Vestígios da ciência moderna

Pequeno ensaio produzido pelo aluno de mestrado Daniel de Souza Silva Júnior.

Cipião contou que, certa vez, Platão ou um dos filósofos da antiguidade grega foi levado por uma tempestade a uma praia desconhecida. Caminhando naquela deserta costa com alguns marinheiros, Platão viu figuras geométricas desenhadas na areia, ao que logo gritou “que fossem de bom ânimo, pois ele via vestígios de homens” (MAIA JUNIOR, 2016, p. 136). As inscrições na areia eram o sinal da ciência daquele homem antigo. Ao descobrir a razão, o homem grego intuiu formas e ideias do mundo real, estruturando um universo imaginário. 

E quanto ao homem moderno? Que formas e ideias a racionalidade pós-renascentista o levou a intuir? Dito de outro modo, o que desenharia na areia o homem moderno, para que alguém exclame: “vê, isto é ciência, vestígios de homem!” O espanto cultivado pelos gregos na contemplação da realidade foi lentamente equipado com cálculos matemáticos, em tempos medievais, conduzidos por Bhaskara, Averroes e Johannes Widmann, mas que se tornaram rudimentares diante das formulações modernas de Gauss, Bernoulli, Poincaré e outros. 

Aquelas formas na areia eram o sinal de vida da mente racional (logos) no mundo antigo, na qual a filosofia grega se debruçou. Um mundo construído sob uma plataforma mítica poética nas narrativas de Homero e Hesíodo, mas que teve grande progresso quando Tales de Mileto irrompeu o mistério e disse: “tudo é água”. Não que o homem grego tivesse os meios para se afastar por completo da influência dos deuses, mesmo porque, até Platão frequentemente recorria às mitologias, lembra Oliveira (2011). Mas o antigo grego trilhou o caminho da razão para saber os porquês do cosmos que o cercava.

Como resumiu Arent (2005, p. 279), “com o advento da modernidade, a matemática não somente amplia o seu conteúdo, mas o leva ao infinito para tornar-se aplicável”. Nos tempos de René Descartes, todo o corpo científico se concentrava na lógica, na álgebra e na análise dos geômetras. Assim ele disse: 

quanto à lógica, os seus silogismos e a maior parte de seus outros preceitos servem mais para explicar a outrem as coisas que já se sabe. (...) Depois, com respeito à análise dos antigos e à álgebra dos modernos, além de se estenderem a matérias muito abstratas, e de não parecerem de nenhum uso, a primeira permanece tão adstrita à consideração das figuras que não pode exercitar o entendimento sem fatigar muito a imaginação. Na segunda, há certas regras e certas cifras que fizeram dela uma arte confusa e obscura, que embaraça o espírito, em lugar de uma ciência que o cultiva. (DESCARTES, 1979, p. 37-38) 

Diante de tais fragilidades dessas ciências, Descartes (1979) resolveu construir um método composto de quatro princípios. São eles: 1) jamais tomar algo como verdadeiro se não reconhecesse como tal; 2) dividir cada uma das dificuldades em várias partes para melhor resolvê-las; 3) ordenar os pensamentos, a começar pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer; e, por fim, 4) estabelecer enumerações tão completas, de modo a garantir que nada fora omitido. Na era cartesiana, o homem moderno se atreveu a desnudar-se por completo para a racionalidade lógica: “nunca o meu intento foi além de procurar reformar meus próprios pensamentos, e construir num terreno que é todo meu” (DESCARTES, 1979, p. 36). Em outra parte, Descartes completa: “compreendi então que eu era uma substância cuja essência ou natureza consiste somente no pensar” (DESCARTES, 2017, p. 40). 

Fonte: La Nación (2018).
Koyré (2011) destaca que o “salto metodológico” da ciência moderna, identificado por Alistair Crombie, nada mais foi que um neoplatonismo. “A pergunta metafísica sobre o “porquê” das coisas (...) foi progressivamente substituída pela pergunta científica sobre o “como” das coisas, respondida simplesmente colocando fatos em correlação” (CROMBRIE, 1953, apud KOYRÉ, 2011, p. 66). Para Crombie, esta foi uma mudança de grau, mas para Koyré, foi uma mudança de natureza.

A sofisticação calculista da mentalidade moderna se estabelece sob uma amálgama de técnicas, que acabam reduzindo os fenômenos a uma condição de validade ou invalidade. Não por acaso, nas notas de rodapé 2 e 3 de Bacon (1979, p. 5-6), o tradutor destaca que o filósofo utilizava os vocáculos “ratio” ou “via” no lugar da transcrição latina “methodus”, possivelmente para afastar de vez o silogismo dedutivo medieval. Bacon (1979) estava sinalizando que seu instrumento supremo era a razão, e assim como para os serviços braçais as ferramentas são necessárias, na intelectualidade os métodos são indispensáveis. Se Crombie estava equivocado quanto à supremacia da abordagem quantitativa frente à qualitativa, ou mesmo enganado quanto à origem da ciência moderna, como bem destacou Koyré (2011), o historiador australiano acertou no que tange a metodologia moderna, pois, a matematização das abstrações é o maior produto da ciência moderna.

No fim, se o homem moderno estivesse naquela ilha deserta da qual Cipião falou, talvez ele inundasse a vasta costa praiana de algoritmos matemáticos com fórmulas, ábacos e tabelas dinâmicas. Estabeleceria vetores, mediria grandezas e representaria conceitos e postulados com operações matemáticas precisas. Tanto Descartes quanto Francis Bacon tentaram traspassar esta matematização, resumindo tudo a uma questão de método para conhecer a realidade. Todavia, nas areias da praia, o homem moderno segue desenhando fórmulas, mas sem encontrar a realidade. Como se diria, “é homem porque os animais não podem fazer cálculos tão complexos”. Porém, seria isso uma ciência? 

Referências: 

ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
BACON, Francis. Novum organum. In: BACON, Francis. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979. p. 1-21.
DESCARTES, René. Discurso do método. In: DESCARTES, René. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
___. Discurso do método. São Paulo: Lafonte, 2017.
KOYRÉ, Alexandre. As origens da ciência moderna: uma nova interpretação. In KOYRÉ, Alexandre. Estudos de história do pensamento científico. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.
LA NACIÓN. [Imagem de René Descartes]. Qué es y qué no es: el sueño de René Descartes que revolucionó las matemáticas. BBC News, 25/11/2018. Disponível em: <https://www.lanacion.com.ar/sociedad/que-es-y-que-no-es-el-sueno-de-rene-descartes-que-revoluciono-las-matematic-nid2196130>. Acesso em: 06/09/2019.
MAIA JUNIOR, Juvino Alves. De re publica, de Cícero. João Pessoa: Ideia, 2016.
OLIVEIRA, Richard Romeiro. As relações entre a razão e a cidade nas “leis” de Platão. Belo Horizonte: Loyola, 2011.

Fake news: uma reflexão a partir de Demo, Bacon e Dewey

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica de mestrado Bárbara Ferrari Gonzaga.

A eleição presidencial que vivemos no último ano fez emergir um tema que hoje, quase 1 ano após o seu fim, ainda continua em alta e sendo bastante utilizado: as fake news (notícias falsas). Durante a eleição, inúmeros foram os casos de uso das fake news – pela grande maioria dos candidatos ou por seus apoiadores –, para defender o candidato de sua preferência e/ou criticar os seus adversários. A prática virou quase uma marca da eleição de 2018 e ainda hoje se perpetua, atingindo, também, outras áreas, como saúde, meio ambiente, ciência, etc.

Demo (1985) define ciência através da exclusão, isto é, aquilo que não é ciência, colocando-a num contínuo entre senso comum e ideologia. Traz, ainda, os critérios de distinção entre eles: entre a ciência e o senso comum “seria o conhecimento acrítico, imediatista, que acredita na superficialidade das coisas” (DEMO, 1985, p. 14) e entre ciência e ideologia “será o caráter justificador” deste último, ou seja, o fato de buscarem, muitas vezes na ciência, uma justificativa para defenderem a sua visão. Além disso, ele coloca que a ideologia “inclui sempre a deturpação dos fatos em favor da posição a ser defendida, e chega mesmo à falsificação, quando atinge o nível da própria mentira” (DEMO, 1985, p. 14-15). Esta última afirmação nos remete muito à questão das fake news e de como, na maioria das vezes, elas são utilizadas em favor de uma ideologia, como pôde ser visto nas últimas eleições em ambos os lados.

Também vale apontar a relação entre fake news e senso comum: ao acreditar em uma notícia veiculada na mídia sem uma visão crítica, vemos o acontecimento apenas de maneira superficial, tomando isso como verdade absoluta, sem comprovar a fonte da informação e se existem provas que a confirmem.

Ao realizar a leitura do texto de Francis Bacon (1979, p. 65), Novo Organum, no trecho onde destaca que “os doutos, homens indolentes e crédulos, acolheram para estabelecer ou confirmar a sua filosofia certos rumores, quase mesmo sussurros ou brisas de experiência, a que, apesar de tudo, atribuíram valor de legítimo testemunho” e comparar a afirmação com a realidade atual do país, é inevitável não relacioná-la à grande disseminação das fake news, em que o indivíduo se utiliza de argumentos e notícias que comprovam a sua teoria/sua opinião, sem se preocupar com a veracidade dos fatos e de, até mesmo, quando possível, comprovar por si mesmo a realidade.

Veja (2018)
As notícias falsas na área da saúde e da ciência são um belo exemplo da realidade e atualidade da citação anterior. Algumas pessoas fizeram suas próprias “experiências”, talvez sem nenhum método científico sistemático, apenas com intuito de provar suas teorias, e outras as tomaram como verdade absoluta, fazendo com que anos de pesquisa e experimentação científica real e sistemática passassem a ser menos considerados do que essas notícias com base científica duvidosa. É um problema grave, que tem levado cada vez mais pessoas ao médico (com enfermidades piores do que tinham inicialmente) e que tem causado um grande aumento no número de doenças (antes consideradas erradicadas) devido à falta de vacinação.

Alguns exemplos das fake news mais difundidas, mapeadas pelo Ministério da Saúde (2018), são: água de coco cura o câncer, bananas contaminadas com vírus HIV, exame de mamografia causa câncer de tireoide, vacina contra sarampo causa autismo, dentre outras (CONASEMS, 2019). Podemos pensar: como alguém poderia acreditar em qualquer uma dessas notícias? Será que não percebem o quão absurdas elas são? Aqui se faz importante considerar dois pontos: o primeiro é que uma parcela da população não tem acesso à informação de qualidade e/ou não tem acesso à educação, estudo e incentivo ao pensamento crítico, o que aumenta a possibilidade de essas pessoas estarem expostas a acreditarem nessas fake news e a disseminá-las. O segundo é que, devido ao fato exposto anteriormente, as pessoas podem considerar a ciência como uma área distante da sua realidade, uma espécie de “bolha inalcançável” onde apenas os “cientistas oficiais” fazem ciência, afastando esta e a produção científica cada vez mais da população em geral.

Esses dois pontos se ligam à obra la opinión pública y sus problemas, de John Dewey (2004). Ao considerar que o conhecimento tem papel fundamental para a associação e a comunicação, o autor também diz que, no entanto, este tem circulado de maneira lenta e desigual na sociedade, apontando alguns dos motivos para tanto. Entre eles, aponta o fato de que “a ciência nasceu em meio ao estabelecimento dos especialistas que concentram o saber para si, através de instrumentos e linguagem própria” (DEWEY, 2004, apud DIAS, 2010, p. 110).

Assim, o conhecimento não seria obrigatoriamente produzido para a população em geral, que teria acesso a apenas alguns âmbitos desse saber, mas não todos, ficando parte dele, restrito aos especialistas. O autor defende, dessa maneira, a importância da socialização do conhecimento, especialmente aquele que pode influenciar a opinião e a ação pública, que não devem ser pautadas em “impressões vagas, em concepções do senso comum, em emoções fáceis” (DEWEY, 2004, apud DIAS, 2010, p. 110). Isto posto, o conhecimento deveria capacitar a sociedade para debater, questionar e ter um olhar crítico sobre os problemas sociais, e não ficar confinado e ser dominado pelos peritos da ciência, pois a democracia só se consolidará de verdade quanto os indivíduos tiverem domínio sobre a sua opinião, que depende da comunicação e da circulação do conhecimento (DIAS, 2010).

Referências:

BACON, Francis. Novum organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza; Nova Atlântida. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
CONSELHO NACIONAL DE SECRETARIAS MUNICIPAIS DE SAÚDE (CONASEMS). Fake news agravam surtos de doenças no país. 2019. Disponível em: <https://www.conasems.org.br/fake-news-agravam-surtos-de-doencas-no-pais/>. Acesso em: 17 ago. 2019.
DEMO, Pedro. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 1985.
DIAS, Vanessa Tavares. Resenha de la opinión publica y sus problemas, de John Dewey. Revista Estudos Políticos, Niterói, n. 1, 2010/02, p. 105-111. Disponível em: <http://revistaestudospoliticos.com/wp-content/uploads/2010/12/1p105-111.pdf>. Acesso em: 17 ago. 2019.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Fake news. 2018. Disponível em: <www.saude.gov.br/fakenews>. Acesso em: ago. 2019.
VEJA. [Imagem de marionete.] In: VEJA. Fakenews: o golpe das notícias falsas. Revista Veja, São Paulo, ano 52, n. 3, ed. 2565, jan. 2018, capa. Disponível em: https://veja.abril.com.br/edicoes-veja/2565/. Acesso em: 02/9/2019.

A origem da ciência, os diferentes pontos de vista e a demarcação científica

Pequeno ensaio produzido pela aluna de doutorado Amanda Maciel Carneiro.

Tem a ciência seu surgimento, conforme Kneller (1980), dos anseios, medos e angústias humanas. É a tentativa de reduzir esses sentimentos, buscando ordem e compreensão, que motiva e move a ciência para a frente (KNELLER, 1980), embora devamos reconhecer que ainda hoje é a nós difícil tarefa conceituá-la, buscando em alguns autores consagrados definições negativas (sobre aquilo que ela não é, como em DEMO, 1985). Partiremos aqui do ponto de vista da ciência como processo, expressamente mencionado por Demo (1985) e Japiassu (1991), de onde prosseguiremos à análise.

Das inúmeras tentativas de se buscar a ciência, os rumos que estas tomaram dependeram de visões de mundo, contextos históricos, sociais e culturais em que esses estudos emergiram e evoluíram (DEMO, 1985; KNELLER, 1980). Nas palavras de Kneller, referindo-se às origens da ciência, “somos nós que vemos na obra deles as características de uma ciência que eles mesmos não poderiam reconhecer” (KNELLER, 1980, p. 14). A isso se relaciona a ideia de que a própria demarcação e conteúdo da ciência muda ao longo do tempo, de suas próprias transformações e do parâmetro sob a qual ela é analisada, argumentação defendida por ambos os autores. Algo que já foi considerado ciência pode hoje não o ser (embora importante que reconheçamos que, àqueles olhos, naquela época, o era); algo que não era considerado ciência pode hoje, devido a nossos avanços, tanto de conhecimento científico quando do próprio conteúdo da ciência, sê-lo. E como toda ciência, em um eterno devir (JAPIASSU, 1991), pode infinitamente sê-lo e deixar de sê-lo, tanto pela natureza do objeto, quanto pelos olhos de quem vê.

É daí que aproveitamos o espaço e ressalvamos, exemplificativamente, a afirmação de Kneller de que “as explicações para o fracasso da China em criar uma ciência moderna não provam que existia um caminho único para essa ciência, mas apenas que a China não enveredou pelo caminho que adotamos” (KNELLER, 1980, p. 20), manifestando seu posicionamento de que a ciência ocidental foi a mais bem-sucedida. Pontos de vista à parte, pois cabe a ele colocar o que tem de si e de seu vasto conhecimento naquilo que imprime aos outros, e ressaltando o fato de que afirmamos o que segue, somente baseados no pontuamento específico sobre o “fracasso da China em criar uma ciência moderna”, abrimos espaço ao nosso, que ressoa: “ainda não conhecemos tudo”.

Embora a obra de Kneller (1980) discuta a história da ciência, e o quanto ela depende da lente que adotamos, muitas vezes olhamos para essa história e tiramos nossas conclusões com um olhar fixo sobre o que é a verdade - e talvez um dia nos impressionaremos se a nossa visão de ciência for mais a frente considerada “geocêntrica” (o que poderia ocorrer com o “fracasso da China na criação de uma ciência moderna”, de Kneller). Se assim for, bem-vindo seja o heliocentrismo, ou qualquer coisa que venha após isso, que nos aproxime um pouco mais daquilo que buscamos.
Hilburn (2017)
Nesse sentido, colocamos o autor, nessa afirmação específica, na posição de historiador das ciências, e a nós, em um projeto de iniciação de epistemólogos, na diferenciação conceitual de Japiassu (1991), muito mais para esclarecer as diferentes formas de manifestação do pensamento do que a posição propriamente dita de Kneller (1980). Até porque vem dele próprio a concordância explícita com a ideia de inexistência de somente uma ciência, considerando numerosas as ciências, e de que a ciência está sempre aberta à transformação e corrigibilidade, sendo histórica, “conjetural” e “revolucionária” (KNELLER, 1980, p. 32). E mesmo que assim não fosse o seu ponto, de algum ponto se deve partir; e cada um parte do que tem (do seu). Todos [os pontos de vista] não deixam de ser espectros da verdade; somos como os “cegos sábios do Hindustão” – elogiosamente, pois a grande maioria de nós mortais ainda busca a sabedoria.

A ciência, em sua procura pela verdade, busca não somente a verdade exterior como a si própria e às suas definições, e lida com as suas próprias limitações, já que analisa e faz parte do mundo que analisa (DEMO, 1985). Nesse contexto, talvez, dentre os critérios internos e externos utilizados por Demo para definir a ciência, o que mais reconheça essa condição seja a objetivação, o esforço de “reproduzir a realidade assim como ela é; mais do que como gostaríamos que fosse” (DEMO, 1985, p. 16).

A precariedade do fenômeno científico e a relação interacional sujeito-objeto torna tudo discutível e em aberto, já que o domínio da verdade só poderia ser feito com olhar imparcial e objetivo (que, a nosso ver, escapa à razão humana, pois teria o pesquisador que olhar o objeto vendo tudo dele e nada de si), e ainda assim dentro de uma realidade imutável, o que contrasta com a natureza transformacional das interações e fenômenos sociais, como bem salienta Demo (1985).

A realidade construída pela ciência acaba, pela nossa visão, em muito se assemelhando com a visão que temos de nós mesmos somada à busca da “ilha desconhecida”, de Saramago. Lidamos com o que podemos e com o que temos, cada um à sua maneira, e preferencialmente sem perder o rigor daqueles que fervorosamente buscam, cientes de que o conhecido de hoje (provavelmente) não é o conhecido de amanhã. Reside aí a dificuldade de fronteiras na demarcação científica da ciência. E quem delas precisa?

Referências:

DEMO, P. Demarcação científica. In: DEMO, P. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 1985.
HILBURN, Scott. [Imagem de rinoceronte pintor] In: HILBURN, Scott. The argyle sweater. GoComics.com, June 2017. Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/ 574912708672035898/. Acesso em: 02/09/2019.
JAPIASSU, H. Alguns instrumentos conceituais. In: JAPIASSU, H. Introdução ao pensamento epistemológico. 6. ed. São Paulo: Francisco Alves, 1991, p. 15-39.
KNELLER. A ciência como atividade humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 15-29.

As demarcações necessárias

Pequeno ensaio produzido pelo aluno de doutorado Gabriel Marmentini.

Demarcar a ciência me parece algo natural em uma sociedade que gosta de demarcar as coisas. Quanto mais limites criamos para alguns campos, mais controle podemos exercer sobre eles. Mais barreiras podemos criar para que novatos adentrem nos mesmos. Mais status pode-se atribuir a quem tem o êxito de estar circunscrito a algo tão bem demarcado e difícil de pertencer. Mas nada disso precisa ser necessariamente negativo, como minhas palavras anteriores tendem a apontar, propositalmente. Ter limites, controle, barreiras e critérios pode servir para dar mais legitimidade, processualização e organização a determinado conceito, atividade ou grupo de pessoas. Eu gosto da demarcação e meu argumento é que dela precisamos. Ao longo do meu escrito tal argumento se tornará mais sólido.

A cada linha lida de Demo (1985) nos sentimos provocados. Posso não ter compreendido ainda tudo que li, mas entendi o suficiente para dizer que, sem dúvida, trata-se de uma leitura fundamental na trajetória do pesquisador. Assim como eu, ele entende que a realidade nunca será suficientemente estudada, sendo o ofício de um professor-pesquisador uma eterna jornada. Uma mistura de humildade com realidade nos leva a entender que a ciência inacabada e inacabável, como ele diz, deve ser novamente interpretada, se iniciando, talvez, por sua des(singularização). Em outras palavras, a ciência é plural. Se há pluralidade de ideias, haverá pluralidade de conceitos. O fazer ciência vem de diferentes fontes, pessoas e campos do saber. Não há um único conjunto de critérios de cientificidade. Não há uma abordagem metodológica melhor que outra. Não há um grau correto de senso comum e um grau correto de ideologia permitidos em uma investigação. O que temos de sobra são problemas, leia-se perguntas, aguardando por soluções, leia-se respostas. É isso que os pesquisadores precisam: fazer boas perguntas para que a partir delas busquem boas soluções, tendo sempre como ótica a pesquisa que faz sentido (ALPERSTEDT e ANDION, 2017). Nós fazemos ciência diariamente, seja em laboratórios e com jalecos brancos, seja dentro da universidade, seja interagindo com as nossas comunidades e organizações. Ciência se tornou um termo rebuscado, distante e um tanto chique. Precisamos ressignificar a ciência.

No campo musical, estilos são demarcados. No campo artístico, obras são demarcadas. No campo da literatura, escritos são demarcados. No campo social, muitas coisas são demarcadas por meio de políticas públicas. E vamos com calma, pois demarcar não precisa ser sinônimo de um pensamento reducionista e cartesiano, tampouco associado aos adjetivos que citei no primeiro parágrafo de modo negativo. Como eu disse, façamos o exercício de pensar na demarcação como uma ação de legitimidade interna para diversas questões, não querendo excluir ninguém ou formar clubes que tendem a se transformar em bolhas, mas mostrando o quão diverso é o campo científico e que todos têm uma contribuição e merecem ser respeitados. Temos que aprender que a demarcação na era da complexidade deve ser acompanhada de muito respeito ao contraditório e abertura para o diálogo.

Eu, por exemplo, acho uma perda de tempo discutir se Administração é ou não ciência. Perda de tempo no sentido de quem está contra nós, pois aos que escrevem a favor e defendem nosso campo temos que agradecer pelo esmero e paciência. Gostaria que alguém me explicasse o sentido em sermos uma "ciência menor" sendo que, além de avançar o conhecimento científico, trazemos soluções práticas ao mundo, diferente de muitos outros campos do saber, diga-se de passagem. Não, não quis ser irônico. Eu consigo compreender e respeitar que a ciência, por ser plural, cumprirá com sua função social de diferentes formas, em maiores e menores graus. Pois avançar o conhecimento científico, mesmo que sem aplicabilidade direta ou imediata, também é uma função social. Enfim, mais do que divisões, precisamos nos unir. Se o sistema de demarcações científicas funcionasse da forma que imagino, seria incrível ver a união entre diferentes tradições, como aponta Kneller (1980), seja para criar novas teorias arraigadas na heteronomia, seja para revisar pressupostos de ambos os lados de forma colaborativa.

Kneller (1980) diz que levará muitos séculos para a ciência alcançar completude em suas explicações para a ordem natural. Muitos séculos me parece até otimista, visto que tendo a pensar que até lá, muitas outras coisas já terão caído por terra e outras perguntas terão emergido. Os escritos também se complementam pois ambos partem da premissa da autocrítica necessária aos pesquisadores. É dela que virá nossa capacidade de crescer continuamente e de contribuir para a evolução do campo científico. E é justamente o que estou propondo neste pequeno escrito, que façamos uma profunda autocrítica. Precisamos, o quanto antes, entender que partimos sempre de um objeto construído, que temos visões de mundo e trajetórias diferentes e que nosso fazer ciência nem sempre será igual. Contudo, isso não me faz melhor ou pior do que outro cientista ou outra corrente de pensamento. Quando falo da demarcação, penso ser uma forma legítima da ocupação do espaço científico pelas mais diversas correntes, não havendo um limite, visto que a ciência, em si, é ilimitada. Talvez seja uma forma de contribuir para o avanço da filosofia das ciências (JAPIASSU, 1991).

Referências:

ALPERSTEDT, G. D.; ANDION, C. Por uma pesquisa que faça sentido. Perspectivas. Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v. 57, n. 6, nov-dez. 2017, p. 626-631.
DEMO, P. Demarcação científica. In: DEMO, P. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 1985.
JAPIASSU, H. Alguns instrumentos conceituais. In: JAPIASSU, H. Introdução ao pensamento epistemológico. 6. ed. São Paulo: Francisco Alves, 1991, p. 15-39.
KNELLER. G. F. A ciência como atividade humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 15-29.

O estereótipo como pré-saber do saber estatístico

Pequeno ensaio produzido pelo aluno de mestrado Gabriel E. Queiroz de Melo.

Este estudo deseja demonstrar que as generalizações populares sobre comportamentos ou características, genericamente definidas como estereótipos, são um pré-saber relativo ao saber estatístico.

Primeiramente, é importante definir a conceituação de estereótipo. Aqui, será aceita a sugestão de Stangor (2010), que coloca os estereótipos como características genéricas, de fácil observação, mentalmente associadas a um grupo social e cristalizadas ao longo do tempo.

Também é importante ressaltar que os estereótipos não necessariamente estão associados ao comportamento discriminatório negativo objetivo, como exposto por Castel (2008, p. 14). Negativo porque é “uma instrumentalização da alteridade, constituída em favor da exclusão”, objetivo porque o portador do comportamento discriminatório efetivamente age contra o discriminado.

O estereótipo, na verdade, deve ser encarado como uma formulação do senso-comum. Nos termos de Demo (1985, p. 14), senso comum é aquele conhecimento “acrítico, imediatista, que acredita na superficialidade do fenômeno”. Características perfeitamente aplicáveis aos estereótipos, que podem ser vistos como estatísticas intuitivas, formadas a partir da simples observação, sem rigor metodológico ou formalidade acadêmica.

Uma vez que foram categorizados dentro do senso comum, ainda é possível definir os estereótipos como um pré-saber, pois, como coloca Japiassu (1977), pré-saberes são aquisições não-científicas de estados mentais, formados de modo natural ou espontâneo, opiniões-primeiras ou pré-noções, incluídas dentro de algum contexto social.

Também segundo Japiassu (1977), os pré-saberes, exatamente por não terem caráter científico, são sujeitos a reproduzir uma gama de traços contrários ao saber, como erros, generalizações indevidas. Porém a existência dos saberes está condicionada a existência prévia dos pré-saberes. Neste caso, defende-se que a existência do saber estatístico está relacionada com o pré-saber estereótipo.

Não é razoável acreditar que a estatística moderna, com todas as suas sofisticações e rigores matemáticos e metodológicos, seria possível se o homem não tivesse, desde os primeiros momentos de sua existência como animal social, uma inclinação natural para observar padrões, tentar categorizá-los em grupos e, posteriormente, fazer previsões a partir deles.

A formação de estereótipos pode ser tomada como uma adaptação evolutiva da mente humana, uma vez que, como apresentam Peric e Murrieta (2015), a evolução humana não se deu somente em relação a condições externas, como temperatura e clima, mas também ao ambiente social. Era uma questão de sobrevivência saber identificar padrões e atribuí-los a indivíduos que provavelmente também os tivessem. Em resumo, a ciência não haveria de contar com a sofisticada estatística moderna se, um dia, não tivesse contado com a rudimentar “estatística intuitiva” dos estereótipos. 

Como um tipo de pré-saber, que não é científico, o uso de estereótipos, não é recomendado e, na maioria das vezes, inclusive, é fortemente desaconselhável. Porém, como coloca Demo (1985), a ciência acadêmica até pode aceitar métodos que não tenham tanto rigor metodológico, derivados do senso-comum, desde que não haja equivalente dentro de vias testadas por experiências profundamente críticas.
Fonte: Samary, Yamartino e Anvari (2013)
É o caso dos estereótipos que, mesmo sendo um pré-saber, ainda tem o poder de auxiliar o saber estatístico, ao se configurarem como “estatística heurística”, no sentido de serem um atalho mental. Sowell (2019) defende que o uso de estereótipos pode ser válido, como uma forma de teoria dos grandes números, quanto não existem recursos necessários para as técnicas mais adequadas.

Guerra (2002) apresenta a teoria da cognição social, inserida no contexto da psicologia social, onde, até nos estudos mais modernos, a formação de estereótipos é vista como estrutura cognitiva útil para o levantamento de informações que são similares aos membros de um mesmo grupo, as quais podem ser efetivamente organizadas e armazenadas, com a desvantagem de estarem expostas a variáveis pessoais de quem as coleta. Corroborando com isso, Jussim (2016) mostra que dentro da área de psicologia social, eivada com uma série de problemas metodológicos, a precisão dos estereótipos é um dos pontos de apoio mais bem estabelecidos.

Os estereótipos nasceram da necessidade humana de compilar informação (dados) e atribuir padrões, enfim, descrever o mundo que nos cerca, de forma rápida e com algum grau de precisão. Já a estatística, nasceu da necessidade de coletar estes dados de maneira formal, mantendo a subjetividade de quem coleta no limite do aceitável, para a criação de parâmetros efetivos, na busca da descrição mais fidedigna possível da realidade.

O que ainda deve ser buscado por trabalhos futuros é avaliar a real necessidade que os campos de pesquisa têm de ainda fazerem o uso de estereótipos como esta forma de estatística rudimentar e discutir até que ponto eles podem ser usados sem que o pesquisador incorra na atitude discriminatória negativa objetiva.

Referências:

CASTEL, Robert. A discriminação negativa: cidadãos ou autóctones? Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
DEMO, Pedro. Introdução à metodologia da ciência. São Paulo: Atlas, 1985.
GUERRA, Paula Bierrenbach de Castro. Psicologia social dos estereótipos. Periódicos Eletrônicos em Psicologia, Itatiba, v. 7, n. 2, p. 239-240, dez.  2002. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext &pid=S1413-82712002000200013&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 14 ago. 2019.
JAPIASSU, H. Alguns instrumentos conceituais. In: JAPIASSU, H. Introdução ao pensamento epistemológico. 6. ed. São Paulo: Francisco Alves, 1991, p. 15-39.
JUSSIM, Lee et al. Stereotype accuracy: one of the largest and most replicable effects in all of social psychology. In: JUSSIM, Lee et al.  Handbook of prejudice, stereotyping, and discrimination. 2. ed. New York, USA: Psychology Press, 2016. p. 31-63. 
PERIC, Mikael; MURRIETA, Rui Sérgio Sereni. A evolução do comportamento cultural humano: apontamentos sobre darwinismo e complexidade. História, Ciências, Saúde, Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 22, supl., dez. 2015, p. 1715-1733.
SAMARI, William; YAMARTINO, Ray; ANVARI, Rafaan. What each country leads the world in. DogHouse Diaries, 2013. Disponível em: <http://thedoghousediaries.com/5414>. Acesso em 29 ago. 2019.
SOWELL, Thomas. Discrimination and disparities. New York, USA: Basic Books, 2019.
STANGOR, Charles. Conceptualizing stereotypes and prejudice. In: STANGOR, Charles. Stereotypes and prejudice: essential readings. Philadelphia, USA: Psychology Press, 2000.

Kant e o sujeito relacionado ao objeto em comparativo aos arquétipos de Jung

Pequeno ensaio produzido pelo aluno de Doutorado Leandro Leite

Cita Kant (2015) na obra “Crítica da razão pura” que por mais que nosso conhecimento comece com a experiência, nem por isso surge ele apenas da experiência. Se existe tal conhecimento independente da experiência, e mesmo de todas as impressões dos sentidos – tais conhecimentos são denominados a priori e se diferenciam dos empíricos, que têm suas fontes a posteriori, na experiência. Citam Padovai&Castagnola (1990) que do empirismo e do racionalismo origina-se o criticismo cujo fundador é Kant, considerado o centro da filosofia moderna. Se para Padovani &Castagnola (1990) é de Kant a chamada revolução copernicana, a respeito disso, explica Kant (2015) sobre os pensamentos de Copérnico que, verificando o pouco avanço na explicação dos movimentos celestes, supondo que a multidão de estrelas giraria em torno do expectador verificou, se não daria mais certo fazer girar o expectador deixando as estrelas em repouso. Assim, Kant (2015) sugere que na metafísica seja tentado algo semelhante: se a intuição tivesse que ser regulada pela constituição dos objetos não haveria como saber algo sobre ela a priori, porém, o objeto regula-se pela constituição da nossa faculdade intuitiva,o que permite representar tal possibilidade. Dessa forma, indo ao encontro das ideias de Kant (2015) o argumento deste ensaio é o de que Kant, não apenas coloca o sujeito no centro em relação ao objeto, mas também, nos indica que o próprio sujeito possui outros elementos mais centrais a ele próprio, por exemplo, os arquétipos provenientes do inconsciente que, de acordo com Jung (2004)se trata de um a priori gigantesco.


Quando Kant (2015) explica o termo a priori puro, se refere aquilo que não necessita de nenhuma experiência sendo livre de empirismos. Por sua vez, Jung (2004) elucubra que o inconsciente não é apenas um a priori gigantesco, mas a fonte dos instintos, na medida em que os arquétipos não são mais as formas em que se manifestam os instintos; contudo, a fonte da vida que é o instinto da vida emana também do todo criativo. Dessa forma, podemos pensar que aquilo que possuímos, que não necessita de nenhuma experiência sendo, portanto, livre de empirismos, pode ser compreendido como o inconsciente, o qual, é a fonte dos instintos que podem ser expressos por meio dos arquétipos que são o instinto da vida. Os arquétipos, tratam-se de dados cognoscitivos que temos armazenados em nosso intelecto, os quais, de acordo com Jung (2004) representam a expressão de toda a existência humana sendo sistemas vivos de reação e de disposição que por meios invisíveis e, portanto, mais eficazes, determinando a vida individual e chegando a se manifestarem no inconsciente coletivo.


As ideias de Jung (2004) tornam-se importantes, pois, aponta Kant (2015) que as coisas tomam o seu lugar à medida em que a crítica nos instrui sobre a nossa inevitável ignorância quanto às coisas em si mesmas, desde que não limitemos tudo aquilo que podemos conhecer de um modo teórico aos próprios fenômenos; assim, a razão especulativa tem de sofrer quanto à posse que imaginava ter, permanecendo os interesses humanos universais e os ganhos que o mundo até aqui extraiu dos ensinamentos; desde que, questionemos as impotentes distinções entre a necessidade prática subjetiva e a objetiva. A respeito de objetividade e subjetividade, explica Jung (2004) que os fatores anímicos complexos tratam-se de uma realidade autônoma, de caráter enigmático que escapa aos caprichos e manipulações devido aos conteúdos da psique subjetiva (consciência), mas não à da psique objetiva (inconsciência), a qual, representa uma condição a priori da consciência e de seus conteúdos. Jung (2004) explica que é do inconsciente que emanam influências determinantes, as quais, independente da tradição conferem semelhança a cada indivíduo singular, bem como, da forma de representa-los sendo uma das provas o paralelismo dos motivos mitológicos, que denominou de arquétipos, devido à sua natureza primordial.Explica Kant (2015) que a necessidade e a universalidade estrita são, assim, indícios seguros de um conhecimento a priori, e pertencem inseparavelmente uma à outra. Já para Jung (2004) é fato que as imagens arquetípicas têm um sentido a priori tão profundo que nunca questionamos o seu sentido real, pois, o homem apenas descobriu que até então jamais havia pensado acerca de suas imagens e quando começa a pensar sobre elas, recorre ao que chama razão. 

Como Kant (2015) sugere que: se a intuição tivesse que ser regulada pela constituição dos objetos não haveria como saber algo sobre ela a priori, porém, o objeto regular-se pela constituição da nossa faculdade intuitiva permite representar tal possibilidade; se nos sugere Freitas et.al.(2017) que a intuição pode ser definida como uma informação interior, natural, algo intangível para o qual não se é treinado, podendo ser definida desde como uma sensação e para outros uma habilidade, nos abre caminho para compreender a dificuldade da enquadramento da sua natureza como sendo consciente ou inconsciente. Com isso, podemos questionar a respeito de que as coisas podem ser pensadas primeiro para serem postas à prova depois. No entanto, como supracitado, Jung (2004) nos afirma que o inconsciente se trata de um a priori gigantesco.

Então, se para Padovai&Castagnola (1990) do empirismo e do racionalismo origina-se o criticismo cujo fundador é Kant, nos leva a crer que o próprio Kant pensou de forma independente das correntes filosóficas da sua época. Por sua vez, Jung (2004) explica que uma psicologia científica, independentemente dos prós e contras da filosofia da época, deve considerar as intuições transcendentais que emanaram do espírito humano em todos os tempos, como projeções, isto é, como conteúdos psíquicos extrapolados num espaço metafísico e hipostasiado. Com isso, compreendemos que as elucubrações intelectivas não passam necessariamente pelas experiências, porém, surgem de uma vontade interior que pode ser objetiva ou subjetiva de compreensão transcendental normalmente geradas pela universalidade dos conceitos, os quais, tratam-se de importantes meios para facilitar o entendimento intelectivo.Percebemos o avanço da ciência quando Kant (2015) sugere colocar o sujeito ao centro e o objeto em volta; enquanto Jung (2004) nos explica que há algo a mais, além do que se via como sujeito, o que descreveu como sendo o inconsciente.


Referências
FREITAS, H. M. R; ANDRIOTTI, F.K; MARTENS, C.D.P; PESCE, G. MARCOLIN, C.B. Visão executiva sobre a tomada de decisão instantânea. Revista Desenvolvimento em Questão. n.39, abr-jun, 2017.
JUNG, Carl Gustav. La dinámica de lo inconsciente. Espanha: Trotta, 2004.
KANT, I. Crítica da razão pura. 4.ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. p.17-68. 
PADOVANI, U. CASTAGNOLA, L. História da Filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1990. 

Introduzindo as humanidades Científicas de Latour por meio das limitações do Neo-Racionalismo Popperiano.


Pequeno ensaio produzido pela aluna de Doutorado Emillie Michels

Considero por mais instigante no estudo da epistemologia a busca pelo entendimento do que se entende por verdade, como se busca a verdade por meio da ciência, bem como os problemas acerca das crenças desse conhecimento, de como ele é produzido. Em como cada etapa, no sentido de evolução do pensamento científico, os posicionamentos se distinguem e se perpetuam, simultaneamente, aspectos para a compreensão da expressão.

Partindo do entendimento de Popper (1979) sobre a ciência, sob a perspectiva neo-racionalista, a tarefa do cientista seria identificar enunciados científicos, para que assim sejam produzidas leis científicas, que devem ser falseadas pelo método dedutivo de teste. Somente assim seria possível conceber uma hipótese a ser testada empiricamente, firme na sua oposição direta ao indutivismo e suas dificuldades insuperáveis.

Para Popper, o mecanismo de compreender a verdade é falsear (princípio da falseabilidade) uma hipótese por meio de um experimento ou observação lógica, para assim caracterizar o que é e o que não é científico ou mesmo ciência. “Pode justificar-se um enunciado? E em caso afirmativo, como? É testável? [...] Para que este enunciado possa ser logicamente examinado desta maneira, [...] alguém deve tê-lo formulado e submetido a um exame lógico.” (POPPER, 1979, p. 6)

O teste de uma teoria poderia ser levado a cabo a partir de uma comparação lógica dos enunciados entre si para verificar a consistência interna do sistema. Após, seria a investigação lógica da teoria, com o objetivo de determinar se ela é uma teoria empírica ou (não-) científica. A comparação entre outras teorias seria imprescindível para estabelecer o avanço científico a partir de vários testes de contradição, para finalmente ser possível o científico por meio de aplicações empíricas. (POPPER, 1979). Seu posicionamento firme sobre a lógica da investigação científica, sobre o que considera ciência, se exprime neste parágrafo:

                    [...] não exijo que  todo enunciado científico deva ser de fato testado antes que seja aceito; exijo somente que todos estes enunciados sejam suscetíveis de ser testados; ou em outras palavras, recuso-me a aceitar a concepção de que existem na ciência enunciados que devemos, resignadamente, aceitar como verdadeiros simplesmente porque não parece possível, por razões lógicas, testá-los (POPPER, 1979, p. 20).

A demarcação científica é necessária para distinguir as ciências empíricas de um lado, a matemática, lógica (e os sistemas metafísicos) de outro, e o que não é ciência. É o que Popper (1979) perpetua desde o marco da ciência moderna como a entendemos hoje. Distingue pondo em cheque o método indutivo (a partir das ideias de Hume,na incapacidade de responder todas as perguntas partindo do particular para o geral) a partir do teste dedutivo dos enunciados científicos para garantir uma ciência empírica.E, assim, também perpetua a divisão das ciências.

O que se nota nas ideias de Popper é a necessária distinção das expressões científico e social. São dois mundos. Um onde se expressa(m) a(s) hipótese(s), noutro um padrão a ser seguido ou repetido. Um enunciado científico de sentido social não determinaria necessariamente que algo acontecesse, mas que existiria essa possibilidade lógica para se acontecer e, assim, se tornar uma teoria científica.
Nesse contexto, quando Popper exclui/expurga/combate o método indutivo em si, ele busca purificar a ciência do mundo social. De um lado, faz uso da base do nascimento da ciência moderna, numa nova roupagem ao “penso, logo existo” sem abstrações impossíveis logicamente, que faz uso da experiência como o método de se fazer ciência além da matemática. Considero, de outro lado, que valoriza o método (dedutivo) empírico para solidificar a importância das ciências não-matemáticas.

Nas palavras de Popper, o mundo real seria o mundo da nossa experiência (POPPER, 1979). A verdade estaria neste mundo científico. Contudo, distancia-se do social como objeto de estudo naturalmente imbricado na sua investigação científica, na própria empiria. Em conclusão ao objetivo principal deste paper, aqui seria possível incluir Latour (1994) na discussão não de uma nova ciência, se jamais fomos modernos, mas de um novo campo de conhecimento. Nem matemático, nem empírico, mas do movimento ou da mobilidade. 

A partir das minhas inferências, para Latour (2016), os enunciados científicos das humanidades
científicas seriam as controvérsias postas, dadas, reconhecidas por todos, entre o mundo social e científico, entre leigos e especialistas. O mundo real para Latour seria o estudo do movimento entre científico e político. As demarcações científicas são fluidas, se deslocam, interagem, estão em constante negociação a partir dos usos e aplicações das descobertas científicas modernas. Estes enunciados não seriam testados para encontrar ou não contradições entre teorias científicas. As controvérsias seriam apresentadas cientificamente para compreensão sistêmica destes dois outros campos científicos.

Então, essas contradições que seriam hipóteses de pesquisa por meio enunciados científicos não se encontram apenas entre as teorias e leis científicas. Para Latour (2016), as controvérsias estão para além das contradições. As controvérsias se dão quando os cientistas não estão do mesmo lado das demarcações científicas, considerando o posicionamento ontológico do cientista. O ato de “atravessar” a demarcação científica para compreender o mundo real estaria na interação social entre humanos e não-humanos, não seria o mesmo mundo real da ciência moderna em Popper (1979).


Referências

LATOUR, B. Cogitamus: seis cartas sobre as humanidades científicas. São Paulo: Editora 34, 2016.
______. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994. 

POPPER, K. A lógica da investigação científica. In: Karl Popper. Coleção os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

Entendendo a música a partir da Fenomenologia

Pequeno ensaio produzido pela aluna de Mestrado Ana Luize Correa 

Med (1996) afirma que música é a arte de combinar os sons simultânea e sucessivamente, com ordem, equilíbrio e proporção dentro do tempo. Apesar do conceito simples, a música é um a das expressões fundamentais da cultura humana e representa muito mais que os sons, podendo ser arte, sentimentos e as vivências que dela são adquiridas.
Schopenhauer considera a música a magma arte perfeita porque, de certa maneira, consegue traduzir
o verdadeiro espírito do homem. Seu caráter universalizante ultrapassa toda a individualidade existente e, dentre todas as artes, não será somente aquela que irá expressar as ideias ou o grau de objetivação da vontade, mas expressa a própria vontade e por isto é a arte mais profunda e universal.(SCHOPENHAUER; 2001).
Partindo para um conceito filosófico, a música é composta de uma série de formas sonoras que não têm outro conteúdo senão elas mesmas. Neste ponto, entrando no terreno da fenomenologia, pode-se dizer que a percepção musical é alimentada pela dinâmica do fato musical, tornando-se necessário “habitar” a música. (Carneiro; 2013)

Para melhor entender esse efeito de “habitar” a música e como ela causa efeitos distintos em cada pessoa, é importante entende-la como um fenômeno. Nachmanowicz (2007) reforça que, conforme os gregos antigos, fenômeno é tudo aquilo que aparece. Ou seja, o fenômeno é uma mera aparição, contraposta à uma realidade mais profunda, que o fenômeno por si não revela, ao mesmo tempo que tal realidade contém os dados verdadeiros.
Já a descrição fenomenológica consiste na demonstração da "estrutura específica do fenômeno", o qual, vedado ao nosso conhecimento como "coisa em si", como uma essência externa, remete obrigatoriamente à estrutura da consciência, formadora do fenômeno enquanto tal. Assim, o fenômeno é seu aparecimento na consciência, sendo impossível averiguar sua aparição fora dela. (Nachmanowicz; 2007)
Para entender o papel do fenômeno na Fenomenologia, a teoria de Husserl explicanoese(“o que vivencia”) e noema(“o que é vivenciado”). Nas duas formas de descrever: a noemática se ocupa do objeto intencional de um determinado pensamento, conforme aparece nele, por exemplo, uma certeza; já a noética, ocupa-se dos atos de cogitação, do próprio vivenciar (noese) e de suas modificações, como, por exemplo, a percepção, a retenção, a lembrança, e seus diferentes níveis de clareza e explicitação. (Schutz; 1979)
A música, desta forma, seria uma forma de noética e sua vivência (noese) reflete tanto em percepção, retenção e lembrança nos indivíduos que a vivenciam, de diferentes formas e intensidades, dependendo de cada um.
Foi exatamente por causa do tema “percepção” que a fenomenologia emergiu no contexto musical. As artes que têm como fundamento a percepçãosensívelsão portadoras de uma forma especial que escapa do mundo expressivo. Assim,a fenomenologia ganhou espaço no estudo da música mesmo não sendo uma filosofia da percepção, mas sim do fenômeno e da relação entre fenômeno e consciência.No entanto,por serdesta relação que surgiu o tema da captação intuitiva de um fenômenoenquanto um processo peculiar da consciência,que este tipo de análise ganhou espaço na arte. (Nachmanowicz; 2007)
O método descritivo de Husserl coloca em voga aconsciência de nossa própriapercepção, assim a descriçãofenomenológicapõe os indivíduos em contato analítico com suaspróprias vivencias. A descrição fenomenológica de uma orquestra tocando em um concerto seria uma meta-percepção deste concerto, aquilo que parecia uma percepção já dada do ato de escutar revela relações que não se conscientizaram durante a escuta, assim a descrição se torna um guia da própria percepção, e por negação, um guia de como não se percebe. As relações da apreciação musical constituem o significado da música para cada um, e este se define a partir da vivência/percepção destas relações.(Nachmanowicz; 2007)
Assim, a compreensão da música existe independente do seu acontecimento, isto é, da sua situação pragmática, onde igualmente se verifica um jogo de diferença e repetição que atualiza seu sentido sempre e emerge da situação e do modo que a música é experienciada e vivida. (Carneiro, 2013) E por isso, seu efeito é tão diverso em cada pessoa.




Referências:

CARNEIRO, Pedro. Por uma fenomenologia da percepção musical. Simpósio de Estética e Filosofia da Música. SEFIM/UFRGS. V. 1, n.1. Porto Alegre: 2013.
MED, Bohumil. Teoria da Música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.
NACHMANOWICZ, Ricardo M. Fundamentos para uma análise musical Fenomenológica. Dissertação de mestrado. Escola de música da UFMG. Belo Horizonte: 2007.
SCHOPENHAUER,Arthur.Metafisica do Belo.Tradução Jair Barbosa.São Paulo:Editora Unesp,2001.
SCHUTZ, Alfred. Fundamentos da Fenomenologia. In: WAGNER, H. R. Fenomenologia e Relações Sociais. Textos Escolhidos e Alfred Schutz. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

Informe: Publicações do 1º semestre de 2019

Olá amig@s !

Como vocês já sabem o blog Kritiké: Crítica e Reflexividade  - é um blog que acompanha o desenvolvimento da disciplina Epistemologia da Ciência em Administração dos cursos de Mestrado e Doutorado do Centro de Ciências da Administração e Socioecônomicas (ESAG) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).

Esta disciplina ocorre todos os anos no segundo semestre. Por esse motivo as publicações neste primeiro semestre ocorrerão quinzenalmente. Paralelamente estaremos postando os "comitês de aula" da turma de 2018. 

O comitê é um trabalho em grupo desenvolvido em cada aula temática. É um momento dinâmico em que o aluno pode adotar diversas ferramentas metodológicas para envolver a participação de todos os alunos. Este momento é auxiliado pela professora e pelo estagiário e, por fim, busca-se uma maior participação e aprendizagem coletiva sobre os textos da semana.

Assim, eventualmente, faremos as postagens de cada comitê que foi desenvolvido pelo grupo para que pudéssemos trabalhar da melhor forma os temas da nossa disciplina. Esperamos que todos gostem e compartilhem esses resultados, pois, no ano corrente, resultou em grandes debates e momentos reflexivos para toda a turma.

Abraços e Feliz 2019!


Felicidade, empatia e egoísmo social: reflexões sobre a conduta moral do utilitarismo.

Pequeno ensaio produzido pela aluna de Mestrado Elize Jacinto


No pensamento utilitário, a definição de moralidade derivará necessariamente da articulação entre sensibilidade e racionalidade. A agregação mais imediata é com o modelo hobbesiano, onde dor e prazer são características determinantes da cognição. A concepção de Bentham estabelece que a natureza colocou a humanidade sob dominio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer. Somente a estes cabe indicar o que devemos fazer, e igualmente determinar o que de fato faremos (BENTHAM, 1979).

Seguindo esse viés, Mill acrescenta que o fundamento moral da Utilidade - também descrito como grande princípio da Felicidade - sustenta que as ações estão corretas na proporção em que tendem a promover a felicidade, e da mesma forma, erradas à partir do momento em que tendem a produzir o oposto da felicidade, pois “através da felicidade pretende-se o prazer e a ausência de dor; por infelicidade, dor e privação do prazer” (MILL, 2007). Mill acrescenta, portanto, que para se ter noção do padrão moral estabelecido pela teoria, é preciso se aprofundar nas concepções de dor e prazer, e até onde estas são “questões abertas”.

Mill enfatiza que os prazeres de um animal não satisfazem as concepções de felicidade de um ser humano. Uma vez que os humanos possuem faculdades mais elevadas do que o apetite dos animais, ressaltando ainda a existência da superioridade dos prazeres mentais sobre os prazeres físicos, uma vez que os primeiros tem maior permanência, segurança e menor custo (MILL, 2007). É admissível afirmar que no utilitarismo existem diferentes tipos de prazeres que sejam mais valiosos e desejáveis que os outros: “de dois prazeres, se houver um que todos experimentaram de ambos e dão uma preferência clara, independentemente de qualquer sentimento de obrigação moral para preferi-lo, este será o prazer mais desejável” (MILL,2007).


Mill continua porém, numa dimensão mais profunda do senso de felicidade e busca pelo prazer quando assente que um ser de faculdades superiores requer mais para ser feliz, sendo esse mesmo capaz do mais intenso sofrimento, recusando-se a afundar naquilo que acredita ser um nível inferior de sua existência. Nesse momento, acredito que Mill esteja se referindo à uma felicidade como fim, não embasada na busca superficial e momentânea de uma felicidade que se resume no puro prazer. Esse ser de faculdades superiores é capaz de suportar uma dor - mesmo que pareça contraditório - para alcançar um fim maior que permite uma felicidade perene, o alcance da plenitude pessoal. A designação mais apropriada desse ser é o senso de dignidade.

Homens com fraqueza de caráter, diz Mill, geralmente escolhem o bem mais próximo, mesmo sabendo que este é menos valioso. Acrescenta o autor que: 

“a capacidade para sentimentos mais nobre, é na maioria das naturezas, uma planta muito frágil que facilmente morre não apenas pelas influências hostis, mas definha pela mera falta de alimento; e na maioria dos jovens ela rapidamente definha se as ocupações a que suas posições na vida devotaram e a sociedade na qual ela os lançou não forem favoráveis para manter em exercício essa capacidade superior. 

O propósito da teoria utilitarista não é o fim da felicidade do próprio agente mas a quantidade maior da felicidade conjunta, porém, o indivíduo de caráter nobre, é capaz de abdicar de sua felicidade própria em virtude da felicidade conjunta, onde ele é capaz de fazer outras pessoas felizes. “O mundo em geral ganha imensamente com ele” (MILL, 2007). O filósofo então acresce que o egoísmo é a principal causa que torna a vida insatisfatória, seguido da falta de desenvolvimento intelectual. O autor ataca o  egoísmo e atribui a ele pessoas que estão preocupadas apenas com sua “individualidade
miserável”. 

O autor reflete escrevendo que:

“em um mundo onde há tanto pelo que se interessar, tanto para apreciar, e tanto também para corrigir e melhorar, todos que tem esta quantidade moderada de requisitos morais e intelectuais serão capazes, por assim dizer, de ter uma vida invejável; e, a menos que a tal pessoa, através de más leis ou sujeição à vontade de outros, seja negada a liberdade de usar as fontes de felicidade ao seu alcance, ela não fracassará em encontrar essa existência invejável se sobreviver aos males inegáveis da vida, as grandes fontes de sofrimento físico e mental” (MILL, 2007).

Mais adiante Mill afirma ser a virtude melhor que a felicidade, assertando que existe honra naquele que renuncia ao próprio prazer em razão de aumentar a quantidade da felicidade no mundo. “A moralidade utilitarista reconhece nos seres humanos o poder de sacrificar seu bem maior pelo bem de outros”.

Nesse momento da leitura, foi necessário uma pausa para uma ponderação que à muito vem me inquietando. Chamo essa atitude citada no parágrafo acima de altruísmo, indo mais além, de empatia. Altruísmo porque somente o ser humano que se preocupa com o outro e apresenta um amor desinteressando é capaz de sacrificar-se em virtude do outro. Empatia porque esta é a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações. A empatia pode ser brevemente resumida como “faça para os outros o que gostaria que fizessem para você”. Isso supõe que seus próprios interesses coincidem com os interesses do outro (KRNARIC, 2015).

Considero empatia uma característica extremamente necessária nos dias de hoje, onde o individualismo e egoísmo são tidos quase que como necessários, eu prefiro analisar as situações de uma outra perspectiva: me colocando no lugar das pessoas que por elas são envolvidas . Esse exercício diário faz com que minha inquietação ante os problemas que me cercam quase me sufoquem, porém, me fazem mais humana de forma que - mesmo que dolorosamente - me coloque no lugar no outro à fim entendê-lo e indo mais além, objetivando ações que ocasionem a mudança positiva.

Infelizmente, a taxa de suicídio entre jovens no Brasil aumentou 10% desde o ano de 2002 na faixa etária dos 15 aos 29 anos (BBC NEWS, 2017) . Não existe uma única razão para isso, contudo o aumento da depressão entre os mais jovens, o transtorno de ansiedade - onde, de acordo com o a Organização Mundial de Saúde, o Brasil lidera o ranking mundial - são apenas alguns sintomas que refletem uma sociedade doente.

Segundo o Ministério da Saúde (2018), no mundo, mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida por ano. No Brasil, 11 mil delas cometem suicídio, sendo a terceira maior causa de morte entre homens de 15 a 29 anos de idade, a quarta maior causa de morte entre os 15 e 29 anos e oitava maior causa de morte entre mulheres dos 15 aos 29 anos (SISTEMA DE INFORMAÇÕES SOBRE MORTALIDADE, 2017). É difícil ainda compreender o que leva jovens e até mesmo crianças a tentar cometer suicídio; o que existe são hipóteses: sentimento de abandono, experiência de abusos físicos ou sexuais, a desorganização familiar, desajustamento na escola ou em casa e a desesperança em relação ao futuro. O bullying também aparece como um motivador e incorre o risco de tirar a própria vida (ZERO HORA, 2016). 


Tais dados poderiam ser ainda mais profundamente analisados, mas esse é apenas um sinal da fragilidade social que estamos vivenciando. Temos pessoas cada vez mais fragilizadas, temos uma sociedade individualista, concentrada em suprimir suas próprias expectativas. Temos pessoas sofrendo, e em consequência da derivação do egoísmo social, temos pessoas focadas na própria felicidade, incapazes de pensar que também é feliz quem pensa no outro, e sobretudo se coloca no lugar dele.

O utilitarismo talvez seja viável para a formulação de políticas públicas; como conduta moral para a nossa sociedade, fragilizada pelo individualismo, é necessário primeiro pensar em valores e virtudes num nível pessoal, pois somente quando cada indivíduo for capaz de amar o outro como a si mesmo é que o utilitarismo moral começará a ser útil a fim de alinhar interesses e perspectivas tão diversas, que hoje, infelizmente, não tem encontrado um ponto em comum.

Referências
BBC NEWS. Crescimento Constante: taxa de suicídio entre jovens sobe 10% desde 2002. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-39672513>. Acesso 01/10/2018
BENTHAM, J. Uma Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação. In: Jeremy Bentham. Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979.
MILL, S. O que é o utilitarismo? In: MILL, S. Utilitarismo. São Paulo: Escala, 2007.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Setembro Amarelo: Ministério da Saúde lança agenda estratégica de prevenção do suicídio. Disponível em:<http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/setembro/21/Coletiva-suicidio-21-
09.pdf>. Acesso 01/10/2018.
KRZNARIC, R. O poder da empatia: a arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo/Roman Krznaric; tradução Maria Luiza X. de A. Borges. – 1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
ZERO HORA. Suicídio na Infância e na Adolescência: é preciso romper o silêncio. Disponível em: <https://zerohora.atavist.com/suicidioemtenraidade>. Acesso em 01/10/2018.