A
eleição presidencial que vivemos no último ano fez emergir um tema que hoje,
quase 1 ano após o seu fim, ainda continua em alta e sendo bastante utilizado:
as fake news (notícias falsas). Durante a eleição, inúmeros foram os casos de
uso das fake news – pela grande maioria dos candidatos ou por seus apoiadores
–, para defender o candidato de sua preferência e/ou criticar os seus
adversários. A prática virou quase uma marca da eleição de 2018 e ainda hoje se
perpetua, atingindo, também, outras áreas, como saúde, meio ambiente, ciência,
etc.
Demo
(1985) define ciência através da exclusão, isto é, aquilo que não é ciência,
colocando-a num contínuo entre senso comum e ideologia. Traz, ainda, os
critérios de distinção entre eles: entre a ciência e o senso comum “seria o
conhecimento acrítico, imediatista, que acredita na superficialidade das
coisas” (DEMO, 1985, p. 14) e entre ciência e ideologia “será o caráter
justificador” deste último, ou seja, o fato de buscarem, muitas vezes na
ciência, uma justificativa para defenderem a sua visão. Além disso, ele coloca
que a ideologia “inclui sempre a deturpação dos fatos em favor da posição a ser
defendida, e chega mesmo à falsificação, quando atinge o nível da própria
mentira” (DEMO, 1985, p. 14-15). Esta última afirmação nos remete muito à
questão das fake news e de como, na maioria das vezes, elas são utilizadas em
favor de uma ideologia, como pôde ser visto nas últimas eleições em ambos os
lados.
Também
vale apontar a relação entre fake news e senso comum: ao acreditar em uma
notícia veiculada na mídia sem uma visão crítica, vemos o acontecimento apenas
de maneira superficial, tomando isso como verdade absoluta, sem comprovar a
fonte da informação e se existem provas que a confirmem.
Ao
realizar a leitura do texto de Francis Bacon (1979, p. 65), Novo Organum, no
trecho onde destaca que “os doutos, homens indolentes e crédulos, acolheram
para estabelecer ou confirmar a sua filosofia certos rumores, quase mesmo
sussurros ou brisas de experiência, a que, apesar de tudo, atribuíram valor de
legítimo testemunho” e comparar a afirmação com a realidade atual do país, é
inevitável não relacioná-la à grande disseminação das fake news, em que o
indivíduo se utiliza de argumentos e notícias que comprovam a sua teoria/sua
opinião, sem se preocupar com a veracidade dos fatos e de, até mesmo, quando
possível, comprovar por si mesmo a realidade.
Veja (2018) |
Alguns
exemplos das fake news mais difundidas, mapeadas pelo Ministério da Saúde
(2018), são: água de coco cura o câncer, bananas contaminadas com vírus HIV,
exame de mamografia causa câncer de tireoide, vacina contra sarampo causa
autismo, dentre outras (CONASEMS, 2019). Podemos pensar: como alguém poderia
acreditar em qualquer uma dessas notícias? Será que não percebem o quão
absurdas elas são? Aqui se faz importante considerar dois pontos: o primeiro é
que uma parcela da população não tem acesso à informação de qualidade e/ou não
tem acesso à educação, estudo e incentivo ao pensamento crítico, o que aumenta
a possibilidade de essas pessoas estarem expostas a acreditarem nessas fake
news e a disseminá-las. O segundo é que, devido ao fato exposto anteriormente,
as pessoas podem considerar a ciência como uma área distante da sua realidade,
uma espécie de “bolha inalcançável” onde apenas os “cientistas oficiais” fazem
ciência, afastando esta e a produção científica cada vez mais da população em
geral.
Esses
dois pontos se ligam à obra la opinión pública y sus problemas, de John Dewey
(2004). Ao considerar que o conhecimento tem papel fundamental para a
associação e a comunicação, o autor também diz que, no entanto, este tem
circulado de maneira lenta e desigual na sociedade, apontando alguns dos
motivos para tanto. Entre eles, aponta o fato de que “a ciência nasceu em meio
ao estabelecimento dos especialistas que concentram o saber para si, através de
instrumentos e linguagem própria” (DEWEY, 2004, apud DIAS, 2010, p. 110).
Assim,
o conhecimento não seria obrigatoriamente produzido para a população em geral,
que teria acesso a apenas alguns âmbitos desse saber, mas não todos, ficando
parte dele, restrito aos especialistas. O autor defende, dessa maneira, a
importância da socialização do conhecimento, especialmente aquele que pode
influenciar a opinião e a ação pública, que não devem ser pautadas em
“impressões vagas, em concepções do senso comum, em emoções fáceis” (DEWEY,
2004, apud DIAS, 2010, p. 110). Isto posto, o conhecimento deveria capacitar a
sociedade para debater, questionar e ter um olhar crítico sobre os problemas
sociais, e não ficar confinado e ser dominado pelos peritos da ciência, pois a
democracia só se consolidará de verdade quanto os indivíduos tiverem domínio
sobre a sua opinião, que depende da comunicação e da circulação do conhecimento
(DIAS, 2010).
Referências:
BACON,
Francis. Novum organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da
natureza; Nova Atlântida. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
CONSELHO
NACIONAL DE SECRETARIAS MUNICIPAIS DE SAÚDE (CONASEMS). Fake news agravam
surtos de doenças no país. 2019. Disponível em:
<https://www.conasems.org.br/fake-news-agravam-surtos-de-doencas-no-pais/>.
Acesso em: 17 ago. 2019.
DEMO,
Pedro. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas,
1985.
DIAS,
Vanessa Tavares. Resenha de la opinión publica y sus problemas, de John Dewey. Revista
Estudos Políticos, Niterói, n. 1, 2010/02, p. 105-111. Disponível em: <http://revistaestudospoliticos.com/wp-content/uploads/2010/12/1p105-111.pdf>.
Acesso em: 17 ago. 2019.
MINISTÉRIO
DA SAÚDE. Fake news. 2018. Disponível em: <www.saude.gov.br/fakenews>.
Acesso em: ago. 2019.
VEJA. [Imagem de
marionete.] In: VEJA. Fakenews: o golpe das notícias falsas. Revista Veja,
São Paulo, ano 52, n. 3, ed. 2565, jan. 2018, capa. Disponível em:
https://veja.abril.com.br/edicoes-veja/2565/. Acesso em: 02/9/2019.
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