ressaltar que a utilização do Tribunal Popular, além de um exemplo de epistemologia social, ajuda a evitar a injustiça epistêmica no âmbito judicial, já que a tomada de decisões se dá de maneira plural, com vários “pontos de vistas” existentes na sociedade sendo representados pelos jurados.

REFERÊNCIAS:

 

GOLDMAN, A. The What, Why, and How of Social Epistemology. In: Fricker, M; Graham, P.J; Henderson, D. & Pedersen, N.J.L.L  The Routledge Handbook of Social Epistemology. New York, Routledge Taylor & Francis, 2020, p. 10-21.

 

KIDD, I.J; MEDINA, J.; POHLHAUS, Jr., G. (Edd) The Routledge Handbook of Epistemic Injustice, 2017. Introduction e Capítulo 1 – Varieties of Epistemic Injustice.


As origens do pensamento moderno: da antiguidade clássica ao empirismo e ao racionalismo

 Pequeno ensaio produzido pelo acadêmico Jean Teixeira Manoel.

           Este ensaio argumentativo apresenta minha percepção sobre as diferentes abordagens do pensamento cartesiano, conforme compreendido a partir do Discurso do Método, de René Descartes (1979), e da perspectiva histórica da ciência, baseada no que assimilei da obra de Kneller (1980), A Ciência como Atividade Humana. Descartes (1979) me levou a refletir sobre a importância da crítica individual para a construção de um conhecimento sólido e racional, enquanto Kneller (1980) destacou para mim o caráter coletivo e histórico do conhecimento científico, desenvolvido através da interação entre pesquisadores. Assim, o objetivo deste ensaio é argumentar, a partir da minha compreensão, que o desenvolvimento do conhecimento científico depende tanto da reflexão individual quanto da colaboração coletiva.

Em um dos trechos do Discurso do Método, Descartes (1979) distingue dois tipos de "espíritos" ou mentalidades. O primeiro tipo é o daqueles que acreditam ser mais habilidosos do que realmente são (Descartes, 1979), como uma pessoa que tenta resolver um problema complexo sem conhecimento suficiente e, ao se precipitar, acaba se perdendo. O segundo tipo é o daqueles que reconhecem suas limitações e preferem confiar nos julgamentos de outros mais experientes (Descartes, 1979), como alguém que, em vez de resolver um problema sozinho, busca orientação de um especialista. Ademais, outro ponto central do autor é o desenvolvimento de um método que possa ser aplicado a diferentes áreas do conhecimento, garantindo conclusões que não podem ser objeto de dúvidas. A construção desse método se baseia em quatro preceitos fundamentais: aceitar como verdade apenas o que é claro e evidente, dividir os problemas em partes menores, conduzir o pensamento de maneira ordenada do simples ao complexo e revisar todos os aspectos de forma completa (Descartes, 1979). Observo que esses preceitos sublinham a necessidade de rigor e de uma abordagem metódica para evitar erros e omissões no processo de conhecimento.

A leitura de Descartes (1979) nos faz refletir também que o conhecimento seguro e verdadeiro não é fruto de intuições rápidas, mas de uma construção paciente, baseada em princípios sólidos e uma constante revisão. Isso pode ser aplicado diretamente ao desenvolvimento acadêmico e à prática científica, onde a clareza e a evidência são essenciais para a solidez das conclusões.




Fonte: https://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/artigos/origem-e-peculiaridades-da-pesquisa-de-fenomenos-sociais-nas-ciencias-com-o-uso-de-grupos-focais

Por outro lado, ao ler A Ciência como Atividade Humana, de Kneller (1980), destaco a citação da ciência como o conhecimento da natureza e sua exploração, o que envolve história, métodos de investigação e a participação de uma comunidade de pesquisadores (Kneller, 1980). Percebi durante a leitura que a ciência é vista como um empreendimento coletivo e histórico, construído por meio da interação de comunidades científicas ao longo do tempo. Essa visão me faz lembrar que o conhecimento não é apenas um esforço individual, mas também depende da colaboração entre diferentes pesquisadores. Aplicando isso à minha pesquisa para a elaboração da dissertação, entendo que as entrevistas que pretendo realizar com os gestores de instituições de ensino não serão uma mera coleta de opiniões isoladas, mas sim parte de um processo maior de construção coletiva de conhecimento sobre a formação do aluno. Ao ouvir diversos gestores, conseguirei capturar diferentes perspectivas que, juntas, podem oferecer um conhecimento mais completo.

Logo, percebo que a historicidade da ciência revela que o conhecimento científico é um produto não apenas da lógica e da razão, mas também das condições históricas e culturais. No contexto de Descartes (1979) e de Kneller (1980), refleti que ambos os autores abordam a construção do conhecimento sob perspectivas diferentes, mas de forma complementar. Sob a minha percepção, Descartes (1979) ressalta a importância da reflexão crítica individual como fundamento para se alcançar um conhecimento seguro e racional, ou seja, cada pessoa deve reconstruir suas próprias crenças com base na razão, evitando suposições não verificadas. Por outro lado, em Kneller (1980), percebi que a ciência é uma atividade coletiva e histórica, onde o conhecimento se desenvolve por meio da colaboração entre diferentes pesquisadores e da construção conjunta de teorias ao longo do tempo. A partir dessas leituras, entendo que, como pesquisador, preciso buscar um equilíbrio entre a construção individual do conhecimento e a construção coletiva, pois considero que essas duas abordagens se complementam.

REFERÊNCIAS

DESCARTES, R. Discurso do Método. In René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

KNELLER. A Ciência como Atividade Humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 15-29


Epistemo o quê?

 Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Luciana Pereira da Rocha Safe.

Epistemologia. Pode ser conceituada pelo dicionário com a brevidade de algumas linhas. A saber: substantivo feminino. Conjunto de conhecimentos sobre a origem, a natureza, as etapas e os limites do conhecimento humano; teoria do conhecimento. Estudo crítico das premissas, das conclusões e dos métodos dos diferentes ramos do conhecimento científico, das teorias e das práticas; teoria da ciência.(Michaelis, 2024).

Contudo, o conceito linguístico não abarca toda a complexidade do conceito teórico. Greco (1999) apresenta a epistemologia em 526 páginas e 17 capítulos cujos teóricos argumentam cada campo conceitual. Partindo da premissa da definição do que é epistemologia Greco (1999) enfatiza que coexistem várias objeções que caricaturam a epistemologia como (a) a busca pela certeza, (b) a tentativa de encontrar fundamentos absolutos, (c) a tentativa de legitimar outras disciplinas, como a ciência, e (d) a projeto de refutação do ceticismo. Da mesma forma, Tsoukas e Chia (2011) contextualizam a epistemologia em 13 capítulos com diferentes óticas e percepções autorais.

No âmago conceitual parece mais fácil afirmar o que não é epistemologia, do que seria a epistemologia verificando todas as suas possibilidades. Ademais, no ceticismo como corrente epistemológica, Greco (1999) já infere que negar o saber ao se questionar o conhecimento de forma repetitiva é por si só incongruente por estudar um conhecimento na teoria sequer existiria. Greco (1999) apresenta entre os problemas tradicionais o ceticismo cuja questão central da teoria do conhecimento poderia ser: "O que podemos saber?" Ao responder de forma pessimista o cético nega que a existência de conhecimento. Inclui uma negação do conhecimento científico, mas significa incluir uma negação do conhecimento comum. Se no ceticismo dificilmente será possível chegar na ciência colocada a prova, adiciona-se que poderemos saber algo aplicando a dúvida em todas as instâncias? Se o cético conclui que não há como justificar as crenças em questão e que, portanto, não temos o tipo relevante de conhecimento, então, nunca seremos conhecedores de nada?

Fonte: https://filosofianaescola.com/conhecimento/epistemologia/
Fonte: https://filosofianaescola.com/conhecimento/epistemologia/

Por sua vez, Japiassú (1991) categoriza o saber, a ciência e a epistemologia. Sendo o primeiro, conjunto de conhecimentos metodicamente adquiridos, sistematicamente organizados e suscetíveis de serem transmitidos por processo pedagógico de ensino. O segundo, conjunto das aquisições intelectuais com a matematização de dados empíricos. E o terceiro como estudo metódico e reflexivo do saber, de sua organização, de sua formação, de seu desenvolvimento, de seu funcionamento, de seus produtos intelectuais. E ainda o autor divide em tipos de epistemologia: global, particular e específica. Ressalta-se que desde o início da obra o autor nomeia “introdução ao pensamento epistemológico” corroborando que não se encerra a discussão e apenas se começa para outras que ampliam as ideias apresentadas. Por exemplo, ele apresenta a relação da filosofia das ciências, a história das ciências, a psicologia das ciências, e a sociologia do conhecimento. Certamente cada tópico poderia ser tema de um livro a parte

Portanto, estudar como o saber se consolida, ou como sabemos o que sabemos, deve ter sido algo pensado após a existência (ou a crença da existência) de um conhecimento prévio? Possivelmente não seria possível a epistemologia como estudo do saber, caso não fosse pressuposto que o saber exista como objeto de estudo.

Portanto, Demo (1985) quando enfatizava que o saber e a ciência tinham sua existência em um interesses de um grupo específico, ele estava certo. Contudo, o estudo do objeto dependendo da forma como se analisa poderia destruir o objeto de estudo conforme a analogia de Tsoukas (2005) quando na analogia do entomologista demonstra que no ímpeto de encontrar seu raro animal de estudo e colocar a lente para observar melhor termina por destruir o animal queimado com a luz da lente em conjunto com o sol. A questão seria então sanada pela epistemologia quando permite que diferentes lentes analisem o saber como objeto de estudo para não destruí-lo? Quiça faça sentido a questão de diferentes óticas para a própria epistemologia, uma vez que a ciência é justamente a proposta da construção e reconstrução das verdades.

Referências Bibliográficas 

DEMO, P. Demarcação científica. In: DEMO, P. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, 1985.

 GRECO, J. Introduction: What is Epistemology? The Blackwell Guide to Epistemology. Massachussets/Oxford: Blackwell Publishers Ltda, 1999, p. 1-33. 

JAPIASSU, H. Alguns instrumentos conceituais. O que é a epistemologia? In: Introdução ao pensamento epistemológico. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991, p. 15-39. 

MICHAELIS.Michaelis dicionário. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/busca? id=p5Mp. Acesso em: 08 de agosto de 2024. 

TSOUKAS, H. Introduction In: TSOUKAS, H. Complex Knowledge: Studies in Organizational Epistemology. Oxford. Oxford University Press, 2005. p 1-9. Disponível em: https://books.google.com.br/books?hl=pt BR&lr=&id=h8gSDAAAQBAJ&oi=fnd&pg=PR9&dq= 

TSOUKAS, H. & CHIA, Introduction: Why philosophy matters to organization theory? In: TSOUKAS, H. & CHIA, Philosophy and Organizational Theory. Bingley: Esmerald. 2011, p. 1-22


A Objetividade Positivista e a Administração: Limites e Possibilidades em busca de harmonia

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Mariana Ribeiro Pires.

Este short paper tem como objetivo analisar a influência do positivismo, especialmente a partir das ideias de Auguste Comte e Émile Durkheim, na construção de uma ciência da administração e em suas implicações para o campo administrativo. Além disso, realiza um contraponto com as ideias de Kant, que, como notas dissonantes, desafiam a harmonia da composição positivista, particularmente a respeito dos limites do conhecimento humano.

O positivismo, ao defender a observação objetiva e a busca por leis gerais, forneceu as bases para uma abordagem racional da administração, mas a transposição direta do método positivista para o campo social, marcado pela complexidade e subjetividade, apresenta limitações importantes, demandando uma adaptação crítica aos desafios contemporâneos.

Comte, em seu “Discurso sobre o Espírito Positivo”, define o positivismo como um estado de desenvolvimento intelectual da humanidade, caracterizado pela busca do conhecimento objetivo através da observação dos fenômenos e da formulação de leis gerais que os regem. Essa visão influenciou a nascente área da administração, que buscava se firmar como um campo científico e encontrar soluções racionais para os desafios da organização social. 

Durkheim, em “As Regras do Método Sociológico”, aprofunda essa perspectiva ao defender que os fatos sociais devem ser tratados como “coisas” e estudados de forma objetiva, tal como os fenômenos da natureza. Essa abordagem, baseada na observação e na experimentação, influenciou a busca por métodos de gestão mais eficientes e racionais, como a administração científica de Taylor, que visava otimizar o trabalho a partir da análise dos tempos e movimentos, assim como uma orquestra onde cada músico toca no tempo certo, a ciência como a maestrina que ajustaria cada movimento para que tudo funcione de forma eficiente e harmoniosa. 

É nesse ponto que as ideias de Kant, em sua obra “Crítica da Razão Pura”, se mostram particularmente relevantes para a nossa análise. Kant argumenta que o conhecimento humano é limitado pela estrutura da própria razão. Para ele, podemos conhecer o mundo não como ele é em si mesmo, mas apenas como ele se apresenta para nós através dos nossos sentidos e das categorias a priori do entendimento. 

Trazendo essa perspectiva para o campo da administração, podemos questionar a viabilidade da objetividade absoluta defendida pelos positivistas. A administração lida com diferentes melodias, com indivíduos e grupos, com suas motivações, valores, crenças e histórias de vida, aspectos subjetivos que não se encaixam perfeitamente no modelo positivista de análise.

Podemos ter como um exemplo prático comparando com a gestão de uma orquestra. A abordagem positivista buscaria identificar as melhores práticas de execução musical, baseadas em dados objetivos, como a precisão das notas, a sincronia entre os músicos e a qualidade do som. Entretanto, a motivação e a satisfação dos músicos são influenciadas por fatores subjetivos, como o ambiente de ensaio, o estilo de regência, o significado que a música tem para cada indivíduo e as relações interpessoais entre os membros da orquestra, fatores esses complexos e nem sempre passíveis de mensuração. 

Em síntese, o positivismo, especialmente a partir das ideias de Comte e Durkheim, forneceu as bases para uma abordagem racional da administração, fundamental para a consolidação da área. No entanto, a complexidade dos fenômenos sociais exige uma adaptação crítica dessa perspectiva. 

A administração, enquanto campo de conhecimento e prática, deve buscar um equilíbrio entre a objetividade e a sensibilidade para lidar com as dimensões humanas e sociais da organização, reconhecendo os limites do método positivista e buscando abordagens mais abrangentes para os desafios contemporâneos, como uma sinfonia que harmoniza a precisão dos instrumentos com a emoção da melodia. 

 Fonte: https://www.boomplay.com/songs/169660772

Referências: 

KANT, I. Crítica da razão pura. 4.ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. Revista Mente, Cérebro e Filosofia Kant- Hegel v. 3, jan 2005, p. 1-17. 

COMTE, A. Discurso sobre o espírito positivo. Porto Alegre: Editora Globo; São Paulo: Editora da USP, 1976. 

DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007
 

Alcance e os limites do saber no modo de viver urbano: diálogo entre as intuições sensíveis de Kant e fenômenos urbanos das grandes cidades sob a perspectiva sociológica

 Pequeno ensaio produzido pela acadêmica  Maria Luíza Lauxen Della Valle. 

 O contexto urbano é resultado do cruzamento de fatores econômicos, migratórios, sociais, culturais, entre outros. As perspectivas sociológicas acerca do fenômeno divergem entre compreendê-lo por sua interdependência ou autonomia em relação ao industrialismo, desenvolvimento econômico e monetário e ao capitalismo moderno (Wirth, 1967; Simmel, 1997). No entanto, as influências da modernidade nos modos de vida urbanos são inegáveis. A atual sociedade em rede, fruto da revolução tecnológica, tecnologias digitais, comunicação e transporte (Pinheiro; Castells, 1999), também é palco da homogeneização dos espaços, práticas e valores, onde a transmissão de informações e conhecimento, tem papel essencial para o fortalecimento de estruturas sociais e exercício de poder. Nesse contexto o “ser” pensante urbano deve adaptar-se a diminuição de barreiras espaciais, volatilidades dos processos e aceleração da vida urbana, de maneira que o “alcance e os limites da razão”(Revista Mente, Cérebro e Filosofia, 2005) passam a ser subordinadas à efemeridade e perda de referências espaciais e temporais.

O contexto e perspectiva apresentada são referenciais para o estudo da sociologia urbana, provenientes da escola sociológica de Chicago. As noções de aceleração e velocidade de fluxos e tempo no contexto moderno, propostas por Simmel, que representam a ruptura entre o espaçotempo e os sentimentos “...de instabilidade e de mudança permanente, intensificando a incerteza e a angústia” (Gomes, 2018; Haroche, 2014, p. 99), dialogam com as condições sensíveis do conhecimento e entendimento propostas por Immanuel Kant.

Immanuel Kant, filósofo influenciado por Descartes (1596-1650) e Hume (1711-1776), reúne a elementos do empirismo e racionalismo para propor uma ”metafísica sólida fundada rigorosamente como ciência, que há-de desenvolver-se de maneira necessariamente dogmática e estritamente sistemática, por conseguinte escolástica (e não popular)” (Kant, 2015, p.40), com fins no saber dos princípios que tornam possível todo o conhecimento, bem como suas limitações e condições.

 É na obra “A Crítica da Razão Pura” (1781), livro que divide o período Pré-Crítico e Crítico de Kant, que o mesmo realiza análises e proposições para as condições do saber. Esta, é marcada pela Metafísica Crítica, diferenciando-se da tradicional por ser o próprio objeto de investigação crítica da razão, e do Idealismo Transcendental, filosofia que passa a conferir primazia ao sujeito e no modo de conhecer do mesmo, no lugar do objeto. O mesmo propõe que a única forma de conhecer a realidade é como lhe aparece, e não como realmente é, a partir das intuições/percepções: "o objeto dos sentidos se regula pela nossa faculdade de intuição" (Kant, 2015 p.30). É evidente as heranças de Kant dos empiristas, perante a adoção da noção de que todo conhecimento começa com a experiência, mas não surge apenas da experiência. O mesmo sugere que os conhecimentos podem surgir de fontes a posteriori, como a experiência, e fontes a priori, sendo aquelas que se dão independentes “de toda e qualquer experiência”, como a razão pura- momento onde ele se aproxima do racionalismo.

 Neste short paper volta-se olhares às condições a priori do saber, analisados por Kant, como Juízo a priori, Número e Fenômeno, Formas de entendimento (superior) e Formas de sensibilidade (inferior), sendo este último o objeto deste argumento. Como mencionado, Kant assume que conhecemos as coisas de forma a priori de acordo com nossas percepções e intuições, seguido de nosso entendimento e conceitos. As coisas como são, são identificadas como Número, e as coisas como percebemos, identificadas como Fenômenos. Os Fenômenos são as percepções fruto das sensações, sendo organizadas pelas formas a priori de sensibilidade- Tempo e Espaço. Estes, não são conceitos empíricos mas faculdades cognitivas e intuitivas, estritamente necessárias para qualquer percepção.

As condições para o saber atribuídas às faculdades cognitivas intuitivas da sensibilidade pelo filósofo alemão encontram obstáculos quando analisadas sob o modo e os produtos da vida urbana, onde o Espaço e o Tempo influenciam fortemente as percepções das coisas. Sérgio Ricardo Gomes, doutor em sociologia pela Universidade Federal do Sergipe reflete sobre as formas do juízo e de conhecer na metrópole: 

 “a proteção do intelecto se esfarela perante a avalanche de imagens, signos, símbolos e ideias produzidas em uma velocidade indecodificável … processo asfixiante de racionalização do tempo e do espaço que deteriora qualquer possibilidade de construção de referências. As repercussões psicológicas e sociais desses fenômenos alcançam todo o mundo, pois sua sede é a vida urbana, e hoje o mundo é urbano.” (Gomes, 2018, p.64)

Fonte: Estuda.com A charge ao lado representa a desconexão dos indivíduos à realidade corrente, onde o valor monetário torna-se valor pessoal, tendo em vista a perda da essência das coisas e seus valores específicos//

 Ainda, quando analisadas as repercussões psicológicas da aceleração e velocidade do Espaço e Tempo da modernidade, os obstáculos são intensificados, visto os crescentes graus de impessoalidade, individualidade, indiferença e fadiga dos indivíduos. Este fenômeno, é conceituado por por Simmel como atitude blasé- oriunda de motivos fisiológicos, como a maximização de estímulos nervosos que torna os indivíduos incapazes de sentir novas sensações, e econômica, por meio do “ embotamento do poder de discriminar” (Simmel, 1976, p. 16), tornando as coisas opacas e distantes, onde o dinheiro torna-se referencial e denominador comum (Tardelli, 2016).

 Entende-se que a perspectiva sociológica das condições de sensibilidade, Espaço e Tempo, diferencia-se da de Kant, as quais têm independência ao mundo externo e experiência humana, visto que os modos de vida urbano estão intrinsecamente ligados aos seus acessos, usos, significados, etc. No entanto, a Metafísica Crítica e o fenômeno sociológico se aproximam ao reconhecer o sujeito e seus modos de conhecer como centrais para a percepção das coisas, onde Números, de acordo com as sensações provenientes do Tempo e Espaço, tornam-se Fenômenos.

 A partir da reflexão realizada, e da constatação de que as faculdades cognitivas humanas não têm capacidade de responder plenamente aos fluxos atuais, levantam-se questões acerca de que maneira então, “determinar o alcance e os limites da razão a partir do exame dos elementos que a constituem”(Revista Mente, Cérebro e Filosofia, 2005)? Seria necessário para obtenção do conhecimento uma mudança nos modos de vida? Ou rever as Formas de Entendimento Kantianas para o ordenamento dos dados das percepções persuadidas? Ou ainda, para além de reconhecer que não é possível conhecer a realidade das coisas, estas são substancialmente subjetivas e influenciam diretamente a forma como nos relacionamos?

Referências:

WIRTH, L. 1967 [1938]. O urbanismo como modo de vida. In: VELHO, O. G. (org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro. 

SIMMEL, G. (1997). A metrópole e a vida do espírito. In: FORTUNA, C. (org.). Cidade, cultura e globalização: ensaios de sociologia. Oeiras: Celta, 33-45 [1903]. 

HAROCHE,C. Avida mental nas grandes cidades contemporâneas diante da aceleração e do ilimitado. In: PECHMAN, R. M. (Org). A pretexto de Simmel: cultura e subjetividade na metrópole contemporânea. 1. ed. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2014. 

SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental. In. VELHO, Otávio Guilherme (Org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

KANT, I. Crítica da razão pura. 4.ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. p.17-68. Revista Mente, Cérebro e Filosofia Kant- Hegel v. 3, jan 2005, p. 1-17 

GOMES,Sérgio Ricardo. Formas de subjetivação nas grandes cidades: modo de vida urbano em George Simmel e Louis Wirth. Praça: Revista Discente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE. V 2 n. 1 (2018).Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/index.php/praca/issue/view/2686 

TARDELLI, Gabriel. A Cidade como problema sociológico: diálogo com Georg Simmel e Louis Wirth. Revista eletrônica e-metropolis. Ed. 27 (2017). Disponível em: http://emetropolis.net/system/artigos/arquivo_pdfs/000/000/203/original/emetropolis27_art2.pdf? 1485999160 

PINHEIRO, E. G. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. v. 1. Informação & Sociedade, [S. l.], v. 10, n. 2, 2000. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/view/337. Acesso em: 11 set. 2024

Equidade científica: da periferia aos muros da Universidade

 Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Jéssica Gomes Lima. 

Historicamente, o homem científico enxergou o mundo material sob a lente da objetividade, numa realidade dada a priori, para a produção do conhecimento científico. Já aqueles saberes relativos e filosóficos foram ofuscados. O chamado cientista moderno segui sua produção atento aos critérios do fazer científico, a partir do método, neutralidade, generalização (Bacon, 1979; Descartes, 1979). Contudo, essa separação entre filosofia e ciência não contribuiu para resolução dos problemas do mundo, também conduziu o cientista a erguer muros ao invés de pontes para percepção de caminhos diferentes.

A industrialização e a urbanização são exemplos de fatos históricos da ciência moderna. O progresso da urbanização desenvolveu o centro de cidades, em detrimento da periferia. Tal reflexão pode ser uma analogia ao avanço (ou retrocesso) do espaço das ciências, desde o pensamento filosófico sobre o que é verdade, até o que é conhecimento científico. O processo de sistematização do fazer ciência, inicialmente, foi estabelecido pelas chamadas hard sciences (ciências duras), defendida por homens que acreditavam que todo saber não verificável era considerado não científico. Essa dicotomia, provocou a hierarquização da ciência (Kneller,1980) desvelando o poder do conhecimento, e uma constituição moderna (Latour,1994). Porém, essa lente ainda não permitia ao homem moderno resolver os problemas do mundo. 

Fonte: https://www.segs.com.br/demais/308944-com-mural-seja-luz-eduardo-kobra-instiga-a-repensar-valores-e-fazer-a-diferenca/amp

Enquanto isso, a crise ecológica revelava os efeitos das ciências na sociedade, principalmente, as ciências naturais. “A modernidade é muitas vezes definida através do humanismo, seja para saudar o nascimento do homem, seja para anunciar sua morte” (Latour,1994, p. 19). Em outras palavras, a proposição de modernidade não reconhecia a sociologia, tão pouco a soft sciences. Diante disso, em oposição, cientistas sociais reivindicam seu espaço com a demarcação científica, por meio do surgimento de diversas “visões de mundo” (epistemologias). Assim, iniciava a guerra das ciências (Latour, 1994). 

Todavia, tal confronto conduziu o cientista a erguer muros ao invés de pontes que viabilizem percepções diferentes de caminhos para resolução dos problemas do mundo. A epistemologia, foi difundida como o estudo do conhecimento a partir da intelectualidade do indivíduo, para formação de crenças verdadeiras, que resulte racionalidade ou justificação (Goldman, 2020). Cada epistemologia (ou percepções) segue um processo sistemático para produção de conhecimento científico, justificado por argumentos. Uma virtude importante do “argumento é a noção de autocrítica, essencial para a crítica: em geral, o que criticamos nos outros também nos serve (ou serve ainda mais para o crítico), sem falar que, sem autocrítica, toda crítica é ridícula” (Demo, 2012, p.122). Será que nós cientistas (críticos) estamos dispostos a autocrítica? 

O contraponto de Demo (2012), sobre a interrelação entre crítica e autocrítica, corrobora com o surgimento da epistemologia social contemporânea. A partir do movimento de crítica e autocritica a própria epistemologia, conduzido por precursores como Michel Foucault, Thomas Kuhn, Bruno Latour, Barry Barnes, David Bloor, Steven Shapin e Richard Rorty (Goldman, 2020; Henderson, 2020). Essa vertente da epistemologia “se preocupa com agentes epistêmicos coletivos, ou seja, equipes, júris, comitês, corporações e outros tipos de coletividades que podem ser plausivelmente vistos como agentes epistêmicos” (Goldman, 2020, p. 10 - 11). Ou seja, ao contrário da epistemologia tradicional, nessa vertente a episteme não envolve apenas o intelectualismo individual do cientista, mas demais agentes epistêmicos coletivos (Henderson, 2020). Como incluir esses agentes epistêmicos no processo de produção de conhecimento científico? 

Ampliando o debate, Kidd, Medina e Pohlhaus (2017) expõe a injustiça epistêmica que “se refere às formas de tratamento injusto que se relacionam a questões de conhecimento, compreensão e participação em práticas comunicativas” (Kidd; Medina; Pohlhaus, 2017, p. 1). Em outras palavras, a justiça epistêmica é urgente no processo de produção de conhecimento científico, também integra três ramos da filosofia: política, ética e epistemologia (Pohlhaus, 2017). A exemplo da complexidade desse debate, resgato um trecho da música, esquiva da esgrima, do rapper Criolo: “cada maloqueiro, tem um saber empírico” (Criolo, 2014), o termo maloqueiro se refere aquele sujeito que está a margem da sociedade, por vezes sem acesso ao “conhecimento” científico, porém detém um saber baseado na vivência cotidiana. A intelectual Djamila Ribeiro, uma das precursoras do feminismo negro no Brasil, corrobora com a injustiça epistêmica, principalmente pela hermenêutica, por meio do conceito de lugar de fala. “O falar não se restringe ao ato de emitir palavras, mas a poder existir. Pensamos lugar de fala como refutar a historiografia tradicional e a hierarquização de saberes consequente da hierarquia social” (Ribeiro, 2019, p. 49). Como construir pontes para que existam lugares de fala? 

Por fim, a dicotomia entre ciência e epistemologia não contribui para resolução dos problemas do mundo, mas a união entre ambas. Ser humano é ser subversivo, também deter capacidade de agir sobre os próprios processos de vida e condições de existência (González Rey, 2019; Lima, 2021). A abertura e o acesso ao diálogo se tornam essências num movimento crítico e autocritico, pois, a ciência é uma atividade humana. Existe algo mais humano, do que a nossa habilidade de dialogar?

REFERÊNCIAS 

CRIOLO. Esquiva da esgrima. São Paulo: Oloko Records: 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=-1cI4nYIQqs>. Acesso em: 1 set. 2024. 

BACON, F. Novum Organum In: Francis Bacon. Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979. p. 1-21.  

DEMO, P. Demarcação científica. In: DEMO, P. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, 1985. 

DESCARTES, R. Discurso do Método. In René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.  

GOLDMAN, A. The What, Why, and How of Social Epistemology. In: Fricker, M; Graham, P.J; Henderson, D. & Pedersen, N.J.L.L The Routledge Handbook of Social Epistemology. New York, Routledge Taylor & Francis, 2020, p. 10-21. 

GONZÁLEZ REY, F.; MITJÁNS MARTÍNEZ, A.; GOULART, D. Subjectivity within cultural-historical approach. Perspectives in Cultural-Historical Research, v. 5, p. 3-19, 2019. 

GRECO, J. Introduction: What is Epistemology? The Blackwell Guide to Epistemology. Massachussets/Oxford: Blackwell Publishers Ltda, 1999, p. 1-33. 

KIDD, I.J; MEDINA, J.; POHLHAUS, Jr., G. (Edd) The Routledge Handbook of Epistemic Injustice, 2017. Introduction e Capítulo 1 – Varieties of Epistemic Injustice.  

LATOUR, B. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994. 

LIMA, Jéssica Gomes. O processo de intervenção: o estudo sobre uma prática organizacional em prol da equidade de gênero em uma cooperativa de crédito. 

2021. 109 f. Dissertação (Mestrado em Administração) – Setor de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal do Paraná, Curitiba. 2021. 

RIBEIRO, Djamila. Lugar de fala. Pólen Produção Editorial LTDA, 2019.