A injustiça epistêmica no processo penal e a utilização do Tribunal do Júri como instrumento de epistemologia social

 Pequeno ensaio produzido pelo acadêmico Bruno Bertan Sartor.

Tal como previsto no texto do Kidd et al. (2071), a injustiça epistêmica se dá em diversas áreas das ciências, inclusive nas ciências jurídicas e na administração da justiça. O presente excerto trata acerca da injustiça epistêmica na administração da justiça, em específico no processo penal, bem como a utilização do Tribunal do Júri como instrumento de epistemologia social (GOLDMAN, 2020).

No direito processual penal, cujo código legal utilizado no Brasil é do ano de 1941, existem diversos resquícios de injustiça epistêmica. Kidd et al. (2017) assevera que é ainda comum essa espécie de injustiça estar presente dentro do sistema e práticas legais.

A apreciação da prova no processo criminal pelo juiz singular é um exemplo de injustiça epistêmica no âmbito judicial. Isso porque, em processos semelhantes, em que crimes iguais ou da mesma espécie são julgados, cada juiz, de acordo com os ditames legais e com base na sua interpretação do direito, pode julgar proferindo decisões diferentes e até mesmo contraditórias entre si (KIDD et al., 2017).

Uma das soluções para o problema apresentado, conforme pontua Kidd et al. (2017), seria a utilização de tribunais colegiados, ou seja, com mais de um membro julgador, de forma que a prova fosse analisada de forma conjunta. No Brasil, a Carta Constitucional de 1988, no capitulo reservado ao Poder Judiciário e à administração da justiça, estabeleceu que as decisões de segundo grau, quando há um recurso contra a decisão singular de primeiro grau, devem ser colegiadas. A análise conjunta da prova e de outros temas processuais possibilita que haja maior certeza no julgamento, reduzindo, assim, possíveis erros judiciais.

Fonte: https://www.tjma.jus.br/midia/cgj/noticia/513131/tribunal-do-juri-de-governador-nunes-freire-absolve-reu-por-homicidio

Porém, por influência do direito anglo-saxão, existe no Brasil, já no primeiro grau de jurisdição, a existência de um Tribunal colegiado, o denominado Tribunal do Júri, citado por Goldman (2020) como um instrumento de epistemologia social.

Epistemologia social é um ramo da epistemologia que prestigia os processos de tomada de decisões plurais, em um processo que se preocupa com toda a coletividade, em contrate com a epistemologia tradicional, que é voltada ao individualismo (GOLDMAN, 2020).

Em ciência a crença de um grupo coeso, e não apenas de um único indivíduo, tem um peso muito mais forte (GOLDMAN,2020). No âmbito judicial, os crimes dolosos contra a vida (homicídio, aborto, infanticídio e indução ao suicídio), em face de sua gravidade, são julgados por um tribunal coletivo, conhecido como “do júri”.

O Tribunal do Júri, composto por cidadãos maiores que cumprem certos requisitos legais, ao analisar o processo penal em conjunto com o magistrado, possibilita que a decisão tomada (condenatória ou absolutória) seja protegida de erros e tenha uma força vinculante mais forte perante a sociedade.

Goldman (2020) cita o Tribunal Popular como uma forma de epistemologia social no âmbito do Poder Judiciário justamente por essa tomada de decisão coletiva, onde o colegiado é soberano.

Destarte, o exemplo do Tribunal do Júri, como instrumento de epistemologia social dentro da justiça tende a ser um farol para aqueles processos de tomadas de decisão individual. Em outros países, como os Estados Unidos da América, a regra, hoje, já é a utilização do Júri para julgamento da maioria dos crimes. Esse processo pode chegar até o Brasil, conforme algumas propostas legislativas que tramitam no Congresso Nacional.

Por fim, é de se ressaltar que a utilização do Tribunal Popular, além de um exemplo de epistemologia social, ajuda a evitar a injustiça epistêmica no âmbito judicial, já que a tomada de decisões se dá de maneira plural, com vários “pontos de vistas” existentes na sociedade sendo representados pelos jurados.

REFERÊNCIAS:

 

GOLDMAN, A. The What, Why, and How of Social Epistemology. In: Fricker, M; Graham, P.J; Henderson, D. & Pedersen, N.J.L.L  The Routledge Handbook of Social Epistemology. New York, Routledge Taylor & Francis, 2020, p. 10-21.

 

KIDD, I.J; MEDINA, J.; POHLHAUS, Jr., G. (Edd) The Routledge Handbook of Epistemic Injustice, 2017. Introduction e Capítulo 1 – Varieties of Epistemic Injustice.


As origens do pensamento moderno: da antiguidade clássica ao empirismo e ao racionalismo

 Pequeno ensaio produzido pelo acadêmico Jean Teixeira Manoel.

           Este ensaio argumentativo apresenta minha percepção sobre as diferentes abordagens do pensamento cartesiano, conforme compreendido a partir do Discurso do Método, de René Descartes (1979), e da perspectiva histórica da ciência, baseada no que assimilei da obra de Kneller (1980), A Ciência como Atividade Humana. Descartes (1979) me levou a refletir sobre a importância da crítica individual para a construção de um conhecimento sólido e racional, enquanto Kneller (1980) destacou para mim o caráter coletivo e histórico do conhecimento científico, desenvolvido através da interação entre pesquisadores. Assim, o objetivo deste ensaio é argumentar, a partir da minha compreensão, que o desenvolvimento do conhecimento científico depende tanto da reflexão individual quanto da colaboração coletiva.

Em um dos trechos do Discurso do Método, Descartes (1979) distingue dois tipos de "espíritos" ou mentalidades. O primeiro tipo é o daqueles que acreditam ser mais habilidosos do que realmente são (Descartes, 1979), como uma pessoa que tenta resolver um problema complexo sem conhecimento suficiente e, ao se precipitar, acaba se perdendo. O segundo tipo é o daqueles que reconhecem suas limitações e preferem confiar nos julgamentos de outros mais experientes (Descartes, 1979), como alguém que, em vez de resolver um problema sozinho, busca orientação de um especialista. Ademais, outro ponto central do autor é o desenvolvimento de um método que possa ser aplicado a diferentes áreas do conhecimento, garantindo conclusões que não podem ser objeto de dúvidas. A construção desse método se baseia em quatro preceitos fundamentais: aceitar como verdade apenas o que é claro e evidente, dividir os problemas em partes menores, conduzir o pensamento de maneira ordenada do simples ao complexo e revisar todos os aspectos de forma completa (Descartes, 1979). Observo que esses preceitos sublinham a necessidade de rigor e de uma abordagem metódica para evitar erros e omissões no processo de conhecimento.

A leitura de Descartes (1979) nos faz refletir também que o conhecimento seguro e verdadeiro não é fruto de intuições rápidas, mas de uma construção paciente, baseada em princípios sólidos e uma constante revisão. Isso pode ser aplicado diretamente ao desenvolvimento acadêmico e à prática científica, onde a clareza e a evidência são essenciais para a solidez das conclusões.




Fonte: https://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/artigos/origem-e-peculiaridades-da-pesquisa-de-fenomenos-sociais-nas-ciencias-com-o-uso-de-grupos-focais

Por outro lado, ao ler A Ciência como Atividade Humana, de Kneller (1980), destaco a citação da ciência como o conhecimento da natureza e sua exploração, o que envolve história, métodos de investigação e a participação de uma comunidade de pesquisadores (Kneller, 1980). Percebi durante a leitura que a ciência é vista como um empreendimento coletivo e histórico, construído por meio da interação de comunidades científicas ao longo do tempo. Essa visão me faz lembrar que o conhecimento não é apenas um esforço individual, mas também depende da colaboração entre diferentes pesquisadores. Aplicando isso à minha pesquisa para a elaboração da dissertação, entendo que as entrevistas que pretendo realizar com os gestores de instituições de ensino não serão uma mera coleta de opiniões isoladas, mas sim parte de um processo maior de construção coletiva de conhecimento sobre a formação do aluno. Ao ouvir diversos gestores, conseguirei capturar diferentes perspectivas que, juntas, podem oferecer um conhecimento mais completo.

Logo, percebo que a historicidade da ciência revela que o conhecimento científico é um produto não apenas da lógica e da razão, mas também das condições históricas e culturais. No contexto de Descartes (1979) e de Kneller (1980), refleti que ambos os autores abordam a construção do conhecimento sob perspectivas diferentes, mas de forma complementar. Sob a minha percepção, Descartes (1979) ressalta a importância da reflexão crítica individual como fundamento para se alcançar um conhecimento seguro e racional, ou seja, cada pessoa deve reconstruir suas próprias crenças com base na razão, evitando suposições não verificadas. Por outro lado, em Kneller (1980), percebi que a ciência é uma atividade coletiva e histórica, onde o conhecimento se desenvolve por meio da colaboração entre diferentes pesquisadores e da construção conjunta de teorias ao longo do tempo. A partir dessas leituras, entendo que, como pesquisador, preciso buscar um equilíbrio entre a construção individual do conhecimento e a construção coletiva, pois considero que essas duas abordagens se complementam.

REFERÊNCIAS

DESCARTES, R. Discurso do Método. In René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

KNELLER. A Ciência como Atividade Humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 15-29


Epistemo o quê?

 Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Luciana Pereira da Rocha Safe.

Epistemologia. Pode ser conceituada pelo dicionário com a brevidade de algumas linhas. A saber: substantivo feminino. Conjunto de conhecimentos sobre a origem, a natureza, as etapas e os limites do conhecimento humano; teoria do conhecimento. Estudo crítico das premissas, das conclusões e dos métodos dos diferentes ramos do conhecimento científico, das teorias e das práticas; teoria da ciência.(Michaelis, 2024).

Contudo, o conceito linguístico não abarca toda a complexidade do conceito teórico. Greco (1999) apresenta a epistemologia em 526 páginas e 17 capítulos cujos teóricos argumentam cada campo conceitual. Partindo da premissa da definição do que é epistemologia Greco (1999) enfatiza que coexistem várias objeções que caricaturam a epistemologia como (a) a busca pela certeza, (b) a tentativa de encontrar fundamentos absolutos, (c) a tentativa de legitimar outras disciplinas, como a ciência, e (d) a projeto de refutação do ceticismo. Da mesma forma, Tsoukas e Chia (2011) contextualizam a epistemologia em 13 capítulos com diferentes óticas e percepções autorais.

No âmago conceitual parece mais fácil afirmar o que não é epistemologia, do que seria a epistemologia verificando todas as suas possibilidades. Ademais, no ceticismo como corrente epistemológica, Greco (1999) já infere que negar o saber ao se questionar o conhecimento de forma repetitiva é por si só incongruente por estudar um conhecimento na teoria sequer existiria. Greco (1999) apresenta entre os problemas tradicionais o ceticismo cuja questão central da teoria do conhecimento poderia ser: "O que podemos saber?" Ao responder de forma pessimista o cético nega que a existência de conhecimento. Inclui uma negação do conhecimento científico, mas significa incluir uma negação do conhecimento comum. Se no ceticismo dificilmente será possível chegar na ciência colocada a prova, adiciona-se que poderemos saber algo aplicando a dúvida em todas as instâncias? Se o cético conclui que não há como justificar as crenças em questão e que, portanto, não temos o tipo relevante de conhecimento, então, nunca seremos conhecedores de nada?

Fonte: https://filosofianaescola.com/conhecimento/epistemologia/
Fonte: https://filosofianaescola.com/conhecimento/epistemologia/

Por sua vez, Japiassú (1991) categoriza o saber, a ciência e a epistemologia. Sendo o primeiro, conjunto de conhecimentos metodicamente adquiridos, sistematicamente organizados e suscetíveis de serem transmitidos por processo pedagógico de ensino. O segundo, conjunto das aquisições intelectuais com a matematização de dados empíricos. E o terceiro como estudo metódico e reflexivo do saber, de sua organização, de sua formação, de seu desenvolvimento, de seu funcionamento, de seus produtos intelectuais. E ainda o autor divide em tipos de epistemologia: global, particular e específica. Ressalta-se que desde o início da obra o autor nomeia “introdução ao pensamento epistemológico” corroborando que não se encerra a discussão e apenas se começa para outras que ampliam as ideias apresentadas. Por exemplo, ele apresenta a relação da filosofia das ciências, a história das ciências, a psicologia das ciências, e a sociologia do conhecimento. Certamente cada tópico poderia ser tema de um livro a parte

Portanto, estudar como o saber se consolida, ou como sabemos o que sabemos, deve ter sido algo pensado após a existência (ou a crença da existência) de um conhecimento prévio? Possivelmente não seria possível a epistemologia como estudo do saber, caso não fosse pressuposto que o saber exista como objeto de estudo.

Portanto, Demo (1985) quando enfatizava que o saber e a ciência tinham sua existência em um interesses de um grupo específico, ele estava certo. Contudo, o estudo do objeto dependendo da forma como se analisa poderia destruir o objeto de estudo conforme a analogia de Tsoukas (2005) quando na analogia do entomologista demonstra que no ímpeto de encontrar seu raro animal de estudo e colocar a lente para observar melhor termina por destruir o animal queimado com a luz da lente em conjunto com o sol. A questão seria então sanada pela epistemologia quando permite que diferentes lentes analisem o saber como objeto de estudo para não destruí-lo? Quiça faça sentido a questão de diferentes óticas para a própria epistemologia, uma vez que a ciência é justamente a proposta da construção e reconstrução das verdades.

Referências Bibliográficas 

DEMO, P. Demarcação científica. In: DEMO, P. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, 1985.

 GRECO, J. Introduction: What is Epistemology? The Blackwell Guide to Epistemology. Massachussets/Oxford: Blackwell Publishers Ltda, 1999, p. 1-33. 

JAPIASSU, H. Alguns instrumentos conceituais. O que é a epistemologia? In: Introdução ao pensamento epistemológico. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991, p. 15-39. 

MICHAELIS.Michaelis dicionário. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/busca? id=p5Mp. Acesso em: 08 de agosto de 2024. 

TSOUKAS, H. Introduction In: TSOUKAS, H. Complex Knowledge: Studies in Organizational Epistemology. Oxford. Oxford University Press, 2005. p 1-9. Disponível em: https://books.google.com.br/books?hl=pt BR&lr=&id=h8gSDAAAQBAJ&oi=fnd&pg=PR9&dq= 

TSOUKAS, H. & CHIA, Introduction: Why philosophy matters to organization theory? In: TSOUKAS, H. & CHIA, Philosophy and Organizational Theory. Bingley: Esmerald. 2011, p. 1-22


A Objetividade Positivista e a Administração: Limites e Possibilidades em busca de harmonia

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Mariana Ribeiro Pires.

Este short paper tem como objetivo analisar a influência do positivismo, especialmente a partir das ideias de Auguste Comte e Émile Durkheim, na construção de uma ciência da administração e em suas implicações para o campo administrativo. Além disso, realiza um contraponto com as ideias de Kant, que, como notas dissonantes, desafiam a harmonia da composição positivista, particularmente a respeito dos limites do conhecimento humano.

O positivismo, ao defender a observação objetiva e a busca por leis gerais, forneceu as bases para uma abordagem racional da administração, mas a transposição direta do método positivista para o campo social, marcado pela complexidade e subjetividade, apresenta limitações importantes, demandando uma adaptação crítica aos desafios contemporâneos.

Comte, em seu “Discurso sobre o Espírito Positivo”, define o positivismo como um estado de desenvolvimento intelectual da humanidade, caracterizado pela busca do conhecimento objetivo através da observação dos fenômenos e da formulação de leis gerais que os regem. Essa visão influenciou a nascente área da administração, que buscava se firmar como um campo científico e encontrar soluções racionais para os desafios da organização social. 

Durkheim, em “As Regras do Método Sociológico”, aprofunda essa perspectiva ao defender que os fatos sociais devem ser tratados como “coisas” e estudados de forma objetiva, tal como os fenômenos da natureza. Essa abordagem, baseada na observação e na experimentação, influenciou a busca por métodos de gestão mais eficientes e racionais, como a administração científica de Taylor, que visava otimizar o trabalho a partir da análise dos tempos e movimentos, assim como uma orquestra onde cada músico toca no tempo certo, a ciência como a maestrina que ajustaria cada movimento para que tudo funcione de forma eficiente e harmoniosa. 

É nesse ponto que as ideias de Kant, em sua obra “Crítica da Razão Pura”, se mostram particularmente relevantes para a nossa análise. Kant argumenta que o conhecimento humano é limitado pela estrutura da própria razão. Para ele, podemos conhecer o mundo não como ele é em si mesmo, mas apenas como ele se apresenta para nós através dos nossos sentidos e das categorias a priori do entendimento. 

Trazendo essa perspectiva para o campo da administração, podemos questionar a viabilidade da objetividade absoluta defendida pelos positivistas. A administração lida com diferentes melodias, com indivíduos e grupos, com suas motivações, valores, crenças e histórias de vida, aspectos subjetivos que não se encaixam perfeitamente no modelo positivista de análise.

Podemos ter como um exemplo prático comparando com a gestão de uma orquestra. A abordagem positivista buscaria identificar as melhores práticas de execução musical, baseadas em dados objetivos, como a precisão das notas, a sincronia entre os músicos e a qualidade do som. Entretanto, a motivação e a satisfação dos músicos são influenciadas por fatores subjetivos, como o ambiente de ensaio, o estilo de regência, o significado que a música tem para cada indivíduo e as relações interpessoais entre os membros da orquestra, fatores esses complexos e nem sempre passíveis de mensuração. 

Em síntese, o positivismo, especialmente a partir das ideias de Comte e Durkheim, forneceu as bases para uma abordagem racional da administração, fundamental para a consolidação da área. No entanto, a complexidade dos fenômenos sociais exige uma adaptação crítica dessa perspectiva. 

A administração, enquanto campo de conhecimento e prática, deve buscar um equilíbrio entre a objetividade e a sensibilidade para lidar com as dimensões humanas e sociais da organização, reconhecendo os limites do método positivista e buscando abordagens mais abrangentes para os desafios contemporâneos, como uma sinfonia que harmoniza a precisão dos instrumentos com a emoção da melodia. 

 Fonte: https://www.boomplay.com/songs/169660772

Referências: 

KANT, I. Crítica da razão pura. 4.ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. Revista Mente, Cérebro e Filosofia Kant- Hegel v. 3, jan 2005, p. 1-17. 

COMTE, A. Discurso sobre o espírito positivo. Porto Alegre: Editora Globo; São Paulo: Editora da USP, 1976. 

DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007
 

Alcance e os limites do saber no modo de viver urbano: diálogo entre as intuições sensíveis de Kant e fenômenos urbanos das grandes cidades sob a perspectiva sociológica

 Pequeno ensaio produzido pela acadêmica  Maria Luíza Lauxen Della Valle. 

 O contexto urbano é resultado do cruzamento de fatores econômicos, migratórios, sociais, culturais, entre outros. As perspectivas sociológicas acerca do fenômeno divergem entre compreendê-lo por sua interdependência ou autonomia em relação ao industrialismo, desenvolvimento econômico e monetário e ao capitalismo moderno (Wirth, 1967; Simmel, 1997). No entanto, as influências da modernidade nos modos de vida urbanos são inegáveis. A atual sociedade em rede, fruto da revolução tecnológica, tecnologias digitais, comunicação e transporte (Pinheiro; Castells, 1999), também é palco da homogeneização dos espaços, práticas e valores, onde a transmissão de informações e conhecimento, tem papel essencial para o fortalecimento de estruturas sociais e exercício de poder. Nesse contexto o “ser” pensante urbano deve adaptar-se a diminuição de barreiras espaciais, volatilidades dos processos e aceleração da vida urbana, de maneira que o “alcance e os limites da razão”(Revista Mente, Cérebro e Filosofia, 2005) passam a ser subordinadas à efemeridade e perda de referências espaciais e temporais.

O contexto e perspectiva apresentada são referenciais para o estudo da sociologia urbana, provenientes da escola sociológica de Chicago. As noções de aceleração e velocidade de fluxos e tempo no contexto moderno, propostas por Simmel, que representam a ruptura entre o espaçotempo e os sentimentos “...de instabilidade e de mudança permanente, intensificando a incerteza e a angústia” (Gomes, 2018; Haroche, 2014, p. 99), dialogam com as condições sensíveis do conhecimento e entendimento propostas por Immanuel Kant.

Immanuel Kant, filósofo influenciado por Descartes (1596-1650) e Hume (1711-1776), reúne a elementos do empirismo e racionalismo para propor uma ”metafísica sólida fundada rigorosamente como ciência, que há-de desenvolver-se de maneira necessariamente dogmática e estritamente sistemática, por conseguinte escolástica (e não popular)” (Kant, 2015, p.40), com fins no saber dos princípios que tornam possível todo o conhecimento, bem como suas limitações e condições.

 É na obra “A Crítica da Razão Pura” (1781), livro que divide o período Pré-Crítico e Crítico de Kant, que o mesmo realiza análises e proposições para as condições do saber. Esta, é marcada pela Metafísica Crítica, diferenciando-se da tradicional por ser o próprio objeto de investigação crítica da razão, e do Idealismo Transcendental, filosofia que passa a conferir primazia ao sujeito e no modo de conhecer do mesmo, no lugar do objeto. O mesmo propõe que a única forma de conhecer a realidade é como lhe aparece, e não como realmente é, a partir das intuições/percepções: "o objeto dos sentidos se regula pela nossa faculdade de intuição" (Kant, 2015 p.30). É evidente as heranças de Kant dos empiristas, perante a adoção da noção de que todo conhecimento começa com a experiência, mas não surge apenas da experiência. O mesmo sugere que os conhecimentos podem surgir de fontes a posteriori, como a experiência, e fontes a priori, sendo aquelas que se dão independentes “de toda e qualquer experiência”, como a razão pura- momento onde ele se aproxima do racionalismo.

 Neste short paper volta-se olhares às condições a priori do saber, analisados por Kant, como Juízo a priori, Número e Fenômeno, Formas de entendimento (superior) e Formas de sensibilidade (inferior), sendo este último o objeto deste argumento. Como mencionado, Kant assume que conhecemos as coisas de forma a priori de acordo com nossas percepções e intuições, seguido de nosso entendimento e conceitos. As coisas como são, são identificadas como Número, e as coisas como percebemos, identificadas como Fenômenos. Os Fenômenos são as percepções fruto das sensações, sendo organizadas pelas formas a priori de sensibilidade- Tempo e Espaço. Estes, não são conceitos empíricos mas faculdades cognitivas e intuitivas, estritamente necessárias para qualquer percepção.

As condições para o saber atribuídas às faculdades cognitivas intuitivas da sensibilidade pelo filósofo alemão encontram obstáculos quando analisadas sob o modo e os produtos da vida urbana, onde o Espaço e o Tempo influenciam fortemente as percepções das coisas. Sérgio Ricardo Gomes, doutor em sociologia pela Universidade Federal do Sergipe reflete sobre as formas do juízo e de conhecer na metrópole: 

 “a proteção do intelecto se esfarela perante a avalanche de imagens, signos, símbolos e ideias produzidas em uma velocidade indecodificável … processo asfixiante de racionalização do tempo e do espaço que deteriora qualquer possibilidade de construção de referências. As repercussões psicológicas e sociais desses fenômenos alcançam todo o mundo, pois sua sede é a vida urbana, e hoje o mundo é urbano.” (Gomes, 2018, p.64)

Fonte: Estuda.com A charge ao lado representa a desconexão dos indivíduos à realidade corrente, onde o valor monetário torna-se valor pessoal, tendo em vista a perda da essência das coisas e seus valores específicos//

 Ainda, quando analisadas as repercussões psicológicas da aceleração e velocidade do Espaço e Tempo da modernidade, os obstáculos são intensificados, visto os crescentes graus de impessoalidade, individualidade, indiferença e fadiga dos indivíduos. Este fenômeno, é conceituado por por Simmel como atitude blasé- oriunda de motivos fisiológicos, como a maximização de estímulos nervosos que torna os indivíduos incapazes de sentir novas sensações, e econômica, por meio do “ embotamento do poder de discriminar” (Simmel, 1976, p. 16), tornando as coisas opacas e distantes, onde o dinheiro torna-se referencial e denominador comum (Tardelli, 2016).

 Entende-se que a perspectiva sociológica das condições de sensibilidade, Espaço e Tempo, diferencia-se da de Kant, as quais têm independência ao mundo externo e experiência humana, visto que os modos de vida urbano estão intrinsecamente ligados aos seus acessos, usos, significados, etc. No entanto, a Metafísica Crítica e o fenômeno sociológico se aproximam ao reconhecer o sujeito e seus modos de conhecer como centrais para a percepção das coisas, onde Números, de acordo com as sensações provenientes do Tempo e Espaço, tornam-se Fenômenos.

 A partir da reflexão realizada, e da constatação de que as faculdades cognitivas humanas não têm capacidade de responder plenamente aos fluxos atuais, levantam-se questões acerca de que maneira então, “determinar o alcance e os limites da razão a partir do exame dos elementos que a constituem”(Revista Mente, Cérebro e Filosofia, 2005)? Seria necessário para obtenção do conhecimento uma mudança nos modos de vida? Ou rever as Formas de Entendimento Kantianas para o ordenamento dos dados das percepções persuadidas? Ou ainda, para além de reconhecer que não é possível conhecer a realidade das coisas, estas são substancialmente subjetivas e influenciam diretamente a forma como nos relacionamos?

Referências:

WIRTH, L. 1967 [1938]. O urbanismo como modo de vida. In: VELHO, O. G. (org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro. 

SIMMEL, G. (1997). A metrópole e a vida do espírito. In: FORTUNA, C. (org.). Cidade, cultura e globalização: ensaios de sociologia. Oeiras: Celta, 33-45 [1903]. 

HAROCHE,C. Avida mental nas grandes cidades contemporâneas diante da aceleração e do ilimitado. In: PECHMAN, R. M. (Org). A pretexto de Simmel: cultura e subjetividade na metrópole contemporânea. 1. ed. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2014. 

SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental. In. VELHO, Otávio Guilherme (Org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

KANT, I. Crítica da razão pura. 4.ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. p.17-68. Revista Mente, Cérebro e Filosofia Kant- Hegel v. 3, jan 2005, p. 1-17 

GOMES,Sérgio Ricardo. Formas de subjetivação nas grandes cidades: modo de vida urbano em George Simmel e Louis Wirth. Praça: Revista Discente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE. V 2 n. 1 (2018).Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/index.php/praca/issue/view/2686 

TARDELLI, Gabriel. A Cidade como problema sociológico: diálogo com Georg Simmel e Louis Wirth. Revista eletrônica e-metropolis. Ed. 27 (2017). Disponível em: http://emetropolis.net/system/artigos/arquivo_pdfs/000/000/203/original/emetropolis27_art2.pdf? 1485999160 

PINHEIRO, E. G. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. v. 1. Informação & Sociedade, [S. l.], v. 10, n. 2, 2000. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/view/337. Acesso em: 11 set. 2024

Equidade científica: da periferia aos muros da Universidade

 Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Jéssica Gomes Lima. 

Historicamente, o homem científico enxergou o mundo material sob a lente da objetividade, numa realidade dada a priori, para a produção do conhecimento científico. Já aqueles saberes relativos e filosóficos foram ofuscados. O chamado cientista moderno segui sua produção atento aos critérios do fazer científico, a partir do método, neutralidade, generalização (Bacon, 1979; Descartes, 1979). Contudo, essa separação entre filosofia e ciência não contribuiu para resolução dos problemas do mundo, também conduziu o cientista a erguer muros ao invés de pontes para percepção de caminhos diferentes.

A industrialização e a urbanização são exemplos de fatos históricos da ciência moderna. O progresso da urbanização desenvolveu o centro de cidades, em detrimento da periferia. Tal reflexão pode ser uma analogia ao avanço (ou retrocesso) do espaço das ciências, desde o pensamento filosófico sobre o que é verdade, até o que é conhecimento científico. O processo de sistematização do fazer ciência, inicialmente, foi estabelecido pelas chamadas hard sciences (ciências duras), defendida por homens que acreditavam que todo saber não verificável era considerado não científico. Essa dicotomia, provocou a hierarquização da ciência (Kneller,1980) desvelando o poder do conhecimento, e uma constituição moderna (Latour,1994). Porém, essa lente ainda não permitia ao homem moderno resolver os problemas do mundo. 

Fonte: https://www.segs.com.br/demais/308944-com-mural-seja-luz-eduardo-kobra-instiga-a-repensar-valores-e-fazer-a-diferenca/amp

Enquanto isso, a crise ecológica revelava os efeitos das ciências na sociedade, principalmente, as ciências naturais. “A modernidade é muitas vezes definida através do humanismo, seja para saudar o nascimento do homem, seja para anunciar sua morte” (Latour,1994, p. 19). Em outras palavras, a proposição de modernidade não reconhecia a sociologia, tão pouco a soft sciences. Diante disso, em oposição, cientistas sociais reivindicam seu espaço com a demarcação científica, por meio do surgimento de diversas “visões de mundo” (epistemologias). Assim, iniciava a guerra das ciências (Latour, 1994). 

Todavia, tal confronto conduziu o cientista a erguer muros ao invés de pontes que viabilizem percepções diferentes de caminhos para resolução dos problemas do mundo. A epistemologia, foi difundida como o estudo do conhecimento a partir da intelectualidade do indivíduo, para formação de crenças verdadeiras, que resulte racionalidade ou justificação (Goldman, 2020). Cada epistemologia (ou percepções) segue um processo sistemático para produção de conhecimento científico, justificado por argumentos. Uma virtude importante do “argumento é a noção de autocrítica, essencial para a crítica: em geral, o que criticamos nos outros também nos serve (ou serve ainda mais para o crítico), sem falar que, sem autocrítica, toda crítica é ridícula” (Demo, 2012, p.122). Será que nós cientistas (críticos) estamos dispostos a autocrítica? 

O contraponto de Demo (2012), sobre a interrelação entre crítica e autocrítica, corrobora com o surgimento da epistemologia social contemporânea. A partir do movimento de crítica e autocritica a própria epistemologia, conduzido por precursores como Michel Foucault, Thomas Kuhn, Bruno Latour, Barry Barnes, David Bloor, Steven Shapin e Richard Rorty (Goldman, 2020; Henderson, 2020). Essa vertente da epistemologia “se preocupa com agentes epistêmicos coletivos, ou seja, equipes, júris, comitês, corporações e outros tipos de coletividades que podem ser plausivelmente vistos como agentes epistêmicos” (Goldman, 2020, p. 10 - 11). Ou seja, ao contrário da epistemologia tradicional, nessa vertente a episteme não envolve apenas o intelectualismo individual do cientista, mas demais agentes epistêmicos coletivos (Henderson, 2020). Como incluir esses agentes epistêmicos no processo de produção de conhecimento científico? 

Ampliando o debate, Kidd, Medina e Pohlhaus (2017) expõe a injustiça epistêmica que “se refere às formas de tratamento injusto que se relacionam a questões de conhecimento, compreensão e participação em práticas comunicativas” (Kidd; Medina; Pohlhaus, 2017, p. 1). Em outras palavras, a justiça epistêmica é urgente no processo de produção de conhecimento científico, também integra três ramos da filosofia: política, ética e epistemologia (Pohlhaus, 2017). A exemplo da complexidade desse debate, resgato um trecho da música, esquiva da esgrima, do rapper Criolo: “cada maloqueiro, tem um saber empírico” (Criolo, 2014), o termo maloqueiro se refere aquele sujeito que está a margem da sociedade, por vezes sem acesso ao “conhecimento” científico, porém detém um saber baseado na vivência cotidiana. A intelectual Djamila Ribeiro, uma das precursoras do feminismo negro no Brasil, corrobora com a injustiça epistêmica, principalmente pela hermenêutica, por meio do conceito de lugar de fala. “O falar não se restringe ao ato de emitir palavras, mas a poder existir. Pensamos lugar de fala como refutar a historiografia tradicional e a hierarquização de saberes consequente da hierarquia social” (Ribeiro, 2019, p. 49). Como construir pontes para que existam lugares de fala? 

Por fim, a dicotomia entre ciência e epistemologia não contribui para resolução dos problemas do mundo, mas a união entre ambas. Ser humano é ser subversivo, também deter capacidade de agir sobre os próprios processos de vida e condições de existência (González Rey, 2019; Lima, 2021). A abertura e o acesso ao diálogo se tornam essências num movimento crítico e autocritico, pois, a ciência é uma atividade humana. Existe algo mais humano, do que a nossa habilidade de dialogar?

REFERÊNCIAS 

CRIOLO. Esquiva da esgrima. São Paulo: Oloko Records: 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=-1cI4nYIQqs>. Acesso em: 1 set. 2024. 

BACON, F. Novum Organum In: Francis Bacon. Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979. p. 1-21.  

DEMO, P. Demarcação científica. In: DEMO, P. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, 1985. 

DESCARTES, R. Discurso do Método. In René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.  

GOLDMAN, A. The What, Why, and How of Social Epistemology. In: Fricker, M; Graham, P.J; Henderson, D. & Pedersen, N.J.L.L The Routledge Handbook of Social Epistemology. New York, Routledge Taylor & Francis, 2020, p. 10-21. 

GONZÁLEZ REY, F.; MITJÁNS MARTÍNEZ, A.; GOULART, D. Subjectivity within cultural-historical approach. Perspectives in Cultural-Historical Research, v. 5, p. 3-19, 2019. 

GRECO, J. Introduction: What is Epistemology? The Blackwell Guide to Epistemology. Massachussets/Oxford: Blackwell Publishers Ltda, 1999, p. 1-33. 

KIDD, I.J; MEDINA, J.; POHLHAUS, Jr., G. (Edd) The Routledge Handbook of Epistemic Injustice, 2017. Introduction e Capítulo 1 – Varieties of Epistemic Injustice.  

LATOUR, B. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994. 

LIMA, Jéssica Gomes. O processo de intervenção: o estudo sobre uma prática organizacional em prol da equidade de gênero em uma cooperativa de crédito. 

2021. 109 f. Dissertação (Mestrado em Administração) – Setor de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal do Paraná, Curitiba. 2021. 

RIBEIRO, Djamila. Lugar de fala. Pólen Produção Editorial LTDA, 2019.  

Reflexões Críticas na Ciência

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Letícia Nunes Medeiros.

Criada em 1869, a revista britânica Nature se tornou uma das mais renomadas revistas científicas no mundo, abordando conteúdos de diferentes áreas e especialidades ao longo de seus mais de 150 anos de história. Em setembro de 2022, a revista publicou um editorial reconhecendo sua culpa na difusão de ideias eugenistas, elitistas, racistas e sexistas por meio de diversas publicações ao longo de sua história, as quais afetaram prejudicialmente não somente a ciência, mas também a sociedade como um todo.

Kneller (1980) na obra A Ciência como Atividade Humana, destaca que “se quisermos entender o que a Ciência realmente é, devemos considerá-la em primeiro lugar e acima de tudo como uma sucessão de movimentos dentro do movimento histórico mais amplo da própria civilização. Eu disse uma ‘sucessão de movimentos’ porque a História não revela uma Ciência mas numerosas ciências”. Ademais, Kneller também aponta que a ciência é intrinsecamente histórica, e que suas técnicas, tradições e instituições mudam de acordo com o mundo social e cultural que pertencem.



Sob essa perspectiva, a revista Nature em seu editorial intitulado “Como a Nature contribuiu para o legado discriminatório da ciência”, expõe que, apesar de uma reputação construída ao longo dos anos pela publicação de trabalhos científicos de grande relevância e qualidade, muitos de seus materiais contribuíram para o proconceito, a exclusão e a discriminação de grupos minoritários. Em 1904, por exemplo, a Nature publicou um discurso sobre eugenia produzido pelo estatístico Francis Galton, um dos principais cientistas da época. Em seu estudo, Galton definiu a eugenia como “a ciência que lida com todas as influências que melhoram e desenvolvem as qualidades de uma raça”.

Logo, é nítido que, mesmo que a ciência esteja diretamente relacionada com seus contextos históricos, sociais e culturais, conforme apresentado por Kneller (1980), é preciso realizar um recorte considerando que isso não a exime de críticas por contribuições vistas como prejudiciais para a humanidade, independentemente do fato de que elas estivessem ou não de acordo com o contexto histórico da época. Além disso, a revista também reconheceu que esse problema não foi somente em sua história mais antiga, como também esteve presente nos anos mais recentes, tendo publicado artigos ofensivos, criticados por serem excessivamente elitistas.

Nesse ínterim, a raiz de muitos problemas na ciência reside do fato de que os seres humanos tendem a admirar e exaltar as capacidades da mente humana exageradamente sem exercer o devido questionamento, enquanto o verdadeiro progresso não seria possível sem o fortalecimento da investigação científica com métodos e ferramentas apropriados (Bacon, 1979). Outrossim, Descartes (1979) também aborda em sua obra a importância de jamais acolher algo como verdadeiro antes de conhecê-lo evidentemente e profundamente, ou seja, buscar evitar a precipitação. Assim, ainda que, também de acordo com Bacon (1979), a ciência nada mais é do que combinações de descobertas anteriores, ela não é infalível e deve ser continuamente submetida a um exame crítico.

Dessa forma, conforme analisado no caso do editorial da Nature, a própria revista reconheceu que, ao longo de sua história, falhou em exercer o devido questionamento sobre algumas das ideias que veiculou, permitindo que conceitos como a eugenia ganhassem espaço e influência no discurso científico e social, não somente há décadas atrás, mas também em sua história recente. Esse caso é um exemplo claro de como a ciência, quando não acompanhada de uma análise crítica constante, pode perpetuar e até amplificar preconceitos e desigualdades.

 Por fim, é preciso ressaltar que a ciência, ainda que inerentemente histórica na medida em que tende a ser cumulativa (Kneller, 1980), não deve ser apenas um acúmulo de conhecimentos, mas também de garantir que esse conhecimento seja utilizado de maneira ética e responsável. Logo, a ciência carrega essa responsabilidade de refletir criticamente sobre suas descobertas e práticas, garantindo que seu impacto seja inclusivo, ao invés de reforçar desigualdades e preconceitos.

Referências Bibliográficas

BACON, F. Novum Organum In: Francis Bacon. Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979. p. 1-21. (trechos escolhidos).

DESCARTES, R. Discurso do Método. In René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (trechos escolhidos) 

How Nature contributed to science's discriminatory legacy. Nature. 2022. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-022-03035-6. Acesso em: 16 ago. 2024. 

KNELLER. A Ciência como Atividade Humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 15-29.

 

Demarcação científica: conceito possível ou utopia?

 Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Cinthia Coutinho Cezar. 

Conceituar ciência no campo da epistemologia é um processo desafiador à pesquisa. Demo (1985) defende ser mais fácil a definição do que não é característica da cientificidade. De acordo com o autor, não são elementos da cientificidade a ideologia e o senso comum, por exemplo. Contudo, Demo (1984) compreende que a ideologia e o senso comum são conceitos intrínsecos ao sujeito e ao objeto e, portanto, é impossível dissociá-los do conceito de ciência. É possível, então, demarcar o que se aproxima do conceito de ciência?

Notoriamente há complexidade nesta conceituação. Contudo, corroboro com a ideia de Demo (1985) no sentido de que só é possível considerar elementos de cientificidade quando há a presença do critério da discutibilidade. Em síntese, algo somente pode ser científico caso se mantenha discutível ao longo do tempo. A ciência se assemelha a um produto inacabado, que requer lapidação ad eternum.

Fonte: https://centroloyola.com.br/para-que-serve-a-utopia.html

Kneller (1980) explora a ciência na história e demonstra que diversas inquietações da humanidade foram propulsoras para o desenvolvimento de ciências como a matemática, a astronomia, a física, a filosofia e outras. Kneller (1980) dispõe que a finalidade da ciência é chegar a uma compreensão exata e abrangente da ordem da natureza- que, paradoxalmente, possui elementos infinitos- e, por conseguinte, compreende que a ciência é intrinsecamente histórica. É neste ponto que o conceito de ciência de Demo (1985) e de Kneller (1980) aproximam-se. Conforme Kneller (1980), para compreender o que a ciência realmente é, é preciso considerá-la acima de tudo como uma sucessão de movimentos dentro do movimento histórico mais amplo da própria civilização.

Tenhamos como exemplo deste movimento histórico o desenvolvimento da teoria da evolução, explicitada no estudo de Kneller (1980). A teoria da evolução, em seu estado da arte atual, foi desenvolvida por meio da unificação entre a teoria da evolução de Charles Darwin e a teoria genética de Gregor Mendel. Neste sentido, é possível perceber a complementaridade da ciência ao longo do tempo e o seu caráter discutível, conforme preconiza Demo (1985). Não há ciência finita, o cientista tem por missão refinar conhecimentos existentes ou produzir novos Kneller (1980).

A ciência, portanto, avança ao ampliar teorias, ao alterar seus pressupostos, a complementar tradições em pesquisa e a simplificar o conhecimento. Compreende-se, pois, que o cientista é o sujeito que promove um enfoque e uma perspectiva acerca de um objeto, mas precisa ter em mente que seu produto é inacabado e integra um movimento histórico.

Considerando o viés da discutibilidade da ciência e sua infinitude, qual o sentido, portanto, de sua promoção? Eduardo Galeano, ao citar o cineasta Fernando Birri, diz que “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: que eu não deixe de caminhar.”. Semelhante à utopia, a ciência é movimento e encontra-se no horizonte. A finalidade da ciência é justamente a busca insaciável pela solução das inquietudes da humanidade visando uma sociedade melhor. Afinal, conforme Bloch apud Demo (1985), toda sociedade existente traz em si a esperança de uma melhor.

Referências 

 DEMO, P. Demarcação científica. In: DEMO, P. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 1985. 

 KNELLER. A ciência como atividade humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 15-29


Epistemologia: O Farol que Ilumina a Ciência

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Mariana Ribeiro Pires. 


Imagine a ciência como um veleiro navegando pelo vasto oceano do conhecimento. As águas são imprevisíveis, repletas de correntes de informações conflitantes e ondas de dúvidas. A epistemologia, aqui entendida como o estudo do saber de forma reflexiva e metódica1, parece surgir como um farol, iluminando o caminho, ajudando e orientando a ciência em sua jornada contínua de descoberta. Falar de epistemologia é falar de como o conhecimento é construído, e assim temos como a sua principal questão “como sabemos o que sabemos?2

Sob essa perspectiva, ao utilizarmos a ótica epistemológica e seus desdobramentos, podemos nos apoiar no conhecimento já construído e delimitado pela ciência, e assim aprofundar na temática.




Ao analisarmos a forma que o conhecimento é construído, podemos perceber diferentes concepções, dependendo da época histórica3 que foram concebidos e por qual corrente de pensamento estavam inseridos. John Greco em sua obra “The Blackwell Guide to Epistemology”2 apresenta dezessete ensaios sobre temas centrais da epistemologia, cada um de um autor líder na área temática relevante, com o objetivo de tornar o conteúdo mais acessível. Na mesma maneira, buscou-se apresentar de forma sistemática neste short paper (assim como uma carta náutica) as informações já construídas de outros autores para nos guiarem no entendimento e melhor roteiro para o descobrimento das formas do conhecimento, servindo como um guia de consulta para aprofundamentos:

Problemas Tradicionais: - formulação tradicional - “Grandes Questões” da teoria do conhecimento.

Ceticismo

Michael Williams

Realismo, Objetividade e Ceticismo

Paul K. Moser

O que é conhecimento?

Linda Zagzebski

Fundacionalismo e Coerentismo

Laurence BonJour

Natureza da Avaliação Epistêmica: diferentes aspectos da questão "O que é Conhecimento?" - examinam mais de perto várias dimensões da normatividade epistêmica, ou o tipo de normatividade relevante para a cognição

Internalismo e Externalismo

Ernest Sosa


Epistemologia Naturalizada

Hilary Kornblith

Contra a epistemologia naturalizada

Richard Feldman

Contextualismo

Keith DeRose

Racionalidade

Keith Lehrer

Variedades de Conhecimento: “O que podemos saber?”-      possibilidade de conhecimento perceptivo, conhecimento a priori, conhecimento moral e conhecimento religioso

Conhecimento Perceptivo

William Alston

Um conhecimento a priori

George Bealer

Conhecimento Moral e Pluralismo Ético

Robert Audi

Epistemologia da Religião

Nicholas Wolterstorff

Novas direções: algumas tendências recentes na epistemologia

Epistemologia Feminista

Helen E. Longino

Epistemologia Social

Frederick Schmitt

Epistemologia e Inteligência Artificial

John L. Pollock

Pós-modernismo      e       epistemologia                                  no continente

Merold Westphal


Apesar de vasto o conteúdo sistematizado na tabela acima, ele não se esgota quando tratamos da conceitualização de epistemologia e suas relações. Jassipau1, por exemplo, apresenta cinco conceitos distintos ao tratar de epistemologia: global (geral), que se refere ao saber considerado globalmente, abordando a virtualidade e os problemas inerentes à organização desse conhecimento, tanto em termos especulativos quanto científicos; particular, que se concentra em um campo específico do saber, seja ele especulativo ou científico; específica, que analisa disciplinas intelectualmente construídas com unidades bem definidas de saber; interna, que realiza uma análise crítica dos procedimentos de conhecimento utilizados em uma disciplina, com o objetivo de estabelecer seus fundamentos e por fim a derivada, que diferentemente da interna, visa analisar a natureza dos procedimentos de conhecimento de uma ciência não para fornecer-lhe um fundamento, mas para compreender sua essência.

Em síntese, a epistemologia nos convida e nos mostra como vieram e as formas de navegar entre as profundezas do conhecimento, passando por oceanos nem sempre facilmente navegáveis, e até mesmo por desconhecidas correntes intelectuais. Nem sempre o marinheiro tem certeza do rumo que deve seguir será a boreste ou bombordo, e pode estar aí a graça e da navegação e o que o levará a novas descobertas.


1 JAPIASSU, H. Alguns instrumentos conceituais. O que é a epistemologia? In: Introdução ao pensamento epistemológico. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991, p. 15-39.

2 GRECO, J. Introduction: What is Epistemology? The Blackwell Guide to Epistemology. Massachussets/Oxford: Blackwell Publishers Ltda, 1999, p. 1-33

3 TSOUKAS, H. & CHIA, Introduction: Why philosophy matters to organization theory? In: TSOUKAS, H. & CHIA, Philosophy and Organizational Theory. Bingley: Esmerald. 2011, p. 1-22.