Reflexões Críticas na Ciência

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Letícia Nunes Medeiros.

Criada em 1869, a revista britânica Nature se tornou uma das mais renomadas revistas científicas no mundo, abordando conteúdos de diferentes áreas e especialidades ao longo de seus mais de 150 anos de história. Em setembro de 2022, a revista publicou um editorial reconhecendo sua culpa na difusão de ideias eugenistas, elitistas, racistas e sexistas por meio de diversas publicações ao longo de sua história, as quais afetaram prejudicialmente não somente a ciência, mas também a sociedade como um todo.

Kneller (1980) na obra A Ciência como Atividade Humana, destaca que “se quisermos entender o que a Ciência realmente é, devemos considerá-la em primeiro lugar e acima de tudo como uma sucessão de movimentos dentro do movimento histórico mais amplo da própria civilização. Eu disse uma ‘sucessão de movimentos’ porque a História não revela uma Ciência mas numerosas ciências”. Ademais, Kneller também aponta que a ciência é intrinsecamente histórica, e que suas técnicas, tradições e instituições mudam de acordo com o mundo social e cultural que pertencem.



Sob essa perspectiva, a revista Nature em seu editorial intitulado “Como a Nature contribuiu para o legado discriminatório da ciência”, expõe que, apesar de uma reputação construída ao longo dos anos pela publicação de trabalhos científicos de grande relevância e qualidade, muitos de seus materiais contribuíram para o proconceito, a exclusão e a discriminação de grupos minoritários. Em 1904, por exemplo, a Nature publicou um discurso sobre eugenia produzido pelo estatístico Francis Galton, um dos principais cientistas da época. Em seu estudo, Galton definiu a eugenia como “a ciência que lida com todas as influências que melhoram e desenvolvem as qualidades de uma raça”.

Logo, é nítido que, mesmo que a ciência esteja diretamente relacionada com seus contextos históricos, sociais e culturais, conforme apresentado por Kneller (1980), é preciso realizar um recorte considerando que isso não a exime de críticas por contribuições vistas como prejudiciais para a humanidade, independentemente do fato de que elas estivessem ou não de acordo com o contexto histórico da época. Além disso, a revista também reconheceu que esse problema não foi somente em sua história mais antiga, como também esteve presente nos anos mais recentes, tendo publicado artigos ofensivos, criticados por serem excessivamente elitistas.

Nesse ínterim, a raiz de muitos problemas na ciência reside do fato de que os seres humanos tendem a admirar e exaltar as capacidades da mente humana exageradamente sem exercer o devido questionamento, enquanto o verdadeiro progresso não seria possível sem o fortalecimento da investigação científica com métodos e ferramentas apropriados (Bacon, 1979). Outrossim, Descartes (1979) também aborda em sua obra a importância de jamais acolher algo como verdadeiro antes de conhecê-lo evidentemente e profundamente, ou seja, buscar evitar a precipitação. Assim, ainda que, também de acordo com Bacon (1979), a ciência nada mais é do que combinações de descobertas anteriores, ela não é infalível e deve ser continuamente submetida a um exame crítico.

Dessa forma, conforme analisado no caso do editorial da Nature, a própria revista reconheceu que, ao longo de sua história, falhou em exercer o devido questionamento sobre algumas das ideias que veiculou, permitindo que conceitos como a eugenia ganhassem espaço e influência no discurso científico e social, não somente há décadas atrás, mas também em sua história recente. Esse caso é um exemplo claro de como a ciência, quando não acompanhada de uma análise crítica constante, pode perpetuar e até amplificar preconceitos e desigualdades.

 Por fim, é preciso ressaltar que a ciência, ainda que inerentemente histórica na medida em que tende a ser cumulativa (Kneller, 1980), não deve ser apenas um acúmulo de conhecimentos, mas também de garantir que esse conhecimento seja utilizado de maneira ética e responsável. Logo, a ciência carrega essa responsabilidade de refletir criticamente sobre suas descobertas e práticas, garantindo que seu impacto seja inclusivo, ao invés de reforçar desigualdades e preconceitos.

Referências Bibliográficas

BACON, F. Novum Organum In: Francis Bacon. Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979. p. 1-21. (trechos escolhidos).

DESCARTES, R. Discurso do Método. In René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (trechos escolhidos) 

How Nature contributed to science's discriminatory legacy. Nature. 2022. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-022-03035-6. Acesso em: 16 ago. 2024. 

KNELLER. A Ciência como Atividade Humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 15-29.

 

Demarcação científica: conceito possível ou utopia?

 Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Cinthia Coutinho Cezar. 

Conceituar ciência no campo da epistemologia é um processo desafiador à pesquisa. Demo (1985) defende ser mais fácil a definição do que não é característica da cientificidade. De acordo com o autor, não são elementos da cientificidade a ideologia e o senso comum, por exemplo. Contudo, Demo (1984) compreende que a ideologia e o senso comum são conceitos intrínsecos ao sujeito e ao objeto e, portanto, é impossível dissociá-los do conceito de ciência. É possível, então, demarcar o que se aproxima do conceito de ciência?

Notoriamente há complexidade nesta conceituação. Contudo, corroboro com a ideia de Demo (1985) no sentido de que só é possível considerar elementos de cientificidade quando há a presença do critério da discutibilidade. Em síntese, algo somente pode ser científico caso se mantenha discutível ao longo do tempo. A ciência se assemelha a um produto inacabado, que requer lapidação ad eternum.

Fonte: https://centroloyola.com.br/para-que-serve-a-utopia.html

Kneller (1980) explora a ciência na história e demonstra que diversas inquietações da humanidade foram propulsoras para o desenvolvimento de ciências como a matemática, a astronomia, a física, a filosofia e outras. Kneller (1980) dispõe que a finalidade da ciência é chegar a uma compreensão exata e abrangente da ordem da natureza- que, paradoxalmente, possui elementos infinitos- e, por conseguinte, compreende que a ciência é intrinsecamente histórica. É neste ponto que o conceito de ciência de Demo (1985) e de Kneller (1980) aproximam-se. Conforme Kneller (1980), para compreender o que a ciência realmente é, é preciso considerá-la acima de tudo como uma sucessão de movimentos dentro do movimento histórico mais amplo da própria civilização.

Tenhamos como exemplo deste movimento histórico o desenvolvimento da teoria da evolução, explicitada no estudo de Kneller (1980). A teoria da evolução, em seu estado da arte atual, foi desenvolvida por meio da unificação entre a teoria da evolução de Charles Darwin e a teoria genética de Gregor Mendel. Neste sentido, é possível perceber a complementaridade da ciência ao longo do tempo e o seu caráter discutível, conforme preconiza Demo (1985). Não há ciência finita, o cientista tem por missão refinar conhecimentos existentes ou produzir novos Kneller (1980).

A ciência, portanto, avança ao ampliar teorias, ao alterar seus pressupostos, a complementar tradições em pesquisa e a simplificar o conhecimento. Compreende-se, pois, que o cientista é o sujeito que promove um enfoque e uma perspectiva acerca de um objeto, mas precisa ter em mente que seu produto é inacabado e integra um movimento histórico.

Considerando o viés da discutibilidade da ciência e sua infinitude, qual o sentido, portanto, de sua promoção? Eduardo Galeano, ao citar o cineasta Fernando Birri, diz que “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: que eu não deixe de caminhar.”. Semelhante à utopia, a ciência é movimento e encontra-se no horizonte. A finalidade da ciência é justamente a busca insaciável pela solução das inquietudes da humanidade visando uma sociedade melhor. Afinal, conforme Bloch apud Demo (1985), toda sociedade existente traz em si a esperança de uma melhor.

Referências 

 DEMO, P. Demarcação científica. In: DEMO, P. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 1985. 

 KNELLER. A ciência como atividade humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 15-29


Epistemologia: O Farol que Ilumina a Ciência

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Mariana Ribeiro Pires. 


Imagine a ciência como um veleiro navegando pelo vasto oceano do conhecimento. As águas são imprevisíveis, repletas de correntes de informações conflitantes e ondas de dúvidas. A epistemologia, aqui entendida como o estudo do saber de forma reflexiva e metódica1, parece surgir como um farol, iluminando o caminho, ajudando e orientando a ciência em sua jornada contínua de descoberta. Falar de epistemologia é falar de como o conhecimento é construído, e assim temos como a sua principal questão “como sabemos o que sabemos?2

Sob essa perspectiva, ao utilizarmos a ótica epistemológica e seus desdobramentos, podemos nos apoiar no conhecimento já construído e delimitado pela ciência, e assim aprofundar na temática.




Ao analisarmos a forma que o conhecimento é construído, podemos perceber diferentes concepções, dependendo da época histórica3 que foram concebidos e por qual corrente de pensamento estavam inseridos. John Greco em sua obra “The Blackwell Guide to Epistemology”2 apresenta dezessete ensaios sobre temas centrais da epistemologia, cada um de um autor líder na área temática relevante, com o objetivo de tornar o conteúdo mais acessível. Na mesma maneira, buscou-se apresentar de forma sistemática neste short paper (assim como uma carta náutica) as informações já construídas de outros autores para nos guiarem no entendimento e melhor roteiro para o descobrimento das formas do conhecimento, servindo como um guia de consulta para aprofundamentos:

Problemas Tradicionais: - formulação tradicional - “Grandes Questões” da teoria do conhecimento.

Ceticismo

Michael Williams

Realismo, Objetividade e Ceticismo

Paul K. Moser

O que é conhecimento?

Linda Zagzebski

Fundacionalismo e Coerentismo

Laurence BonJour

Natureza da Avaliação Epistêmica: diferentes aspectos da questão "O que é Conhecimento?" - examinam mais de perto várias dimensões da normatividade epistêmica, ou o tipo de normatividade relevante para a cognição

Internalismo e Externalismo

Ernest Sosa


Epistemologia Naturalizada

Hilary Kornblith

Contra a epistemologia naturalizada

Richard Feldman

Contextualismo

Keith DeRose

Racionalidade

Keith Lehrer

Variedades de Conhecimento: “O que podemos saber?”-      possibilidade de conhecimento perceptivo, conhecimento a priori, conhecimento moral e conhecimento religioso

Conhecimento Perceptivo

William Alston

Um conhecimento a priori

George Bealer

Conhecimento Moral e Pluralismo Ético

Robert Audi

Epistemologia da Religião

Nicholas Wolterstorff

Novas direções: algumas tendências recentes na epistemologia

Epistemologia Feminista

Helen E. Longino

Epistemologia Social

Frederick Schmitt

Epistemologia e Inteligência Artificial

John L. Pollock

Pós-modernismo      e       epistemologia                                  no continente

Merold Westphal


Apesar de vasto o conteúdo sistematizado na tabela acima, ele não se esgota quando tratamos da conceitualização de epistemologia e suas relações. Jassipau1, por exemplo, apresenta cinco conceitos distintos ao tratar de epistemologia: global (geral), que se refere ao saber considerado globalmente, abordando a virtualidade e os problemas inerentes à organização desse conhecimento, tanto em termos especulativos quanto científicos; particular, que se concentra em um campo específico do saber, seja ele especulativo ou científico; específica, que analisa disciplinas intelectualmente construídas com unidades bem definidas de saber; interna, que realiza uma análise crítica dos procedimentos de conhecimento utilizados em uma disciplina, com o objetivo de estabelecer seus fundamentos e por fim a derivada, que diferentemente da interna, visa analisar a natureza dos procedimentos de conhecimento de uma ciência não para fornecer-lhe um fundamento, mas para compreender sua essência.

Em síntese, a epistemologia nos convida e nos mostra como vieram e as formas de navegar entre as profundezas do conhecimento, passando por oceanos nem sempre facilmente navegáveis, e até mesmo por desconhecidas correntes intelectuais. Nem sempre o marinheiro tem certeza do rumo que deve seguir será a boreste ou bombordo, e pode estar aí a graça e da navegação e o que o levará a novas descobertas.


1 JAPIASSU, H. Alguns instrumentos conceituais. O que é a epistemologia? In: Introdução ao pensamento epistemológico. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991, p. 15-39.

2 GRECO, J. Introduction: What is Epistemology? The Blackwell Guide to Epistemology. Massachussets/Oxford: Blackwell Publishers Ltda, 1999, p. 1-33

3 TSOUKAS, H. & CHIA, Introduction: Why philosophy matters to organization theory? In: TSOUKAS, H. & CHIA, Philosophy and Organizational Theory. Bingley: Esmerald. 2011, p. 1-22.

Podemos pensar com a cabeça da terra?

 Pequeno ensaio produzido pelo acadêmica Amanda Marina Lima Batista.  

O livro A Ciência como Atividade Humana, de Kneller (1978) chama atenção ao associar os esforços dos primeiros cientistas que investigaram a natureza às emoções de medo e assombro. Nessa perspectiva, a finalidade da ciência seria descobrir as causas de “terremotos, inundações, incêndios e doenças” (p. 11) para ter mais segurança perante esses fenômenos. A ideia expressa por Kneller vai ao encontro das reflexões de Epicuro, segundo o qual “se não fôssemos perturbados por nosso fracasso em perceber os limites das dores e dos desejos, não teríamos necessidade alguma de estudar a natureza” (p. 12). Quando as investigações científicas começaram a perceber que a Natureza é ordenada e inteligível, o medo deu lugar ao assombro diante da possibilidade de dominar o mundo por meio da Ciência. 


Fonte: https://www.tapajosdefato.com.br/noticia/818/bem-viver-um-ideal-para-a-amazonia

Ao longo do estudo são apresentas as ciências que se desenvolveram na China, na Grécia clássica, no Islã e na Europa medieval. A tradição científica ocidental, apesar de ser mais recente em termos históricos, foi a que mais se aproximou de uma representação fidedigna da Natureza por meio de modelos matemáticos a partir de Galileu e da teoria mecanicista. O autor associa a ciência ocidental europeia também a condições históricas como a Reforma, a ContraReforma e a Renascença, uma verdadeira revolução do pensamento da época, sendo Francis Bacon e René Descartes pensadores desse período. A expansão marítima (séc. XV-XVII), que representa a semente de nosso atual mundo globalizado, foi intensificada pela Revolução Científica iniciada no século XVI. 

Na compilação “Aforismos sobre a interpretação da natureza e o reino do homem” (1620), é possível perceber o medo mencionado por Kneller. Logo na primeira reflexão, Bacon reconhece a imponência da Natureza ao mesmo tempo que a coloca como um oponente contra o qual o intelecto humano “não sabe nem pode mais” (p. 05). O filósofo empirista reconhece a mente humana como limitada e afirma que as descobertas científicas até o momento se deviam mais ao acaso do que de a uma ação sistemática da ciência. 

Diante disso, percebeu a necessidade de um novo método, que fosse além da observação, para ampliar o alcance de nosso próprio intelecto e da prática científica. De acordo com os registros históricos que se tem acesso, antes não havia a sistematização do conhecimento que levaria à experimentação e à reprodutibilidade que hoje são fundamentos da ciência. A obra de Bacon representou uma peça fundamental para que a ciência europeia se destacasse em relação às demais. Entretanto, cabe salientar que, na concepção de Crombie, havia na ciência medieval (séc. XIII-XIV) a essência do que tornaria o método experimental no século XVII (Koyré, 2011, p. 56-57). 

Outro estudo basilar para a trajetória ascendente do conhecimento europeu foi “O discurso do método” (1637) de Descartes, que tem como inspiração a matemática. O autor propôs uma forma de organizar o pensamento que conduzisse à verdade e superasse as convicções pessoais, fragmentando o objeto analisado para melhor resolvê-lo e indo do mais simples ao mais complexo. A busca pela verdade continua sendo o propósito científico, com a diferença de que a figura de um pensador fechado em um quarto bem aquecido para se entreter com as próprias reflexões deu lugar a uma comunidade científica que dialoga e constrói coletivamente o conhecimento. De modo análogo, o método de divisão do objeto de investigação para melhor compreendê-lo, ainda é pertinente nas ciências naturais, mas seu uso para as ciências humanas e sociais, nem sempre é o mais adequado. 

Com o capitalismo, a ciência europeia se universalizou, tornando-se referência em termos de método e de visão de mundo capaz de levar ao progresso por meio do aprimoramento técnico. No entanto, Kneller salienta que não há consenso de que o avanço científico dependa de uma classe mercantil conquistar poder político. Mesmo não sendo uma condição necessária, foi assim que a ciência europeia se tornou predominante. 

Na atualidade assombro identificado por Kneller a respeito dos rumos que a humanidade teria a partir da Revolução Científica, pode ser considerado um presságio da insegurança ambiental que experimentamos agora. Na concepção de Bacon, a Natureza era comparada a um prisioneiro que deveria ser torturado para revelar seus segredos mais íntimos (Boff, 2012). A racionalidade contemporânea ainda é atravessada por essa mesma ideia de dominação sobre os ecossistemas naturais de forma patriarcal e voraz (Shiva, 2015). 

Da mesma forma, a noção de “recursos naturais” coloca os biomas à disposição dos desejos humanos, que atualmente vão muito além das necessidades e movimentam a economia mundial rumo à acumulação e à desigualdade. Se no passado a ciência foi impulsionada pelo medo de uma natureza considerada hostil, implacável e perigosa, agora o aprimoramento técnico utilizado em uma lógica de obtenção de valor econômico a partir da degradação do mundo físico é que assombram a Natureza e nossa permanência enquanto espécie. 

É possível perceber que a visão da Natureza como uma ameaça das quais partiram as nações europeias possui relação com o clima da região, com invernos rigorosos, maior propensão a terremotos e tempestades que levavam à escassez inclusive de alimentos. Esse contexto impulsionou um aprimoramento técnico baseado no medo das condições daquela região. Porém, ao expandir suas fronteiras a partir das granes navegações, a nação europeia proclamou a si mesma como referencial de evolução e modelo de civilização. A técnica se uniu à colonização e levou aos desdobramentos históricos que se conhece. 

Seguindo a associação histórica do surgimento da ciência para lidar com as intempéries, é plausível que em continentes como a América Latina, não se poderia falar em ciência nos moldes europeus, o que é diferente de afirmar que não há conhecimento. Com um clima favorável, uma diversidade imensa e exuberante não há com a Natureza uma relação de medo, mas sim uma relação de afeto. A disputa por recursos escassos e a necessidade de acumulação que motivou os povos europeus não era um fator presente nesse lado do hemisfério. 

De acordo com Ailton Krenak, a palavra Natureza, sequer existe no vocabulário indígena. Há a Terra e os povos originários são parte dela. O nome Krenak, uma das etnias indígenas do Brasil, significa em sua etimologia, cabeça (kre) da terra (nak). Se atualmente vivemos a chamada era do Antropoceno (Artaxo, 2014) - época geológica caracterizada pelo impacto humano na Terra a partir da Revolução Industrial - ao ponto de falarmos em emergência climática, poderia a ciência europeia entrar em contato com os conhecimentos de povos que possuem afeto pela Terra para tecer uma ciência regenerativa? 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ARTAXO, Paulo. Uma nova era geológica em nosso planeta: o Antropoceno?. Revista Usp, n. 103, p. 13-24, 2014. 

BACON, F. Novum Organum In: Francis Bacon. Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979. p. 1-21. (trechos escolhidos) 

BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é-o que não é. Editora Vozes Limitada, 2017. 

DESCARTES, R. Discurso do Método. In René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (trechos escolhidos) 

KNELLER. A Ciência como Atividade Humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 15-29 

KRENAK, Ailton. Pensando com a cabeça na Terra. Anais da ReACT-Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia, v. 3, n. 3, 2017. 

SHIVA, Vandana. Earth democracy: Justice, sustainability, and peace. North Atlantic Books, 2015.

A África Insubmissa: os mais velhos como produtores de conhecimento

 Pequeno ensaio produzido pelo acadêmico Flávio Facha Gaspar.

Começo esta reflexão com o ditado de origem Africana, segundo qual “Em África, quando morre um mais velho é uma biblioteca que se queima”. Esta frase em grande medida é um indicador para depreendermos como a elaboração de conhecimentos no continente acontece. Por um lado, a figura dos mais velhos, entendidas como conhecedores e sábios, por causa das suas experiencias vividas. Por outro, a questão da oralidade, já que no continente, a oralidade se constitui como o meio principal através do qual os conhecimentos são passados.

Os conhecimentos e saberes no continente Africanos são passados através da oralidade. Uma boa parte das culturas africanas está baseada na tradição oral, a mesma ocupa um espaço pertinente na maneira que os povos enxergam e se enxergam no mundo, ou seja, a sua cosmovisão está imbuída e é percebida com e através da oralidade. Para entendermos melhor trarei exemplos.

Segundo Amaro (HÂMPATÉ, 2010), a tradição Bambara do Komo ensina que a palavra, Kuma, é uma força fundamental que emana do próprio Ser Supremo, Maa Ngala, criador de todas as coisas. Ou seja, as palavras não se constituem como meramente uma entoação através do qual podemos transmitir uma mensagem, mas é e sobretudo um elemento essencial de elo entre Deus e os homens.

O objetivo desta reflexão está na tentativa de colocar em destaque outras epistemes, e como tal, é preciso ampliar as formas de se fazer ciência fora do eixo ocidental do que seria produzir conhecimento ou considerar ciência.

MBEMBE, Achille.África insubmissa:cristianismo, poder e Estado na sociedade pós-colonial. Luanda: Ed. Pedago, 2013.

Segundo Bourdieu (2013), uma revolução cientifica encontra terreno mais fértil numa contra-comunidade. No entanto, nossa intenção não é percorrer este caminho. Porque seria fácil colocarmos o sul global em oposição ao norte global, entre o norte desenvolvido e o sul subdesenvolvido, entre aqueles que possuem o monopólio em sentido mais amplo de produção daquilo considerado eminentemente cientifico e os que precisam demonstrar serem capazes de produzir ciência dentro dos paradigmas instituídos pelo norte global.

Bloor (2008), diz que a exaltação da experiência como fonte do conhecimento pode ser vista como que encorajando os indivíduos a confiar nos próprios recursos físicos e psicológicos a fim de chegar a conhecer o mundo. Esta visão se aproxima do que sucede no continente Africano, no entanto, a produção de conhecimentos no continente está além da experiência adquirida ao longo do tempo, pois, estes conhecimentos são colocados em testes pelo conselho dos anciãos. Embora, esta forma de produção de conhecimento se aproxima também ao monopólio da autoridade cientifica, que possui a capacidade técnica e o poder social (BOURDIEU, 2013). No conselho de anciãos encontramos, jovens e mulheres. O que pode ser um indicativo de maior pluralidade na forma de constituição do que seria as autoridades que anuem o que seria considerada ciência consistente.

De ressaltar que não estamos numa postura de refutar as formas de se produzir uma sociologia da ciência, outrossim, de reconhecer as potencialidades e entender os limites de operacionalização em outras latitudes, que possuem cosmovisão de mundo diferentes e próprias.

Com esta reflexão tentamos colocar a baila outras epistemes que poderiam nos ajudar a ampliar as formas de produção da ciência e que tenha sentido para as pessoas que são sujeitos e alvos desta ação. Por isso, o titulo de África Insubmissa, em alusão a livro do intelectual contemporâneo Camaronês Achille Mbembe.

 

Referências

HAMPATÉ BÂ, Amadou. A tradição viva. In: História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed – Brasília: UNESCO, 2010.

BLOOR, David. Conhecimento e imaginário social. Editora Unesp. São Paulo, 2009.

BOURDIEU, Pierre. A sociologia de Pierre Bourdieu. Editora Olha d’Água. São Paulo, 2013.

MERTON, Robert K. Ensaios de sociologia de ciência. Editora 34. São Paulo, 2013.

 

 

 

 


Science Studies e a pesquisa em Administração

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Larice Steffen Peters.

A academia está preparada para encarar à ciência através dos Science Studies? O estudo da ciência – do que pode ou não ser chamado como tal – e da demarcação científica ao longo da história se mostrou como uma arena de disputas, disputas que foram importantes e que estavam ancoradas em determinado contexto temporal e histórico. Viuse o protagonismo de determinadas áreas do conhecimento, o papel nobre do cientista e uma busca – quase incansável – de tentar provar que a ciência é neutra. Só que, com os autores de Science Studies, parece-nos haver uma virada na compreensão do que é a construção científica, sai de cena uma discussão epistemológica para dar espaço para o campo de prática científica na qual o cerne está na aproximação de onde a ciência se realiza.

Bourdie (2013) reforça, sabiamente, que falar de ciência é falar de poder. Essa tentativa de dominar o poder pode ser visualizada no aumento das revistas e editoras predatórias, as quais priorizam seus próprios interesses em detrimento do que – ao longo dos anos – foi sendo caracterizado como conhecimento e ciência (BU UDESC, 2023). Tais publicações são caracterizadas por disseminar informações falsas, por cobrarem elevados valores dos autores para garantir a publicação e, dentre tantos outros problemas éticos, não agirem com transparência. Mas, por mais que a academia – pelo menos no âmbito da Universidade do Estado de Santa Catarina – alerte para tais fatores, elas seguem ganhando espaço e se pulverizando. Qual será o motivo? Talvez, as regras do jogo impostas pela própria academia e pela busca exacerbada por volume de publicações.

Nesse campo de disputa de poder, outro fator que nos leva a questionar se a academia está preparada para os Science Studies é a predominância de uma visão eurocentrista e americana na análise da relevância das publicações (e no definir o que é ou não científico), além, da priorização – em muitas situações – de trabalhos com características apenas quantitativas e da exigência das publicações em língua inglesa. Reflexões que seguem nesse caminho foram objeto de discussões em uma live realizada pela Anpad em 2021 e, há um entendimento que existem regras do jogo já impostas para garantir determinadas publicações e alimentar a academia (Anpad, 2021).

Ilustrados, de forma bastante breve, alguns pontos que desenham o cenário no qual a academia está inserida se faz o contraponto com os Science Studies – a prática científica. Merton (2013) afirma que existem consequências sociais dos trabalhos dos cientistas e defende que o éthos na ciência passa pela compreensão do universalismo, comunismo, desinteresse e ceticismo. No universalismo, a ideia principal é de que as normas e critérios para avaliar a qualidade do conhecimento científico devem ser aplicados de maneira universal, ou seja, não devem ser influenciados por fatores pessoais ou contextuais. Nesse sentido a reflexão que surge é: se há o predomínio da visão eurocentrista e americana em dizer o que é não ciência, qual o espaço para as publicações que retratam a realidade do Sul Global?

No comunismo, Merton (2013) defende que o conhecimento científico deve ser compartilhado abertamente entre os membros da comunidade científica, o que implica em compartilhamento de dados, métodos e descobertas visando o benefício coletivo. Em contraponto a tal concepção a prática na academia é marcada por revistas que requerem altos valores financeiros para serem acessadas, além da natureza privada e restrita de inúmeras bases de dados.

Ao falar sobre desinteresse, o referido autor apresenta que a principal motivação do cientista deve ser a busca pelo conhecimento e não interesses ou ganhos pessoais, ou em outras palavras: que os ganhos coletivos devem ser superiores aos ganhos pessoais (Merton, 2013). Sobre esse ponto, podemos nos deparar com tantas camadas que chega a ser difícil colocá-las no papel: interesses privados – de grandes grupos econômicos e políticos - no desenvolvimento de pesquisas, cientistas que se submetem a divulgação de pseudociência, etc.

Por fim, ceticismo organizado, no qual está em voga a atitude crítica e questionadora em relação às teorias existentes (Merton, 2013). Nesse ponto, acreditamos que é mais fácil de encontrar um alinhamento com o que está em prática na academia. 

Considerando outro autor dos Science Studies, gostaríamos de falar de Bloor (2009) que afirma que a ciência não está além da sociedade e daqueles que a estudam. Para além dessa afirmativa, apresenta-se o item reflexividade defendido pelo autor ao discorrer sobre o Programa Forte: reflexividade está ligada à ideia de que a sociologia da ciência não está isenta de suas próprias influências sociais e culturais, o cientista – no caso, o sociológo – deve ser reflexivos em seu próprio papel na construção do conhecimento e de como suas próprias perspectivas sociais podem influenciar suas análises. Há de se considerar, para Bloor (2009), que a posição social do cientista e suas influências estão também interligadas à prática científica social. Da reflexividade, o ponto de comparação com a academia é em relação a neutralidade do cientista – algo que me nossa visão, por mais que seja uma constante busca, não existe. 

Aproveitando a reflexividade trazida por Bloor, há também que se retomar que Bordieu (2013) possui uma visão do campo científico como um campo de lutas e aqui, entra em cena o papel do pesquisador em Administração e a postura que dele se espera – ou deveria se esperar – se ele compreender que está inserido em um campo de prática científica e tiver uma postura que vá ao encontro dos Science Studies.

Sabe-se que existem desafios já impostos na academia, mas sabe-se que com determinadas ações é possível traçar e reforçar novos caminhos. Considerando que a prática científica requer os pontos defendidos por Merton (2013), que há a reflexividade (Bloor, 2009), que o campo científico é um espaço de lutas (Bordie, 2013) e que o pesquisador é um agente – não neutro – dentro desse espaço destacamos a necessidade de se considerar o impactosocioambiental nas pesquisas em administração.

Alpersted e Andion (2017) chamam atenção para a necessidade do impacto social da pesquisa científica, sendo essa uma temática que deve ultrapassar os muros do Brasil e, que vai além da academia posto que é sentida e vivida na e pela sociedade. A ciência social é um saber – na palavra das autoras – situado, ou seja, ele está imbricado no enfrentamento das situações problemáticas da vida em sociedade. Para além disso, elas ainda apontam que a natureza da administração é uma natureza de ciência das práticas e não deve se afastar da realidade, muito pelo contrário, é na realidade que o pesquisador de administração deve atuar de modo que possa ser transformado e transformá-la. 

Seguindo a mesma linha, Ventura e Davel (2021) afirmam que a preocupação com o impacto socioambiental deveria ser fator onipresente em todas as pesquisas e práticas científicas. A postura dos autores está pautada na problemática que questões socioambientais negligenciadas reforçam as desigualdades sociais porque seus primeiros impactos – sempre – são sentidos primeiro pelos segmentos mais vulneráveis da sociedade. 

Por fim, como pesquisadores e cientistas da área de Administração, sabemos que devemos ter como éthos uma pesquisa que seja capaz de transformar as realidades sociais.

REFERÊNCIAS

ALPERSTEDT., G.D.; ANDION, C. Por uma pesquisa que faça sentido. Perspectivas. São Paulo, RAE/FGV-EAESP, V.57, n.6, nov-dez 2017, p. 626-631. 

ANPAD. Live Anpad: [ODPs] Pesquisa Qualitativa em Administração: Unindo Rigor e Relevância. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=fZntfgKsvz4. Acesso em outrubro, 2023.

BLOOR, D. Conhecimento e imaginário social. São Paulo: Editora Unesp, 2009. Introdução. 

BOURDIEU, P. O campo científico. In: ORTIZ, R. (org.). A sociologia de Pierre Bourdieu. São Paulo: Olho d’Água, 2013. 

BU UDESC. Folder Revistas Predatórias. não caia nessa. Material informativo compartilhado por e-mail institucional. Outubro, 2023

MERTON, R. K. A ciência e a estrutura social democrática. In: MERTON, R. K. Ensaios de sociologia da ciência. São Paulo: Editora 34, 2013. 

VENTURA, A.; DAVEL E. Impacto socioambiental da pesquisa (Editorial O&S), 2021. 

O papel das estruturas sociais e das instituições na análise de políticas públicas

 Pequeno ensaio produzido pelo acadêmico Ricardo Lonzetti


Uma abordagem de pesquisas que se incluem no campo dos estudos sobre mudanças em políticas públicas é a análise das discussões e do processo decisório que ocorre em eventos constituídos para debater e elaborar as propostas reformistas e, assim, descrever as propostas de mudança, os atores e instituições envolvidos, seus interesses e as dificuldades encontradas para que haja consenso para a consecução de determinada política. Tais pesquisas buscam contribuir para a compreensão tanto da mudança quanto da dinâmica e da estabilidade da agenda de determinada política pública. Isso pode ser alcançado tendo-se como foco a análise do papel das crenças, ideias e valores que a direciona.

O estudo do processo de formação da agenda de políticas públicas, a propósito, pode subsidiar a elaboração de políticas, aumentar a eficiência na alocação dos recursos pelos agentes privados ou ainda ajustar as contas públicas. Schneider e Ingram (1997) elevam o status e a importância das políticas públicas para além de instrumentos técnicos que podem ou não resolver os problemas contemporâneos. Políticas públicas são, assim, ferramentas para assegurar os valores democráticos para todos. Esta visão, corroborada por Sidney (2007), reclama por análises que se preocupem não só em demonstrar o quão efetivamente políticas públicas podem mitigar problemas sociais, mas em demonstrar o grau em que promovem os valores democráticos, ou seja, inspiram a participação política e desencorajam a divisão social.

Para que se proceda tal análise, é apropriada a abordagem teórica do Modelo de Coalizões de Defesa (ACF), elaborado por Sabatier (1993) e pesquisadores associados, em especial Hank Jenkins-Smith, como suporte consistente para a compreensão das mudanças na agenda da política e dos atores e instituições envolvidos na sua conformação. Agenda, aliás, conforme Kingdom (1995), se refere à lista de assuntos ou problemas para os quais atores, governamentais e não-governamentais associados àqueles, estão prestando atenção em determinado momento. Desse modo, conforme proposto pelo ACF, se reconhece que tais atores integram subsistemas de políticas, de modo que o conceito de agenda é tratado como o conjunto de temas que são alvo da atenção dos integrantes dos subsistemas de políticas públicas.

Muito da ênfase do ACF é na estrutura das crenças das coalizões de defesa competitivas e nos padrões de mudança dessas crenças. O Modelo busca auxiliar na compreensão de quadros complexos de políticas, permeados por atores que percebem o mundo de acordo com distintas e particulares visões, moldadas pelos sistemas de crenças. O modelo apresenta uma perspectiva integradora, que abarca aspectos importantes da realidade complexa e mutável que marca a formulação de uma política pública, dando especial atenção aos sistemas de crenças hierarquicamente estruturados, os valores e ideias que os suportam, assim como aos efeitos de eventos exógenos que podem explicar mudanças nesta política. Contudo, em geral, as pesquisas que adotam o Modelo não integram a dimensão institucional para proceder a análise - para fins de objetividade, imagino.

Devo reconhecer que o processo de formação de agenda é essencialmente um processo político, porque é conduzido por meio da negociação entre múltiplos e concorrentes interesses. Esse reconhecimento é suportado no entendimento proposto por Laswell (1958), de que de política é o processo por meio do qual a sociedade determina quem consegue o que, quando isso é alcançado e como se chega ao resultado esperado. Embora essa seja uma definição simples, podemos discernir, em seus próprios termos, três aspectos essenciais da política: a competição para se obter certos recursos - às vezes à custa dos outros, a necessidade de se cooperar para tomar decisões, e a natureza do poder político.

O processo de tomada de decisão a respeito de uma política pública, desse modo, ocorre em estruturas institucionais específicas, que dirigem, conformam e constrangem a abrangência das escolhas e resultados. Devo reconhecer, portanto, que arranjos políticos institucionais afetam de forma significativa os processos de política e seus consequentes resultados, incluindo a escolha de determinada alternativa pelos tomadores de decisão (policy makers), quais os interesses são representados ou quais os são os passos ou processos por meio dos quais as decisões são ou não são tomadas. Toda forma de decisão política, portanto, conforme lembrado por Ostrom (1990), pode ser vislumbrada como feita dentro de alguma forma de um arranjo institucional, que, por sua vez, afeta o comportamento individual e, por consequência, das coalizões.

Cada uma dessas questões opera em ambientes políticos complexos e interdependentes, onde muitos participantes interagem no contexto de arranjos institucionais aninhados, relações de poder desiguais e informações científicas e técnicas incertas sobre problemas e alternativas. Os autores do ACF, contudo, argumentam que esta complexidade inerente às políticas públicas requer uma simplificação conceitual para orientar as agendas de pesquisa, permitir a comunicação entre acadêmicos e profissionais e desenvolver estratégias efetivas de tomada de decisão. Esse é um ponto de vista reducionista, convenhamos. Reconhecer a questão institucional é mais do que considerar as instituições como outra variável que deve ser adicionada à multiplicidade de outros fatores de potencial relevância nos estudos a respeito do processo de políticas públicas.

As instituições, entendidas como procedimentos formais e informais, rotinas, normas e convenções inseridas na estrutura organizacional, estruturam a relação entre os muitos outros fatores de maneiras que podem afetar significativamente os resultados esperados. De acordo com Steinmo et al. (1992), as variáveis institucionais influenciam a agregação de preferências, regulam a velocidade do processo político, fornecem aos atores pontos de veto e equilibram as relações de poder dentro do sistema político. Instituições, além disso, definem quem são os atores que precisam aceitar uma proposta de solução para que determinada política seja implementada. De outro modo, os autores dessas soluções definem estratégias que os empreendedores de políticas podem empregar para obter o consentimento dos atores com poder de veto.

Entendo, desse modo, que as ideias de Bourdieu (1990) ajudariam não apenas identificar e descrever valores, opiniões e ações de diferentes atores numa situação, mas sim explicar as estruturas sociais que estão ligadas à possibilidade de surgirem esses valores, opiniões e ações. Ou seja, se aplicarmos tais ideias ao processo político e, consequentemente, à mudança política, poderíamos compreender as estruturas sociais que determinam e produzem valores, opiniões e ações das coalizões dominantes num subsistema político. Desse modo, poder-se-ia demonstrar como a mudança política resulta quando houver uma mudança nas estruturas sociais ligadas ao campo do subsistema político, permitindo que um grupo de indivíduos compartilhe os mesmos valores e os torne dominantes.

O trabalho de Bourdieu se caracteriza pelo fato de propor uma alternativa ao debate clássico entre o objetivismo (estruturalismo) e o subjetivismo (construtivismo) nas ciências sociais. Sugere, assim um "construtivismo estruturalista". O que significa que a realidade social é historicamente construída e é formada por estruturas cujas práticas moldam as ações e as percepções do indivíduo.

Em outras palavras, as ações, os valores e as percepções dos indivíduos não são produzidos individualmente por uma ligação às estruturas sociais, ao subsistema político, por exemplo, mas são o resultado de disputas entre indivíduos e são socialmente construídas. Cada subsistema de política, ou ‘campo’, para usar um temo do autor, tem as suas próprias regras (doxa) e estrutura. Os indivíduos que pertencem a um campo, ou melhor, agentes, estão envolvidos e acreditam nas regras do campo (illusio). O campo, assim, seria composto por diferentes agentes, cuja posição social depende da sua quantidade de capital, seja econômico, simbólico ou técnico. Em função da sua posição num campo e da sua posição noutros campos e trajetórias, os agentes desenvolvem determinados valores, crenças e opiniões integrados num sistema de percepção e ação (habitus).

Imagino enfim, concordando em partes com os autores do ACF, que considerar o aspecto institucional e trazer sua inerente complexidade à análise de políticas públicas requer uma sofisticação conceitual que se traduz em um desafio na orientação das agendas de pesquisa, na comunicação entre acadêmicos e profissionais e no desenvolver estratégias efetivas de tomada de decisão. Por outro lado, num primeiro momento, o entendimento das estruturas sociais e das instituições pode colaborar significativamente análise de uma política pública e, em um outro momento, na sua própria elaboração e desenvolvimento.

 

Referências

BOURDIEU, P. O Poder Simbólico. 14ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

LASSWELL, Harold D. The Decision Process. Seven Categories of Functional Analysis, College Park: University of Maryland Press, 1956.

OSTROM, Elinor. Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action. New York: Cambridge University Press, 1990.

SABATIER, Paul A.; JENKINS-SMITH, Hank C. (Eds.). Policy Change and Learning: An Advocacy Coalition Approach. Boulder: Westview Press, 1993.

SCHNEIDER, Anne Larason; INGRAM, Helen. Policy Design for Democracy. Lawrence: University of Kansas Press, 1997. 241 p.

SIDNEY, Mara S. Policy Formulation: Design and Tools. In: FISCHER, Frank; MILLER, Gerald J.; SIDNEY, Mara S. (orgs.). Handbook of public policy analysis: theory, politics and methods. Boca Raton / London / New York: CRC Press, 2007.

STEINMO, Sven; THELEN, Kathleen; LONGSTRETH, Frank. (Eds,). Structuring Politics - Historical institutionalism in comparative analysis. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.


Visão dos diferentes: uma troca entre amigos

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Ana Gabrielle Neves de Oliveira.

Quando pensamos em epistemologia, pode acontecer de nossa cabeça tomar vários caminhos. Alguns pensam em filosofia, outros dão mais importância ao método. Muitos como eu, antes de entrar nessa disciplina, tentavam desvendar os mistérios de um conceito que parece fácil e difícil ao mesmo tempo: a ciência de como fazer ciência.

O ponto que quero trazer é um relato pessoal e fazendo um paralelo com um acontecimento real do campo de epistemologia. Por isso não poderia deixar de dizer que ao adentrar nessa disciplina com mais profundidade e ler (alguns) clássicos e sabendo que tenho muito no que mergulhar ainda, entendi uma coisa: é muito estudo.

Muito estudo da ciência, da sua teoria e prática. Confrontar visões não é algo simples, mas necessário. Necessário para nos desconstruirmos, reconstruímos, achar o que estava perdido.No final esta é uma prática essencial para quem quer se melhorar como cientista e pessoa.

Por estar envolvida em muitas leituras e no universo da epistemologia, achei um tanto curioso quando me deparei com a história de dois grandes pensadores da área: Imre Lakatos (1922-1974) e Paul Feyerabend (1924-1994). Acontece que os dois eram grandes amigos e se opunham fortemente do que é e como é composta a cientificidade.

Diferente do neopositivismo, da lógica da linguagem, da falseabilidade e das etapas de construção de argumentos teóricos e avanços da ciência, Imre e Paul não acreditavam que era bem assim que as coisas aconteciam. Certamente a maioria das pessoas da Academia já ouviram falar de Lakatos ou até o referenciaram nos métodos de seus trabalhos. Talvez, as contribuições deste autor tenham um grande incentivo de Feyerabend.

Lakatos nos trouxe a metodologia dos programas de pesquisa, o que é na minha opinião mais próximo do que conhecemos hoje nas Universidades. Cada programa teria um núcleo firme de teorias unânimes ou irrefutáveis pelos cientistas da área e uma heurística positiva rege modificações nas teorias auxiliares da primeira. Portanto, em uma visão global o avanço e a revolução da ciência se dá pela superação dos programas de pesquisa, uns aos outros. 

Fonte: https://blogs.lse.ac.uk/lsehistory/2023/01/27/imre-lakatos-and-lse/

Por outro lado, Feyerabend é conhecido pelo anarquismo epistemológico, ou seja, ele acreditava que a liberdade na produção do conhecimento é o mais importante para o progresso na ciência. E a ciência e seu progresso são entendidas de várias maneiras, não há somente uma certa.

Fonte: https://alexbretas11.medium.com/carta-a-paul-feyerabend-18f8da84eb76

Nesse sentido, Feyerabend nos diz que quanto mais teorias existirem, mais progrediremos. Ele contrapõe a lógica de uma construção linear do conhecimento e afirma que o contexto da justificação, as intersubjetividades da descoberta e do cientista os influenciam e assim deve ser. As “anomalias” nas teorias “irrefutáveis” existem e a confirmação da hipótese nunca se dá cem por cento. Por este motivo, não é certo desconsiderar as subjetividades dos indivíduos e se levar em conta formalidades excessivas. Para ele, a ciência deve ser democrática e discutida com a comunidade. 

Voltando a parte curiosa, Lakatos e Feyerabend foram dois grandes amigos que trocavam cartas e discutiam suas visões extremamente diferentes. No início de seu livro Contra o Método, Feyerabend diz:

Este ensaio é a primeira parte de um livro a propósito do anarquismo que seria escrito por Lakatos e por mim. Cabia-me atacar a posição racionalista; Lakatos, por seu turno, reformularia essa posição, para defendê-la e, de passagem, reduzir meus argumentos a nada. Juntas, as duas partes deviam retratar nossos longos debates em torno desse tema — debates que tiveram início em 1964, prosseguiram em cartas, aulas, chamadas telefônicas, artigos, até quase o último dia de vida de Imre, e se transformaram em parte de minha rotina diária. A origem do ensaio explica o seu estilo: trata-se de uma carta, longa e muito íntima, escrita para Imre e cada frase perversa que contém foi escrita antecipando frase ainda mais ferina de meu companheiro. Também é claro que o livro, como se apresenta, está lamentavelmente truncado. Falta-lhe a parte mais importante, a réplica da pessoa para quem foi elaborado. Publico-o, entretanto, como testemunho da forte e estimulante influência que Imre Lakatos exerceu sobre todos nós. (FEYERABAND, p. 8, 1977).  

Portanto, o que virou um livro era uma troca de cartas com o amigo. Quando Lakatos morreu, Feyerabend resolveu publicar suas cartas sem respostas como um livro para homenageá-lo. Conforta o íntimo saber que entre ideias tão diferentes, havia tanta amizade e carinho um com o outro em suas tratativas.

Isso nos lembra que há muita vida para além da teoria. E que da teoria também emergem amizades. Essa é uma lição atual contra as armadilhas que o ego nos impõe. A vida nem sempre é fácil, pessoas são mais racionais, outras mais da liberdade, entretanto sempre podemos tornar tudo mais leve. 

Ultrapassando todo o contexto pessoal que eu não queria, mas fiz, pretendo levar esse aprendizado para a Academia que eu entro. Ela é diferente do que estes autores conheceram, o acesso é mais fácil, as coisas são mais rápidas, conseguimos reconstruir a parte que faltava no livro de Feyerabend.

Mas uma coisa não mudou. Somos todos pessoas, que precisam do convívio, de se achar entre seus entremeios e de seguir o caminho do bom convívio. E quando se tem (ou se faz) um grande amigo, ah, isso faz toda a diferença.

Referências:

FEYERABEND, Paul K. Contra o método. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.