Da modernidade à pós-modernidade: o surgimento de um novo paradigma

Pequeno ensaio produzido pelo aluno de Mestrado Acadêmico Eduardo Henrique de Borba

No trabalho “Conhecimento Prudente para uma Vida Decente”, o autor Sousa Santos (2004), e Nunes (2004), demonstram preocupação com a acomodação da ciência em torno de um “paradigma dominante”, no que diz respeito às ambiguidades, complexidades e dúvidas que pairam no tempo presente. No intuito de resolver essa questão, os autores propõem um novo pensar científico, através de uma ordem social inovadora, em que a interação, incerteza e insegurança são as principais características. 
Essa nova ciência exige um novo paradigma, uma vez que suas pretensões não são mais atendidas pelos métodos conservadores e rigorosos da ciência moderna. O modelo proposto por Sousa Santos deve ser científico e social, uma vez que, na pós-modernidade, os conhecimentos científicos e não científicos estão em permanente contato, a fim de tornar a sociedade menos desigual e mais democrática.
Este paper tem como objetivo expor comentários e argumentos sobre o tema situado nos conflitos da Ciência, com enfoque no resgate histórico do modelo dominante na modernidade, passando pela sua crise, até chegar ao período de transição, quando surge o chamado “paradigma emergente”. Ao final deste ensaio serão levantados alguns questionamentos sobre a necessidade da adoção desse novo paradigma, visto que, em concordância com o exposto pelos autores, a pós-modernidade trará, de fato, ganhos à Ciência. Uma vez que, a utilização de metodologias inovadoras e classificações epistemológicas apropriadas para cada natureza de problema são essenciais, não sendo coerente focar em uma rigidez e formatação única como antes imposto na ciência moderna.

A ciência moderna pressupõe um mundo sem mudanças, em que prevalece a segurança, a ordem e a previsibilidade em todos os sentidos da vida. Ambos autores, Sousa Santos (2004) e Nunes (2004), identificam e nomeiam esse momento da ciência como “paradigma dominante”. Neste momento a ciência estaria se fundamentando e criando bases em si mesma sem levar em consideração as outras formas de conhecimento, restringindo-se às suas próprias metodologias e princípios, forçando a aplicação de seus métodos na busca de uma verdade universal que só a ciência moderna poderia conferir. Contudo, há diversos sinais de que o paradigma dominante atravessava uma crise que, além de profunda, era irreversível. Para Sousa Santos (2004), tal crise é resultado de uma pluralidade dos temas sociais e teóricos. O autor faz referência a revolução científica iniciada com Einstein e sua teoria da relatividade, vale salientar que Einstein relativizou as leis de Newton, consideradas até então como intocáveis no domínio da astrofísica.

Além disso, cita as investigações de Godel, com o teorema da incompletude e os teoremas sobre a impossibilidade, os quais contribuíram para a crise do modelo científico dominante, fazendo repensar os rigores da matemática e sua capacidade de medição dos  Analisando a ciência do passado, fica claro que ao mesmo tempo em que ela parece ser distante e até mesmo pré-histórica, é também a base do campo teórico da ciência atual. E do mesmo modo, ao olharmos para o futuro, é possível ver situações contraditórias convivendo; ao mesmo tempo em que enxergamos a sociedade da informação e do conhecimento, onde a tecnologia é o centro de tudo, nos deparamos com uma ciência sem limites, que cria guerras nucleares e catástrofes ambientais. Nesse contexto, Sousa Santos (2004) critica o paradigma dominante e resiste as desigualdades científicas, como a distinção entre ciências naturais e ciências sociais. Assim, em busca de uma popularização do conhecimento científico, o autor afirma ser necessário um novo paradigma, o qual nomeia “paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente”, adequado para avaliar as mais variadas experiências humanas e ampliar o acesso ao conhecimento. Não sendo pretendido negar toda a estrutura construída até a ciência moderna, mas sim fazer uma abertura de conversa entre diferentes modos de conhecimento, contextualizando cada um para que não haja sobreposições entre os mesmos.

Para justificar o paradigma emergente proposto, Nunes (2004) apresenta um conjunto de teses, onde garante que não há mais sentido o entendimento que faz distinções entre ciências naturais e ciências sociais, ainda mais que os avanços recentes da física e da biologia rebatem tal dualismo. Também não se pode mais tolerar a distinção entre sujeito e objeto feita pela ciência moderna, uma vez que o conhecimento advém de uma composição interdisciplinar que caracteriza o novo paradigma. Desse modo, é possível afirmar que todo o ato de conhecer o objeto é autoconhecimento, isto é, forma de o
cientista conhecer. Além disso, o autor afirma que o conhecimento no modelo emergente não segue um único método científico, mas utiliza de uma pluralidade metodológica, antes vista como uma transgressão. Do mesmo modo, o paradigma emergente também entende que nenhum conhecimento é desprezível, e estimula a interação. Portanto, não despreza o senso comum, pois entende que apesar de sozinho sua interação com o conhecimento científico é extremamente enriquecedora, criando uma nova racionalidade. 
Na obra aqui analisada, o autor faz reflexões acerca das mudanças que estão ocorrendo nas ciências, a crise da ciência moderna e a emergência de um novo paradigma, que acompanha a ciência pós-moderna. Tais modificações estão inseridas em um contexto de mudanças sociais, uma vez que não há como modificar a sociedade sem refletir nas ciências. O paradigma emergente pensado por Sousa Santos (2004), e confirmado por Nunes (2004), é uma alteração no curso moderno da ciência. A pós-modernidade chega para se instalar definitivamente, mas a modernidade ainda não deixa de estar presente. Suas verdades e princípios ainda permeiam grande parte das práticas institucionais e sociais, de modo que a simples superação imediata da modernidade é ilusão. Nenhum processo histórico instaura uma nova ordem, ou uma nova fonte de inspiração de valores sociais do dia para a noite, ensinar ainda a Física sob as leis de Newton ou o Direito como somente aquilo que está legislado, demonstra o quão difícil é desapegar das certezas e seguranças do passado, as quais são bem mais cômodas, mas que não devem ser vistas como inflexíveis, e sim passiveis de reconstrução.

A nova realidade social e científica em que vivemos nos força a repensar, a aprender e a ensinar a ciência a partir do novo paradigma. Deste modo, é necessário deixarmos para trás a visão de que somente é correto o que está devidamente imposto nas leis modernas; não se pode querer que na atual conjectura mundial, onde a transformação é permanente, os cidadãos vejam seus ensinamentos engessadas em códigos e em milhares de leis imutáveis, as quais, em sua maioria, podem ser refutadas. Na atual era da incerteza e da insegurança, a inquietude é a maior virtude, a mola propulsora de novas descobertas. A realidade contemporânea busca experiências nas diversas formas de culturas, pensamentos e razões, e esses fatores contribuem para um saber multifacetado e aplicado para as mais diversas situações. 
Portanto, ou enfrentamos as imposições sociais ditadas pelos parlamentos e instituições, para acolher o que for proveitoso na reconstrução fundamentada de um futuro melhor para a humanidade; ou prosseguimos cegos, seguindo imposições rígidas e contestáveis, para que as gerações futuras decidam o que fazer com o que restar desses preceitos e do mundo que conseguem conhecer.


Referências
NUNES, J. A. Um discurso sobre as ciências 16 anos depois. In: SOUSA SANTOS, B. Conhecimento Prudente para uma Vida Decente. São Paulo: Cortez, 2004, p. 59-62.
SOUSA SANTOS, B. Introdução In: SOUSA SANTOS, B. Conhecimento Prudente para uma Vida Decente. São Paulo: Cortez, 2004, p. 17-27.

A crise da ciência e a hipótese da quarta ferida narcísica da humanidade

Pequeno ensaio produzido pelo aluno de Mestrado Lilian Cristina Schulze

     Pensar que a ciência hegemônica jamais existira pode parecer, de certa forma, até óbvio. Entretanto, que seja possível tantas ciências quantos são os cientistas, ainda nos deixa perplexos ou incrédulos. Ou acreditar que ao menos não haja apenas dois polos científicos, antagônicos e conflitantes, cenário da guerra das ciências (Santos, 1988) já é motivo de desconforto. Mas este mundo bipolarizado, queria eu crer, é coisa do passado. Já não podemos voltar atrás como num pensamento “moderno”, segundo Latour (1994) onde há a “flecha irreversível do tempo”, porém o autor questiona mesmo: “e se sequer estivéssemos nesse passado”? Se a flecha não teria chegado, que dirá passado pela modernidade. 
     Falando em tempo, não é de hoje que a comunidade científica e, assim a sociedade, se depara com angústias epistemológicas e necessárias desconstruções de verdades até então inquestionáveis. As feridas narcísicas referem-se ao que Freud em um texto de 1917 (FREUD, 2006) cunhou como duros golpes ao narcisismo da humanidade, configurando-se em dolorosos questionamentos a nossa própria constituição humana: a primeira ferida exposta contesta um lugar privilegiado e autocentrado do homem no universo: a teoria heliocêntrica, cujos algozes seriam identificados por Copérnico e Galileu, expondo a participação ínfima do homem num universo imensurável. Já não ser “o centro do universo” fez dos homens daquela época, incrédulos e desconcertados, sentirem uma dor profunda e a se recolherem em sua própria insignificância, a primeira delas segundo Freud. A segunda ferida refere-se à vergonhosa constatação de nossa herança genética mais ligada a macacos que a deuses. Darwin com a teoria evolucionista nos expõe a uma ascendência animal, primitiva e um verdadeiro golpe ao nosso amor-próprio e à crença de superioridade da espécie humana. Já na terceira ferida o próprio Freud foi o revelador antipático, com a teoria psicanalista, que de uma forma nada simplista afirma que não somos tão donos assim de nosso destino e de nossas escolhas como acreditávamos e que, por meio de grande parte de material inconsciente e inacessível, somos escravos de desejos e pulsões mais obscuros, necessitando de autoconhecimento pra acessar apenas partes deste verdadeiro e inatingível “eu”. Freud põe por terra a teoria do livre arbítrio. Todas estas feridas provenientes dos “achados científicos” e do progresso da ciência.   Como no mito de Narciso, a cada constatação de ser apenas a miragem de uma suposta perfeição humana, nos afogamos. 

Narciso, pintura em óleo de Caravaggio. Cerca de 1597-1599.
     E a humanidade continua a ser assombrada. São vários os golpes à autoestima e euforia humanas, mas identifico na leitura dos textos de Latour (1994) e de Boaventura Souza Santos (1988) o que poderia ser um claro e quarto episódio de ferimento narcísico: a guerra das ciências e a constatação de que o mundo (ao menos o científico) já não pode ser considerado bipolar e, portanto, “moderno”. Em buscas na web a fim de creditar outros autores e a pesquisar se mais alguém havia já, de forma não inédita como tive a ousadia em pensar em ser original, propôs quartas ou quintas feridas narcísicas com base no texto de Freud. Eis que Carvalho e Sousa (2012) associam a quarta ferida à crise da ciência apontada por Santos (1988). Identifico, ainda, a crítica à bipolaridade das ciências sociais e as ciências naturais como que em polos opostos e a crença ingênua da ciência que, por muito tempo e considerando-se numa época “moderna”, seria possível dividir um mundo de possibilidades complexas em apenas duas ciências-matrizes. Realmente é de se espantar que se tenha acredito por tanto tempo em algo tão improvável. 
     O recalque dos modernos, citado por Latour (1994, p.68) está aqui escancarado para trazer à tona o sofrimento humano a partir de uma falha de mecanismos de defesa frágeis. De um lado Santos (1988) apontando a ruptura e fragmentação epistemológica e de outro Latour com o próprio questionamento desta ruptura e, assim, do conceito de modernidade, inaugurando o paradigma da pós-modernidade. Se de um lado não é mais possível pensar em polos de conhecimento únicos, causando a abertura de uma ferida narcísica baseada mais uma vez na prepotência humana e, especificamente científica, de que não “deveríamos” dividir o conhecimento, resta um alento: ao ler Latour penso que a humanidade tem a oportunidade de resignificar a clássica e importuna necessidade de dividir, classificar e dissecar em partes minúsculas os objetos-sujeitos de seus estudos. Porque não integrá-los, mediá-los em uma escala? Narcíso toleraria abrir mão do controle absoluto? Pois enquanto não tolerar, viverá ferido, talvez até as feridas virem escaras profundas


Referências
CARVALHO, C.A. SOUSA, M.T. A quarta ferida narcísica: a crise da ciência moderna e suas implicações para as pesquisas em comunicação. Revista Comunicação Midiática, v.7, n.3, p.109-128, set./dez. 2012 110. Disponível em: https://dadospdf.com/download/a-quarta-ferida-narcisica-a-crise-da-ciencia-moderna-e-suas-implicaoes-para-as-pesquisas-em-comunicaao-_5a4c1ac5b7d7bcab67045759_pdf 
Acessado em 04/09/2018. 
FREUD, S. Uma dificuldade no caminho da psicanálise. In: Uma neurose infantil e outros trabalhos (1917-1918). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LATOUR, B. Jamais  fomos  modernos.  Rio  de  Janeiro:  Editora  34,  1994.
SANTOS, B. S. Um Discurso sobre as Ciências.  Coimbra: Edições Afrontamento, 1988.

Atividade das Doulas: Uma alternativa à “única ciência possível”

Pequeno ensaio produzido pelo aluno de Mestrado Acadêmico João Vitor Libório da Silva

     A ciência moderna marcou uma cisão entre o que é tido como ciência e diversas questões como a religião, discussão moral, valores; sempre se pondo acima destes, numa perspectiva de “único caminho possível” para designar o que é real, sob a perspectiva do cientista.
Em contraponto, numa busca pela auto reflexividade do papel da ciência e do cientista, a crise da ciência moderna questiona o paradigma de que esta é o único vetor possível de explicação da verdade (única ciência possível). Semelhante a essa reflexão, acerca de uma única maneira de definir o conhecimento, põe-se em discussão a consideração do papel das doulas no período de trabalho de parto, parto e pós-parto imediato das mulheres, como uma alternativa mais humanizada. Dessa forma, meu argumento neste short paper será: “Análise da importância das doulas à luz dos questionamentos acerca da ciência moderna.” 

   A etimologia da palavra “Doula” tem origem no grego “mulher que serve” e é considerada como a mulher que dá suporte físico e emocional à parturiente. Antigamente quem exercia essa tarefa de acompanhar a mulher no trabalho de parto eram as mulheres mais experientes da família, quase sempre as mães e avós. Com o passar do tempo, essa tarefa passou a ser exclusivamente da medicina 
obstetrícia, muito fruto da cultura moderna que assimila diretamente o papel do parto à figura do médico. O fato é que esse processo envolvendo a medicina, representa uma forma mecanicista e desumanizada de tratar o parto em contraponto ao ato fisiológico e natural, como deveria ser tratado. Desse modo, vê-se a participação da doula como uma maneira de intermediar a relação da parturiente com os profissionais da medicina, reduzindo as taxas de cesárea, duração do parto e pedidos de anestesia.  
     Ao questionar a própria concepção de conhecimento, em “Um Discurso” (1987), Sousa Santos põe em xeque as formas de produção de conhecimento científico. Com isso, o autor assinala para a existência de modos de produção de conhecimento que não estão necessariamente no mainstream da produção da ciência moderna. Esses questionamentos surgiram dos próprios cientistas que 
assumiram uma figura filosófica no sentido de questionarem acerca da produção de ciência. Sendo assim, sob esta perspectiva, há conhecimentos tácitos – chamados por Demo (1985) de “senso-comum” e de “vulgar” por Sousa Santos (1988) - que devem ser considerados. Estes não são formalizados, institucionalizados e tampouco são considerados “ciência” pela ciência moderna, mas que, no caso das doulas, com toda certeza geram um impacto e efeitos na vida da parturiente. Em 
outras palavras, a doula possui conhecimentos e habilidades concernentes à atividade do parto que trazem bem-estar e conforto para mãe. À luz dessa visão, são consideradas as “formas situadas de produção de conhecimento”, retratadas por João Arriscado Nunes (2004) como produto das interações de entidades heterogêneas.  
     Fica clara a visão mais alargada de co-construção do conhecimento, baseada no “como” e “para quê”, e não mais na taxação do que é a “boa” ou “má” ciência. Esta visão cria um cenário de flexibilização da relação entre “sujeito e objeto”, ou seja, enquanto a ciência moderna tinha como efeito a separação desses, o paradigma “emergente” propõe que o objeto exerce uma influência a depender do contexto em que este é retratado. Segundo Latour (1998), os paradigmas que se chocam caracterizam a “Guerra das Ciências”, na qual se questiona o fato dos cientistas reduzirem a diversidade cultural e arbitrarem quanto às múltiplas formas de conhecimento.  
     Nesse sentido, a figura da doula não seria uma substituição à “única ciência possível” (aqui retratada pela figura da medicina), mas sim como mais um ator concebível dentre as entidades heterogêneas nas “ecologias de práticas”. Estas são constructos que contemplam critérios, objetivos e valores situados no contexto em que o conhecimento está presente. Por conseguinte, os saberes pertencentes às doulas seriam considerados uma forma situada de analisar, observar e avaliar esse mesmo saber, com vistas a fugir de padrões globais e estanques de produção de conhecimento. Em consonância a essa premissa de não-substituição da figura do médico, Sousa Santos (2004) assinala para o cuidado de não se jogar fora as contribuições trazidas até o momento da ciência moderna. O que se propõe é um diálogo entre os diversos modos de conhecimentos, levando em consideração o contexto dos saberes.  
    Apesar de, segundo Sousa Santos (2004), esse questionamento de paradigma estar em descontinuidade, esse movimento indubitavelmente assinalou questões importantes acerca do que é considerado conhecimento. Aliado a isso, algumas questões são apontadas, como: “o quanto o maintream (em relação à produção de conhecimento científico) impacta na vida dos atores ordinários, na sua relação com o mundo, e na busca pelas explicações das coisas?”; “teriam os atores recursos 
suficientes para questionarem sobre o mundo que os cerca?”; “o reconhecimento da multiplicidade de conhecimento traria avanços para a ciência como é tida atualmente?”.


Referências

DOULAS DO BRASIL. O que é “Doula”. Disponível em: <https://www.doulas.com.br/oque.php>. Acesso em: 18 ago. 2018. 
LATOUR, Bruno. Questionamento de verdades universais põe em xeque o saber tradicional: A guerra das ciências. Folha de São Paulo. São Paulo, nov. 1998. Tradução de: José Marcos Macedo. 
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs15119803.htm>. Acesso em: 18 ago. 2018. 
NUNES, J.A. Um discurso sobre as ciências 16 anos depois. In: SOUSA SANTOS. B. Conhecimento Prudente para uma Vida Decente. São Paulo: Cortez, 2004, p. 59-62. 
SOUSA SANTOS, B. Introdução In: SOUSA SANTOS. B. Conhecimento Prudente para uma Vida Decente. São Paulo: Cortez, 2004, p. 17-27. 

O pensamento moderno e a infância da ciência

Pequeno ensaio produzido pela aluna de Doutorado Barbara Lorenzoni Basso

     A ciência moderna parece ser a “infância da ciência”. Me explico: ao estudar Bacon (1979)
e Descartes (1979), pensadores que constituem as bases para a ciência moderna, não pude deixar de pensar na ciência que vejo acontecer diariamente em casa, ao observar minha bebê de 1 ano e 3 meses. 
      A ciência moderna de Bacon e Descartes busca compreender o mundo como ele se apresenta aos sentidos. É a ciência experimental, das causas e efeitos, de entender que se eu mexo a minha mão e bato no móbile sobre meu berço, posso observar o barulho e o movimento que o móbile faz. É a ciência que coloca um punhado de areia na boca para constatar o gosto da areia (e para descobrir que areia não é algo bom de se comer). É a ciência que aprende sobre o movimento e a trajetória que a bolinha faz quando eu jogo ela até chegar ao chão – e entende que essa trajetória pode mudar caso eu atire a bolinha com mais ou menos força.

      Também é a ciência dos primeiros passos – os primeiros e cambaleantes passos que deixam para trás o engatinhar da ciência medieval e que possibilitarão os saltos da ciência positivista, os questionamentos adolescentes da ciência crítica ou as grandes reflexões da ciência quando atravessar a crise da meia idade. 
Se o cientista moderno é infantil em sua arrogância ao afirmar que sozinho consegue atingir a verdade de forma mais perfeita do que vários pensadores juntos e que seu juízo seria mais puro e
Eu sou o mais verdadeiro!
sólido caso fosse guiado apenas por sua razão, sem influência de outras pessoas (Descartes, 1979), também é infantil em seu olhar curioso para a natureza a fim de não apenas observá-la (como faziam os gregos antigos), mas executar repetidas experiências a fim de encontrar a tão buscada verdade. E esse olhar curioso infantil é fundamental no desenvolvimento das ciências, já que passa a perguntar ao mundo como ele funciona e entender sua lógica. 
     Vejo traços de cientistas modernos em minha bebê quando desafia diversas vezes meu “não” - colocando-o em dúvida por diversas vezes até aceitá-lo como “verdade” (“Será que posso ficar em pé na beirinha do sofá?” “Não, filha, assim tu vai cair!” “Humm, será que se eu ficar em pé agora a mamãe deixa?” 
      “Filha, já te disse que tu vai cair daí” “Humm, e se eu levantar devagarinho, será que posso ficar em pé no sofá?” “Filha, tu vai cair!”, etc…) Minha bebê também é cientista moderna quando executa repetidas vezes os mesmos passos, seguindo uma série lógica, para seus controles experimentais (como em Koyre, 2011): sobe os degraus da escadinha com ajuda das mãos, levanta em pé, caminha até o escorregador e escorrega; sobe novamente os mesmos degraus, levanta em pé outra vez, vai novamente até o escorregador e escorrega… e repete tudo outra e outra vez, até dominar o processo e saber o que acontece em cada um desses passos. 
     Outro princípio que parece ser testado por minha filha é aquele que diz que se as formas são as mesmas, as causas e condições são as mesmas, só poderão produzir o mesmo efeito (Koyre, 2011). “Se eu jogar esse garfo no chão, o que acontece?” “E esse outro garfo? Será que acontece a mesma coisa?” “E esse outro? Vai fazer o mesmo barulho? Vai cair do mesmo jeito” “E essa faca? Hmm, a faca é diferente, será que cai de forma diferente?”… 
     A infância da ciência pergunta ao mundo como ele funciona, sem ainda se preocupar com os porquês – que sei que virão em breve, quando minha pequena cientista não se contentar apenas em saber que quando ela joga a bolinha no chão a bolinha quica… ela irá perguntar por que a bolinha quica… e se eu responder que é porque ela é redonda, vai querer saber por que a bolinha é redonda… e assim por diante. 
     Esse aprendizado contínuo é importante e necessário para o desenvolvimento de minha filha e servirá de base para a adolescente e a adulta que ela se tornará, assim como a “infância da ciência” foi importante e necessária para o desenvolvimento do pensamento científico e serviu de base para o crescimento da ciência e para sua trajetória através de suas diferentes fases. 
O bebê cientista
Referências
BACON, F. Novum Organum In: Francis Bacon. Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979. p. 1-21. (trechos escolhidos)   
DESCARTES, R. Discurso do Método. In René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (trechos escolhidos)  
KOYRÉ, A. As origens da ciência moderna: uma nova interpretação. In KOYRÉ, A. Estudos de História do Pensamento Científico. Rio de janeiro. Forense Universitária, 2011.

Da obra “Ceci n´est pas une pipe” (Isto não é um cachimbo) à angústia (e não o erro) de Descartes: crítica à crença de realidade objetiva de Bacon e ao racionalismo cartesiano

Pequeno ensaio produzido pelo aluno de Mestrado Lilian Cristina Schulze

     A despeito do que inegavelmente se pode constatar que grandes pensadores como René Descartes e Francis Bacon tiveram contribuições à produção do conhecimento e da construção de metodologias de rigor científico, meu ponto de partida é a crítica de modelos ainda vigentes e que se baseiam na construção da noção de ciência apenas e exclusivamente no pensamento cartesiano ou na construção do conhecimento em busca de uma verdade ou realidade absoluta e objetiva. 
     Bacon (1979) entende que a realidade existe por ela mesma e o papel da ciência é reproduzi-la e experimentá-la, através do método indutivo e baseado na observação criteriosa da natureza, na organização disciplinada e objetiva de forma a evitar as distrações dos sentidos e emoções (subjetividade), hipóteses a serem testadas como verdadeiras ou falsas e comprovação através da experimentação, pois todo o resto seria apenas fruto de interpretações equivocadas, descoladas da realidade per si. Como seria possível, nos dias de hoje, conceber a realidade e retrata-la fielmente, sem que sejam suposições e apropriações subjetivas? A realidade objetiva é possível?
Haveria, de fato, algum método capaz de sintetizá-la ou seria mais um método cuja significação e interpretação são dadas por cada pesquisador?
    Já Descartes (1979), através de seu conhecido modelo de pensamento linear, da linha do raciocínio que deve ir do simples ao complexo e do particular ao geral, bem como de sua defesa à compartimentalização do conhecimento e a dicotomia clássica (corpo e mente; razão e emoção; objetividade e subjetividade, por exemplo) advindas de lógica positivista, um grande erro para Damasio (1995), encontra ainda muitos adeptos. A complexidade e multiplicidade de fatores que interferem na compreensão de mundo seria, dessa forma, angustiante por não ser previsível, controlável, linear e objetivável, sendo necessária, ao menos, a objetivação (Demo, 1985). Seria o racionalismo um método com vistas a aplacar a angústia constitutiva do ser humano de “não controlar o que é desconhecido”? 
     A arte pode expressar essa angústia através da análise da polêmica obra de Magritte que, criticada por Foucault (1988), representa um objeto que nunca será por si mesmo o objeto ou a realidade objetivada. O desenho de um cachimbo nunca será o cachimbo, mas apenas sua reprodução simbólica e subjetiva daquele que o reconhece. Foucault (p.19) compara o desenho do cachimbo a um manual de botânica: uma figura e um texto que o interpreta. Assim poderíamos traçar um paralelo entre a crença da realidade objetiva da natureza de Bacon e a obra de Magritte como a representação da realidade como mera interpretação, não importa quão “realista” ela seja. A obra de Magritte, pertence ao movimento do surrealismo e critica veemente o racionalismo e pode ser perfeitamente transponível ao debate em torno da reprodução da realidade objetiva a despeito da subjetividade. Por mais que se utilize de métodos rigorosos, o cientista só terá acesso a uma representação, pois ela própria é fruto de sua subjetividade. Assim, a obra de Magritte “a traição das imagens”, conhecida por: “ceci n`est pas une pipe”, tem na representação da imagem tal qual da natureza pela ciência. Isso não é a realidade, mas tão somente sua representação.

     Seria possível, então, pensar na ciência pós-moderna enquanto método que reproduza fielmente a realidade? O conhecimento não é histórico e, portanto, passível de interpretações de quem o percebe e quando o faz? A produção do conhecimento enquanto forma de apropriação é compartimentalizável ou o fazemos por nossa própria incompetência e limitação humana, pautada numa “angústia pela racionalidade”?


Referências
BACON, F. Novum Organum In: Francis Bacon. Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979. p. 1-21. 
DAMÁSIO, António R., O Erro de Descartes. Emoção, Razão e Cérebro Humano, 12ª edição, Lisboa, Publicações Europa-América, 1995, (col. Forum da ciência, 29).
DEMO, P. Demarcação científica. In: DEMO, P. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, 1985.
DESCARTES, R. Discurso do Método. In René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979. 
FOUCAULT, M. Isto não é um cachimbo. 5ª ed. tradução de Jorge Coli. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. Disponível em: https://monoskop.org/images/4/46/Foucault_Michel_Isto_nao_e_um_cachimbo.pdf Acesso em 14 ago. de 2018.

A importância do desenvolvimento científico para o Brasil, a partir de uma episteme empírica e racionalista

Pequeno ensaio produzido pelo aluno de Doutorado Anderson Luís do Espírito Santo.


A transitoriedade do mundo moderno implica em descobrirmos respostas cada vez mais rápidas aos problemas públicos atuais. Para dirimir tais problemas um governo (federal, estadual ou municipal) poderá desenvolver inúmeras políticas públicas que atenderão as mais diversas áreas da sociedade (saúde, educação, segurança, outros). Por políticas públicas compreendo-a como uma proposta (programas, ações, diretrizes) elaborada, pelo governo ou em conjunto com a sociedade, para resguardar a coletividade e possibilitar o enfrentamento de um determinado problema público. 

Ocorre que ao analisar o território nacional, observa-se a existência de uma grande dificuldade na implementação de diversos tipos de políticas públicas, ocasionada, principalmente, devido à falta de diálogo e as dificuldades de intersetorialidade entre as esferas públicas. Outro problema recorrente é a falta de interdisciplinaridade na criação dos programas, a aplicação-conclusão destes e a descontinuidade em caso de troca de partidos políticos no poder por todo país. Soma-se as dificuldades elencadas o fato de os governantes seguirem ou o senso-comum, ou uma ideologia política para a criação de políticas públicas, sem considerar a importância e a influência da ciência para a sociedade. 

É claro que a ciência contribui com diversas políticas públicas elaboradas pelos governos centrais, a exemplo, na agricultura. Entretanto, com exceção de alguns poucos políticos, a administração pública brasileira ainda padece de diversos males por não dialogar mais proximamente com os cientistas. Hoje ainda assistimos o possível desmantelamento das bolsas Capes (para a pós-graduação) e diversos cortes na educação e incentivo a ciência e a tecnologia.  Por compreender a importância da ciência para a sociedade brasileira, meu argumento neste paper será: “a importância do desenvolvimento científico para o Brasil, a partir de uma episteme empírica e racionalista”. 

Segundo dados da revista online Galileu (2018) o governo federal anunciou em fevereiro de 2018 que retiraria meio bilhão do orçamento para a ciência. Nos últimos dias o governo federal voltou a anunciar uma série de cortes das bolsas Capes, que incentiva mestrandos e doutorandos no Brasil e esse fenômeno já vem sendo chamado de "apagão científico 2019". Esse desmantelamento é uma série de ocorrências do atual governo Temer com relação a ciência. No ano passado por exemplo, ouvimos sobre a possibilidade de o governo acabar com o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Outra ruptura, dentre tantas, foi a criação de mestrados e doutorados EAD, enfraquecendo ainda mais a formação de cientistas, com mestres e doutores recebendo seu diploma por correspondência, atenuando assim, o debate teórico dentro das universidades. 

https://cbncuritiba.com/pesquisa-pode-parar-diz-ufpr-sobre-risco-de-cortes-em-bolsas-capes/

A situação é trágica e a comunidade científica do Brasil e de algumas partes do mundo sinalizam para a catástrofe de toda estrutura de pesquisa do país que comprometerá, ainda mais, a recuperação econômica e a qualidade de vida da população brasileira. 

“O maior problema da ciência é a realidade” (DEMO, 1985). Segundo o autor a pesquisa é a principal atividade acadêmica e seus resultados fortalecem a ciência e podem exercer uma grande influência na vida das pessoas. Daí a necessidade de distinguir a diferença entre ciência, ideologia e senso-comum. Muitas políticas públicas são elaboradas a partir de um senso-comum, o que Demo chamou de conhecimento imediatista. 

No Brasil é comum vermos nas políticas o “jeitinho brasileiro” como ocorreu durante a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Outra possibilidade existente, são as políticas públicas que surgem a partir de ideologias partidárias. Para Demo (1985), o discurso ideológico significa que determinada política foi construída em favor de mundivisões, objetivando, talvez, o interesse de uma determinada classe. Exemplo: a quem interessa que um jovem brasileiro hoje não tenha mais aulas, dentre outras disciplinas, de história e literatura? Ou porque os debates teóricos e políticos não ocorram mais nas universidades? Esses questionamentos retratam algumas mudanças em andamento no Brasil que nos faz perguntar: como um futuro cientista social estudará determinado fenômeno sem uma base histórica em seu currículo? O governo brasileiro (atual) tem interesse na disseminação do conhecimento? Ou há um ar ditatorial próximo as eleições? Tais questionamentos me leva a acreditar que o intelecto está sendo corrompido por uma ideologia que cega a população atual e que prejudicará, e muito, a geração futura. 

Sobre a ideologia Demo (1985, p.15) indica que também a encontramos na ciência porque “sendo a ciência um fenômeno social, não pode escapar ao posicionamento político, manifesto ou latente”. Por isso a necessidade de se distinguir senso-comum, de ideologia e de ciência. Dessa forma, surge o primeiro questionamento desse paper: de qual ciência estamos falando? 

O que percebo da ciência é a realidade. Buscamos, enquanto pesquisadores, elaborarmos uma ciência baseada na realidade, no tempo e em diferentes lugares para que se possa atender uma determinada situação. O Brasil possui inúmeros cientistas que produzem conhecimento a partir de financiamentos ou, como diz a linguagem popular, na raça, com nada, pouco ou um mínimo, do mínimo para que se iniciar alguma análise. Daí a importância de atentarmos para os cortes do governo. Universidades produzem estudos sociais que podem ajudar a compreender uma determinada sociedade. Institutos, como a Embrapa, potencializam por meio da ciência o agronegócio. Outros exemplos poderiam ser citados, contudo, todos retratam que a sociedade e a economia são os maiores impactados por não se creditar o devido apoio-atenção a necessidade de se entender e fazer ciência. 

Dada a importância da ciência, o segundo questionamento desse paper é: como as políticas públicas poderiam surgir a partir do Empirismo? Para Bacon (1561-1626) nenhum saber é absoluto, logo, é necessário estabelecer graus de certeza para chegar ao melhor conceito geral. A certeza é oriunda da experiência afastando qualquer tipo de sentido. Os conteúdos não são obtidos de elementos vazios - abstrato, mas sim, do experimento oriundo da observação de fenômenos (ex. tábua dos graus - registra as variações que as formas manifestam). 

Para Bacon a melhor demonstração é a experiência obtida a partir de experimentos, através do método indutivo para chegaremos a pensamentos válidos. Transpondo esse argumento para a sociedade atual, vemos que muitos experimentos que surgem nas sociedades poderiam ser analisados à luz do empirismo de Bacon para que, caso validado, tornar-se uma política pública. O problema é que tais análises demandam tempo e dinheiro e, às vezes, o governo erroneamente transfere experimentos de sucesso de uma dada localidade, para outra. (ex. Programas criados para os índios na Amazônia são também implantados para as famílias de assentados rurais no Mato Grosso do Sul, temos aí duas sociedades completamente distintas). 

Bacon sinaliza que é necessário afastar os ídolos e noções falsas que bloqueiam a mente urbana. Os ídolos poderão obstruir a elaboração da ciência, daí a necessidade dos homens se precaverem de tais ídolos, a saber: Ídolos da Tribo; Ídolos da Caverna; Ídolos do Foro e Ídolos do Teatro (BACON, 1979, p.19-20). 

Por fim, baseado em Bacon, temos a necessidade de se formar noções e axiomas, verdades inquestionáveis universalmente válidas, para se formular princípios e teorias que possibilitarão o surgimento de uma nova ciência. Acredito que o método indutivo, por meio da observação dos fenômenos, pregado por Bacon caberia a uma administração pública, visto que, um dos seus principais seguidores foi John Locke que escreveu o Segundo Tratado sobre o Governo, onde Locke expõe sua visão contra o governo absolutista e defende que o governo emana do povo, da sociedade que forma o território, tudo que a atual sociedade brasileira precisa. (Grifo do autor). 

Outros pontos da obra poderiam ser citados. Findo com a afirmativa de Bacon: até agora ninguém surgiu dotado de mente tão tenaz e rigorosa que haja decidido, e a si imposto, livrar-se das teorias e noções comuns. Isso, na gestão pública é comum, retomando até o item anterior, ideologias e vaidades que permeiam a maior parte das políticas públicas elaboradas no Brasil. Toda construção deve brotar da experiência, por isso, “há necessidade de continuar a promover experiências” (BACON, 1979, p.68). Logo, é compreensivo a preocupação da comunidade cientifica frente a tantos cortes por parte do governo brasileiro. 

Com relação ao racionalismo, Descartes (1596-1650) expõe que todo conhecimento deve partir de uma causa inteligível. Ao contrário de Bacon, Descartes defende que a ciência deve surgir a partir do racionalismo, onde determinado fenômeno é analisado a partir da lógica (grande influência da matemática) e de forma racional. “O que é necessário a uma proposição para ser verdadeira e certa [...] é que essa certeza deva ser consistente [...] eu penso, logo existo, me assegura que eu digo a verdade” (DESCARTES, 1979, p.23). 

Para o autor a razão é obtida a partir do conhecimento humano. Ao longo de sua obra é perceptível a intensa reflexão adotada por Descartes obtida a partir do método dedutivo, desenvolvida a partir de quatro etapas: regra da evidência; regra da análise, regra da síntese, regra da enumeração. A partir destas regras ficou evidente que certas vezes determinados fatos pareciam verdadeiros. Após intensos questionamentos e reflexão foi possível percebe-los como falsos. “A razão disso é que essas mais raras nos enganam muitas vezes, quando se conhecem ainda as causas das mais comuns, e que as circunstâncias das quais dependem são quase sempre tão particulares e tão pequenas, que é muito penoso” (DESCARTES, 1979, p.43). 

Transpondo o racionalismo de Descartes para o terceiro questionamento desse paper, (a contribuição do racionalismo descartiano para o desenvolvimento da ciência no Brasil), podemos vislumbrar que as políticas públicas poderiam ser elaboradas tomando por base, a regra da evidência, onde o governo não poderia aceitar nada como absolutamente verdadeiro – aceitar somente quando este fosse comprovado. Este ano assistimos uma intervenção militar no Rio de Janeiro, com a justificativa de se controlar a questão da criminalidade e do tráfico de drogas na cidade. Essa decisão foi tomada como verdadeira, mesmo diversos professores, pesquisadores e juristas afirmando a não necessidade e o quão perigoso isso seria para o país que está em ano eleitoral. Como interditar uma única cidade se o país tem 17mil km de fronteira seca, por onde entra a maior parte das drogas e quase nada é feito (há uma média de 1 agente policial para cada 85km, número extremamente baixo). Baseado em Descartes podemos concluir que é necessário instituir uma investigação do conhecimento humano para que políticas públicas emerjam com maior solidez, amplitude de atendimento, e controle dos gastos públicos. 

Para não concluir, afinal nunca podemos aceitar que a ciência esteja devidamente finalizada, Koyré (2011) apresenta a chamada revolução científica e o desenvolvimento de uma ciência experimental. Em linhas gerais compreendi que a ciência desenvolveu a capacidade de articular o método da observação com experimentação e instrumentos técnicos. Para o autor a fusão é o caminho. “Nem empirismo puro e nem filosofia experimental total conduzirá a ação humana a alguma parte [...] é necessária ousadia na ciência para se obter a verdade”. Temos aí a importância de pesquisas teórico-empíricas. 

A ciência influência no modo de pensar da sociedade. Há necessidade de se elaborar políticas a partir de análises confiáveis e valores socialmente aceitos. As políticas públicas elaboradas pelos governos centrais se mostram ditatoriais, estruturantes, ideológicas e sem fundamentação de um conhecimento teórico. Seria o Estado capaz de elaborar políticas públicas apenas seguindo suas diretrizes e ideologia? Sim! Infelizmente é assim que vem ocorrendo. 


QUESTIONAMENTOS: 
1) De qual ciência estamos falando? Qual o impacto do descaminho da ciência no Brasil? 
2) Como as políticas públicas poderiam surgir a partir do Empirismo? 
3) Qual a contribuição do racionalismo descartiano para o desenvolvimento da ciência no Brasil? 


REFERÊNCIAS 

BACON, F. Novum Organum In: Francis Bacon. Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979. p. 1-21. (trechos escolhidos) 
DEMO, P. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, 1985. 
DESCARTES, R. Discurso do Método. In: René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (trechos escolhidos) 
GALILEU. Governo federal retira quase meio bilhão do orçamento para a ciência. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2018/02/governo-federal-retira-quase-meio-bilhao-do-orcamento-para-ciencia.html Acesso em 06 de mar. de 2018. 
KOYRÉ, A. Estudos de História do Pensamento Científico. Rio de janeiro. Forense Universitária, 2011.

ANT and Beatles: de formigas a besouros

Pequeno ensaio produzido pelo aluno de Mestrado Acadêmico Rafael Tachini de Melo

       Os Beatles são a maior banda de rock de todos os tempos, sua música é tocada em todas as partes do mundo, e um beatlemaníaco pode ser de qualquer idade, gênero, cor, classe ou cultura. No oriente ou no ocidente, sempre existirá um fã dos Beatles. Muitos dizem que a trajetória dos garotos de Liverpool influenciou a vida destes inúmeros fãs, em uma visão clássica de um fenômeno social sobre as pessoas, a cultura, a política, a sociedade em geral, a qual foi exprimida por Émile Durkheim. Mas será que foi dessa maneira?
      A teoria ator-rede, de Bruno Latour, conhecida pelo acrônimo em inglês ANT (Actor Network Theory) traz uma lente diferente para a mesma circunstância, e recria tal visão, de maneira a demonstrar que a inspiração dos Beatles na vida de um intitulado beatlemaníaco, que aqui me incluo, decorreu da sua atuação e das suas mais íntimas experiências pessoais, que encontraram essas clássicas canções. 
       Por outro lado, os argumentos de que os Beatles foram influenciados pelo movimento beatnik, pela religião hindu, e até pelo uso de drogas sintéticas também são falhos sob a perspectiva latouriana. Para chegar a essa conclusão, precisamos primeiro adentrar na confecção desta objetiva. Bruno Latour busca desconstruir o conceito de definição do fenômeno social, da ordem social, como fenômeno aparentemente supra existente que explica os mais variados aspectos de esferas consideradas “não sociais”, como direito, psicologia, economia, geografia, ou seja, a definição clássica de ciência do social, numa espécie de purificação dos elementos estudados. Para tanto, cria a visão de ciência das associações, indo na raiz latina da palavra social, socius que redefine a sociologia como sendo busca de associações, o social não é algo entre outros, mas sim um tipo de conexão entre coisas que não são, em si mesmas, somente sociais. 
    A sociedade moderna restringiu o significado de social às relações humanas. Em verdade o significado de social é muito mais que o contexto humano, e se entrelaça em associações e agregados de forma infinita. A primeira visão da sociologia teria confundido aquilo que devia ser explicado com a explicação. Ou seja, o contexto social não é a explicação para o direito, a biologia, a ciência ou a religião, mas cada um desses fatores associados explica o que é a sociedade. É esse o caminho da sociologia das associações que a teoria do Ator-Rede adota. Os atores não são meros informantes de tipos conhecidos, mas tem capacidade de elaboração das teorias sobre a constituição do social. Bebendo na fonte de Gabriel Tarde, a teoria do Ator-Rede busca recriar uma sociologia apta a justificar como a sociedade é, em vez de usar a sociedade para justificar um ou outro aspecto. 
    A teoria ator-rede portanto seria, inclusive, imparcial, ao considerar as percepções do ator e transformar a unificação de cada percepção e atuação das coisas (e pessoas) que compõem progressivamente e coletivamente um mundo comum, ao invés de impor leis e predefinições de fenômenos sociais, na visão de Durkheim, para se alcançar um “retrato social”. Ao mesmo tempo não é tão somente descritiva, tem caráter de ativação e política na influência e montagem do mundo comum. 
      Ao retomar a trajetória de cada membro dos Beatles, e sua própria composição, verifica-se uma profusão de associações pessoais, familiares, políticas, legais, científicas que formaram o mundo comum deles próprios e de milhares de pessoas. Paul e John foram apresentados por um amigo em comum, pouco antes da apresentação da banda Quarrymen, que tinha John Lennon como líder, em uma festa da St. Peter’s Church.

Uma despretensiosa foto daquela apresentação, que marca um dia histórico 
      Enquanto George Harrison e Ringo Starr cresceram em famílias com pai e mãe, Paul McCartney perdeu sua mãe ainda quando criança, e John Lennon foi criado pela Tia Mimi, e acabou por conhecer sua mãe apenas na adolescência, descobrindo da maneira mais traumática possível, que ela morava a poucos minutos a pé da sua casa, mas ia visitá-lo com pouca frequência, chegando inclusive de ônibus para dar a noção de uma distante viagem. 
   A ausência da presença materna na vida de Lennon/McCartney os levou à música como passatempo, fuga e paixão em inúmeras tardes de composição na adolescência. Um paradoxo na vida de John, é que apesar da ausência de sua mãe, ganhou justamente dela o seu primeiro banjo. George Harrison conheceu os dois no ônibus que os levava para a escola. Ringo Starr integrou a banda apenas quando esta estava na iminência do sucesso, diante da insatisfação dos demais membros com Pete Best, o então baterista dos Beatles.
      Sobre Ringo, marcante é o fato de que poderia ter morrido em um bombardeio da Segunda Guerra Mundial, ainda criança, pois a segunda casa ao lado da sua foi completamente destruída por uma bomba. A atuação de milissegundos para frente ou para traz de um artilheiro alemão em uma aeronave nazista definiu a trajetória da banda.
      Mergulhados na saída da adolescência, nos seus vinte e poucos anos, o grupo galgou ao sucesso por meio de músicas que falavam de amor e relacionamento, como Love me do (1962), She Loves you, I want to hold your Hand (1963) e And I Love Her (1964). Neste ponto, interessante um aparte. Com base na teoria do ator-rede, a influência que as músicas têm na vida das pessoas não é de cima para baixo. Não vou buscar ou amar alguém somente pelo contexto da música que ouvi, mas sim por experiências pessoais e musicais, que acabam por influenciar o jeito de pensar e agir do indíviduo e sua relação com tudo a sua volta e moldar o coletivo e o mundo comum.
        A vontade de cada indivíduo em ver os Beatles levou à formação de um jeito até então inédito de se bandas se apresentarem: um concerto em um estádio. Em Nova York, em 1965, o Shea Stadium foi palco do maior show até então realizado, que alcançou 55.000 (cinquenta e cinco mil) pessoas, público que até hoje poucas bandas conseguem alcançar.
       A catarse e a histeria em volta dos Beatles nada mais é que tudo e todos, com a bagagem de suas experiências e relacionamentos, agindo para formar o coletivo e o mundo comum. Em que pese tudo não passasse de barulho e caos, como testemunhado pelo próprio Lennon, até a fabricante de caixas de som à época desenvolveu o então alto falante mais potente do mundo especialmente para o show. Elementos considerados pela ciência moderna sociais e naturais (tecnologia), entrelaçados, moldaram aquele cenário. 
      O show quase não ocorreu, pois era necessário um depósito de 50 (cinquenta) mil dólares, quantia exorbitante na época, sendo que o produtor americano responsável desenvolveu um método de venda inédito até então para shows, anunciou a pré-venda de ingressos para atingir tal quantia. Este show marcou as percepções de cada beatle até onde tinham chegado e no que tinham transformado a experiência musical para os demais. Um tanto quanto barulhenta e não contemplativa. E eles começam a falar das suas angústias através de músicas.
      Em Help (1965), pedem um socorro ante a maratona de shows. A percepção dos besouros, como atores, de como se transformaram comercialmente, a necessidade deles de ir atrás das suas essências decorrentes de vivências e angustias pessoais e profissionais mudou a forma de eles fazerem música. A busca pessoal de novas experiências e a complexidade das experiências de suas vidas os levaram a parar as turnês e compor músicas focadas no passado e na reflexão.
     Uma tríade de sucessos com esse mote surgiu: Eleanor Rigby (1966) era o nome escrito em uma lápide de um cemitério da Igreja tal, em Liverpool, onde John, Paul e George, ainda adolescentes, costumavam beber escondidos, e inventavam histórias sobre as pessoas falecidas. Penny Lane (1967) era a rua nas redondezas de onde John, Paul e George passaram a infância, onde havia o banco, a barbearia e a igreja que frequentavam, tudo descrito na canção. Strawberry fields forever (1967) falava do orfanato próximo da casa de John, que quando adolescente, costumava invadir, muitos dizem para brincar, outros para vandalizar a instituição, mas todos concordam que se reconhecia nas crianças, por também não ter pai e mãe presentes.
      No álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967) os Beatles fazem uma desconstrução, sob a alcunha de uma banda alter ego, apresentando as inúmeras influências que permearam a vida de cada um. Figuras políticas, religiosas, do esporte, da música, da cultura em geral, de amigos pessoais e inclusive os próprios Beatles. Esta capa é o retrato claro de que a vivência pessoal de cada um deles os levou até onde estavam, e formou o mundo comum dos beatlemaníacos, que viveram este álbum. É a última expressão da consecução da teoria ator-rede

Capa do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band 
       No final da carreira da banda, o relacionamento entre os integrantes estava desgastado, e as experiências diárias levaram à composições clássicas e marcantes, mas que expressaram o humor daquele momento, como Let it Be (1969), expressão que fala em “deixar estar”, para não se preocupar que tudo vai dar certo [caso a banda termine], e I’ve got a feeling (1970), uma música que trata, ao mesmo tempo, de amor, humor e de consolo, ao falar que todo mundo passa por momentos difíceis e engraçados na vida.
    A trajetória dos pequenos besouros soa como o pequeno trabalho de Latour como formiga na formação do mundo comum. Eles se tornaram famosos, apaixonantes, instigantes, mas tudo isso adveio das suas experiências e vivências no seu meio, no seu inter-relacionamento com o mundo pessoal, local, cultural, religioso, social, científico, técnico, etc., não se podendo conceber que o “contexto social”, seja lá o que seja isso, é que foi o fator de criação desta marcante expressão musico-cultural do século XX ou de sua legião de fãs.


Referências.
DAVIES, Hunter. As letras dos Beatles - A história por trás das canções.Tradução de Maria da Anunciação Rodrigues. São Paulo: Planeta do Brasil, 2016.
DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007
HEWITT, Paolo. Love me do – 50 momentos marcantes dos Beatles. Tradução de Leandro Woyakoski. Rio de Janeiro: Versus Editora, 2014.
LATOUR, B. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.
LATOUR, B. Reagregando o Social. Uma Introdução à Teoria do Ator Rede. New York: Oxford University Press, 2012.
PADOVANI, U. CASTAGNOLA, L. O criticismo Kantiano e O positivismo In: PADOVANI, U. CASTAGNOLA, L. História da Filosofia. São Paulo: Mehoramentos, 1990 (trechos escolhidos).

O Fantástico da Ilha de Santa Catarina: A complexidade das pedras do Itaguaçu

Pequeno ensaio produzido pela aluna de Mestrado Acadêmico Maria Eduarda Dias.

O objetivo deste ensaio é observar que as pedras do Itaguaçu, bairro localizado em Florianópolis, apesar de imóveis, são capazes de transitar entre diferentes campos de conhecimentos científicos, e desta forma construir identidades múltiplas e complexas.
O bairro Itaguaçu localiza-se na parte continental da cidade de Florianópolis. De origem tupi, seu nome significa “Pedras Grandes”, o que pode ser explicado por seu horizonte repleto de enormes monumentos rochosos espalhadas pelo mar. Segundo Alencar (2013, p.85) "A paisagem encontrada na praia do Itaguaçu é composta por seixos, blocos e matacões de rochas “arredondados” que suscitam no imaginário popular uma ideia de empilhamento antrópico".
Geograficamente, a riqueza das formações rochosas de Itaguaçu constituídas no decorrer da história constituem em um belo cenário, que pode ser contemplado na Figura 1.

Figura 1 - Formações rochosas do bairro Itaguaçu
Inspirado nas belas paisagens de seu bairro nativo, o historiador e artista Franklin Cascaes coletou através do método de história oral lendas sobre a personalidade mística deste conglomerado de rochas. Entre a coleta de dados culturais de Cascaes, existe o conto de uma briga entre bruxas festeiras e um diabo invejoso, que acabou por resultar na formação das tais rochas dos Itaguaçu, como é visto na Figura 2.


Figura 2 - Placa fixada em uma das pedras da praia de Itaguaçu
A união entre o deleite contemplativo destas formações rochosas e o entretenimento de lendas místicas passadas de geração a geração, faz desenvolver o potencial turístico e econômico do bairro. Passeios turísticos são realizados com frequência na região, monumentos em homenagem à Franklin Cascaes foram erguidos e o comércio local se mantém. O restaurante Recanto das Pedras é um ponto turístico essencial do bairro, por apresentar a gastronomia local e também proporcionar uma vista privilegiada, como pode ser apreciada na Figura 3.

Figura 3 - Bairro Itaguaçu, em Florianópolis
Diante desta sucinta descrição do bairro Itaguaçu, é possível perceber a multiplicidade de papéis que o território adquiriu a partir das formações rochosas do local. Latour (1994) ao evidenciar a presença de elementos não humanos, reconhece a influência desses objetos na realidade e nas interações sociais. A Guerra das Ciências, evidenciada por Demo (1985), retrata a priorização das Ciências Naturais às Ciências Sociais no decorrer da história e o predomínio do pensamento cartesiano, de “tentar conceber um universo que fosse uma máquina determinista perfeita” (MORIN, 2003, p.58). Todavia, explicações centradas exclusivamente em fatos reais e palpáveis nem sempre conseguem explorar um campo de causa de maneira abrangente, devido à sua complexidade. Retomando o exemplo deste ensaio, os aspectos geológicos e geográficos das formações rochosas são essenciais para que se compreenda o mundo real, mas os mitos que surgiram através delas também fazem parte da realidade local, da cultura do povo “manezinho”. Morin (2003, p.64) reconhece a importância das descobertas feitas pelas Ciências Naturais, mas, ao contrário do Positivismo, considera também a complexidade das Ciências Sociais e da autonomia humana: 

A noção de autonomia humana é complexa já que ela depende de condições culturais e sociais. Para sermos nós mesmos precisamos aprender uma linguagem, uma cultura, um saber, e é preciso que esta própria cultura seja bastante variada para que possamos escolher no estoque das idéias existentes e refletir de maneira autônoma. Portanto, esta autonomia se alimenta de dependência; nós dependemos de uma educação, de uma linguagem, de uma cultura, de uma sociedade, dependemos claro de um cérebro, ele mesmo produto de um programa genético, e dependemos também de nos sos genes.

O sistema de símbolos artificiais da nossa sociedade geram um estoque de dados, e a Demarcação Científica (Demo, 1985) visa categorizar o que é e o que não é Ciência. Obcecados pela razão e guiados pelo pensamento cartesiano, os filósofos do século XVIII, acabavam por nutrir uma espécie de “paranóia”, que os impedia de compreender os mitos, a religião, enfim, elementos metafísicos que constituem a identidade humana, de maneira profunda. Essa busca incessante por responder de maneira objetiva e factual uma lista infinita de “por quês” limitava a compreensão mais abrangente de algumas questões. Desta forma, conforme Le Moigne (2003), na abordagem do Paradigma da Complexidade, a razão pura criticada por Kant vai do “por quê?”, para o “por quê não?” Por quê não dar a mesma relevância às diferentes comunidades científicas e seus paradigmas, perceber as suas contribuições, as suas formas de explicar o mundo, formas estas que se complementam e interagem? Quando preservar a cultura local se torna um mero hobby e não uma preocupação científica, muito do nosso conhecimento sobre o mundo se perde.

O trabalho de Franklin Cascaes comprova essa afirmação, através dos dados de história oral compilados e preservados em suas obras, que quase se perderam com o passar dos anos, pela falta de pesquisa, de registro, de apropriação das Ciências Sociais neste campo. Mas não cabe apenas aos Sociólogos tal exercício. Morin (2003, p.75) afirma que “(...) o sociólogo é uma parte desta sociedade. O fato de ser detentor de uma cultura sociológica não o coloca no centro da sociedade. “
Quando Schutz (1979) traz com a Fenomenologia a concepção de multiversos, a cultura local “manezinha”, é um dos multiversos que constituem Florianópolis, uma ilha tão complexa quanto o próprio conceito de Sujeito. Desta forma, por quê não cabe ao Sujeito Cidadão preservar a cultura das cidades, ao colocar-se no centro de seu próprio mundo, saber e procurar entender sua existência e aquilo que faz parte de sua história? Uma Floripa natural, cultural, universitária, mística, tecnológica e turística, transcende aquilo que consegue ser explicado pelos paradigmas científicos cartesianos, pois pertence a cada indivíduo de uma forma particular, de acordo com a sua história e as suas experiências e se transforma a cada momento, em uma construção contínua. As pedras do Itaguaçu, apesar de imóveis, tem seus significados transformados em conjunto com o Sujeito e com a cidade, e formam um ecossistema vivo e dinâmico: um paradigma complexo.


REFERÊNCIAS


ALENCAR, R. A Geodiversidade da Ilha de Santa Catarina: Explorando seu valor didático no 6º ano do ensino fundamental. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em Geografia, Florianópolis, 2013
CASCAES, F. O Fantástico da Ilha de Santa Catarina. Coleção Repertório, Ed. UFSC, Florianópolis, 2015, 272p.
DEMO, P. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, 1985.
KHUN, T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1987, p.217-257.
LATOUR, B. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.
LE MOIGNE, J-L. O construtivismo em construção In: Le constructivisme: modeliser pour comprendre. Paris: L´Harmattan, 2003 (tradução livre por Carolina Andion).
MORIN, E.. Introdução ao pensamento complexo. Lisboa, Instituto Piaget, 2003 (Cap. 3 e 5).
SCHUTZ, A. Fundamentos da Fenomenologia. In: WAGNER, H. R Fenomenologia e Relações Sociais. Textos Escolhidos e Alfred Shutz. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

Limites da cooperação científica.

Pequeno ensaio produzido pelo aluno de Doutorado Fernando Zatt Schardosin

     O conhecimento é entendido como ato de perceber ou compreender por meio da razão ou da experiência, entendimento no qual o ato de perceber se dá através do notório, por intuição ou perspicácia, e no qual, o ato de compreender se dá pelo uso do intelecto, cuja capacidade permite o entendimento. Em decorrência da amplitude do conceito, apresenta-se o conhecimento com inúmeras formas, dentre as quais, o entendimento da aquisição por meio da razão, por meio da experiência, por meio do amor ou então pela dor, pelas letras ou pela observação.
O conhecimento pode ainda ser produzido e disseminado de dois modos, formal e informal, as organizações são uma das maneiras de conduzir ao conhecimento formal, que podem ser universidades, institutos, empresas, revelando que não existe uma única fonte, mas várias, a fonte do conhecimento possui proteção, dada pelos direitos de propriedade, o que impossibilita, por exemplo, que uma frase dita por mim, seja propagada por outros, sem a devida citação da fonte. Os direitos assegurados possibilitam exclusividade de uso ao seu detentor e ainda, de modo frequente, de não uso para os demais (MERTON, 2013).
    Se esta relação for ampliada para os objetos desenvolvidos a partir do conhecimento, passa a representar um caráter econômico, pois os ganhos auferidos foram proporcionados por meio da tecnologia de outrem, desenvolvida através do conhecimento daquele, não bastando uma referência há quem desenvolveu primeiro, passa a ser necessária a contraprestação financeira. Existe, portanto, um conhecimento de base, que promove a ciência e proporciona entendimento a todos os demais, incluso a ciência universitária, mas não somente ela, também a linguagem, cultura, moral. Existe, ainda, o conhecimento aplicado, que emprega o conhecimento de base de uma forma apropriada a algo novo, que será detido como propriedade de quem idealizou esta aplicação, monetizando-o.

     Bloor (2009) corrobora com o entendimento de ciência de base ao tratar do conhecimento científico como gerado a partir de teorias, pelo qual, o avanço científico só pode ser alcançado mediante a partilha e o compartilhamento do conhecimento, quanto maior o nível de “tráfego” de conhecimento, maior é o avanço proporcionado. O objetivo deste paper é apresentar as vantagens da cooperação cientifica analisando os limites do avanço tecnológico dado pelos direitos de propriedade, com referência aos trabalhos de Merton, Bloor e Bourdieu.
      Os cientistas têm sido movidos pela paixão pelo conhecimento, curiosidade, altruísmo, benesses para a humanidade e outros motivos especiais (MERTON, 2013), ao contrário, para Bourdieu (2013) os interesses remetem ao prestígio, reconhecimento e celebridade, voltados para aquisição de autoridade científica, formando capital específico. Esta autoridade pode ser acumulada, transmitida, porém, a acumulação é desigual, cuja apropriação do produto do trabalho científico depende do conjunto de meios disponíveis de produção científica (BOURDIEU, 2013).
Alguns trabalhos têm concentrado esforços a fim de desvendar as potencialidades da cooperação científica, dentre os mais recentes, podemos citar (BENTO et al., 2014), (CAPOBIANGO et al., 2011) e (CARVALHO et al., 2014), cujos focos se concentram nas redes de cooperação entre pesquisadores no país, enquanto os trabalhos de (FARIA e DA COSTA, 2006) e (MOURA e PINHEIRO, 2009) se concentraram na cooperação científica internacional.
A comunidade científica está reunida em grupos de pesquisadores que possuem afinidades em relação ao objeto de seus estudos, com ou sem proximidade física, se encontram, debatem, pesquisam e escrevem, cujos resultados são apresentados a toda a comunidade cientifica por meio de publicações, para Merton (2013) a omissão de descobertas científicas é um fato condenável, pois justamente esta é uma das maneiras de promover a colaboração entre as gerações, tanto atuais, como passadas, a fim de ampliar as fronteiras do conhecimento e o reconhecimento ao trabalho desenvolvido. Bernal (1939) citado por Merton (2013) afirmava que a ciência moderna somente cresceu a partir do rejeição do segredo.
A colaboração entre cientistas e a publicação não se restringem somente a cooperação para a construção da ciência, mas também a verificabilidade do que está sendo proposto ao escrutínio de outros cientistas que desenvolvem pesquisas no campo, podendo afirmar a assertividade do autor em razão dos pontos de criticidade aceitáveis para determinados tipos de trabalhos (MERTON, 2013), em uma espécie de controle social.
Um elemento importante se coloca nesta égide, pois o cientista não se encontra frente-a-frente com seu interlocutor (MERTON, 2013), representando uma dificuldade a mais no repasse de informações para transformação do conhecimento, cuja única ferramenta é a linguagem comunicativa expressa no trabalho publicado. Para o pesquisador ter a certeza que estava no caminho correto precisará aguardar as críticas, feitas do mesmo modo e pelas mesmas ferramentas, de que se utilizou. Para Bourdieu (2013) isto é especialmente interessante a medida que o interlocutor sendo pertencente a comunidade científica é também “concorrente”, sendo além de juiz, parte interessada.
Esta concorrência entre os cientistas conduz ao produtivismo acadêmico exagerado, no qual existem precipitações de cientistas em colocar determinados trabalhos em apreço, em decorrência da possibilidade de serem ultrapassados por outro membro da mesma comunidade (BOURDIEU, 2013), recomendando cautela em relação aos resultados apresentados, pois podem estar apresentados parcialmente.
Contudo, as descobertas apresentadas pela ciência são produto resultante da colaboração entre pesquisadores para a comunidade (MERTON, 2013), por outro lado, a ciência é um território em disputa, “mais ou menos desigual”, pois os agentes não possuem o mesmo nível de capital específico, cuja capacidade de apropriação do produto do trabalho é diferente entre os pesquisadores, em detrimento dos “concorrentes” que colocam em ação o conjunto de meios disponíveis para a produção da ciência (BOURDIEU, 2013). Existem evidências de que os conteúdos das teorias científicas estão conectadas ao desenvolvimento econômico, técnico e industrial, assim como existem evidências de conhecimentos não-científicos influenciando o conhecimento científico (BLOOR, 2009)
Não foram apresentados indícios de individualismos na produção da ciência neste paper, pelo contrário, ficou evidente que a ciência é uma área colaborativa, por outro lado, esta colaboração ocorre em uma relação dicotômica cooperação – competição, difícil, portanto responder qual promove o melhor resultado, pois, embora a primeira seja mais saudável, a segunda estimula a produção pelo medo, de ser ultrapassado, da perda de prestígio. Necessário se faz, reestabelecer os princípios que regem a ciência, reexaminando os seus fundamentos para reestabelecer os seus objetivos (MERTON, 2013), como a ciência precisa estar em constante evolução, e deve ser realizada coletivamente, a promoção da cooperação ganha espaço para exercer este papel.
Os direitos de propriedade são importantes para a preservação dos direitos de autoria, preservando quem idealizou, por outro lado, pode coibir a atividade colaborativa entre pesquisadores, em razão da falta de confiança nos pares, aliado a competição, pode sentir-se impossibilidade de compartilhar ideias, independente da organização, seja universidade ou indústria, porque este pode ser utilizado por outrem, fornecendo-lhe maior prestígio. Um exemplo, diz respeito aos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas, que tem sido apropriados pela indústria para geração de produtos e consequente patentes corporativas destes conhecimentos, mobilizando a comunidade internacional para salvaguardar juridicamente os direitos destas populações do uso e preservação dos conhecimentos tradicionais (PRONER, 2009).

Referências

BENTO, F. M. S.; BENTO, F. M. S.; BENTO, F. M. S. Search 4.0: Scientific information search and discovery new dynamics and ways of colaboration amongst researchers. Perspectivas em Ciência da Informacao, v. 19, n. 2, p. 4-14,  2014.  
BLOOR, D. Conhecimento e imaginário social.  São Paulo: Editora Unesp, 2009.
BOURDIEU, P. O campo científico. In: ORTIZ, R. (Ed.). A sociologia de Pierre Bourdieu. São Paulo: Olho d’Água, 2013. 
CAPOBIANGO, R. P.  et al. Scientific cooperation network analysis through the coauthors studies of the published articles in Anpad events about the assessment of the public policies. Revista de Administracao Publica, v. 45, n. 6, p. 1869-1890,  2011. 
CARVALHO, M. S.; TRAVASSOS, C.; COELI, C. M. Collaborative scientific research networks. Cadernos de Saúde Publica, v. 30, n. 2, p. 226,  2014.  
FARIA, L.; DA COSTA, M. C. International scientific cooperation: Styles of action adopted by the Rockefeller and Ford Fundations. Dados, v. 49, n. 1, p. 159-191,  2006.  
MERTON, R. K. A ciência e a estrutura social democrática. In: MERTON, R. K. (Ed.). Ensaios de sociologia da ciência. São Paulo: Editora 34, 2013.
MOURA, M. A.; PINHEIRO, M. M. K. Ciencia of the Informacao and cooperacao cientffica internacional: Dialogs Franca-Brasil. Perspectivas em Ciência da Informação, v. 14, n. SUPPL., p. 1-4,  2009.  
PRONER, C. Direito de patentes e conhecimentos tradicionais dos povos indígenas. 2009.  Disponível em: < http://conceptos.sociales.unam.mx/conceptos_final/464trabajo.pdf?PHPSESSID=f07ebddbcc347c2f451074e166a9ee85 >.

“O Neopositivismo do Círculo de Viena, o Neo-racionalismo de Popper e o Estruturo-funcionalismo de Parsons” (Parte 3)

Pequeno ensaio produzido pela aluna de Doutorado Patricia Rodrigues da Rosa.

Os textos desta aula tratam de diferentes temas que, no entanto, possuem ligações entre si. Abordam o Neopositivismo do Círculo de Viena (DORTIER, 2000), influenciado pela obra de Wittgenstein (1961) e toda sua objetividade com relação aos “fatos”, o Neo-racionalismo de Popper (1979), que também é influenciado pelo Círculo de Viena/Neopositivismo (bem como o critica), assim como exerce influência no Estruturo-funcionalismo de Parsons (1967). Pode-se dizer que o denominador comum entre os diferentes autores é a objetividade com a qual tratam os fatos/as coisas e fazem ciência.

Conforme Dortier (2000), o Círculo de Viena em sua “concepção científica do mundo” acredita que somente a ciência baseada na demonstração rigorosa e na observação dos fatos pode fazer avançar o conhecimento. Rejeita a metafísica e acredita que o conhecimento científico ocorre a partir de proposições lógicas e matemáticas (não ligadas à experiência) e de proposições empíricas, baseadas em fatos, que devem submeter-se a critérios de verificação para serem consideradas verdades.

Neste ponto é possível identificar a influência do pensamento da corrente positivista, constante nos textos de Comte (1979), Durkheim (2007) e Padovani e Castagnola (1990), estudados na disciplina de Epistemologia. Para Comte (1976), o método “positivo” ou científico, uma “evolução” com relação ao estágio metafísico, requer o estado de observação empírica, muito semelhante àquele concebido para as ciências naturais. Os fenômenos sociais podem e devem ser percebidos como os fenômenos naturais, obedecendo a certas leis gerais, embora não reduzindo-se ao materialismo. Há, portanto, a crença em certa invariabilidade dessas leis e na previsão racional dos fenômenos. Comte (1979) prevê a necessidade de observação e de imaginação na ciência, porém com a necessidade de confrontar a subjetividade com a objetividade, sendo esta última característica a desejada. O “espírito” positivo e do bom senso é real, útil, certo, preciso e positivo (como contrário ao negativo, levando a filosofia moderna não a destruir, mas a “organizar”).

Além das características do pensamento de Comte (1979), foi possível identificar nos textos várias menções ao estudo dos “fatos”, de forma objetiva. Isso remete também a Durkheim (2007), que desenvolveu o método para estudo dos fenômenos sociais/da vida social dentro da ótica positivista e suas leis gerais, trabalhando com o conceito de “fato social”. Nas suas palavras, o seu principal objetivo é “estender à conduta humana o racionalismo científico, mostrando que, considerada no passado, ela é redutível a relações de causa e efeito que uma operação não menos racional pode transformar a seguir em regras de ação para o futuro” (DURKHEIM, 2007, p. XIII-XIV). Segundo o autor, os fatos sociais devem ser tratados como “coisas”, observando que a coisa se opõe à ideia assim como o que se conhece a partir de fora se opõe ao que se conhece a partir de dentro. É coisa todo objeto do conhecimento que não é naturalmente penetrável à inteligência, tudo aquilo de que não podemos fazer uma noção adequada por um simples procedimento de análise mental, tudo o que o espírito não pode chegar a compreender a menos que saia de si mesmo, por meio de observações e experimentações, passando progressivamente dos caracteres mais exteriores e mais imediatamente acessíveis aos menos visíveis e aos mais profundos (...) Com efeito, pode-se dizer, neste sentido, que todo objeto de ciência é uma coisa, com exceção talvez dos objetos matemáticos... (DURKHEIM, 2007, p. XVII-XVIII)

O Círculo de Viena teve influência do positivismo e também da obra específica de Wittgenstein (1961), outro texto analisado aqui, considerado neopositivista. O livro “tractatus lógico-philosoficus”, foi publicado em 1921 e escrito no formato de uma série de premissas lógicas, em frases curtas que exprimem “a verdade dos fatos”, na ideia do autor, como uma espécie de receituário. Wittgenstein (1961) procura esclarecer as condições lógicas que o pensamento e a linguagem devem atender para representar o mundo – e o mundo é reduzido a um conjunto de fatos, cujo sentido está fora dele. Essas proposições que o autor destaca são consideradas descrições ou imagens da “realidade”. Assim, segundo o autor, “a filosofia deve tomar os pensamentos que, por assim dizer, são vagos e obscuros e torná-los claros e bem delimitados” (WITTGENSTEIN, 1961, p. 77). Dessa forma, as proposições que se apoiam em fatos têm sentido e são passíveis de verificação; as metafísicas ou éticas não podem aspirar uma realidade, pois nada dizem sobre o mundo real (DORTIER, 2000). A função da filosofia passa a ser a de verificar a validade das proposições de linguagem.

Em Wittgenstein (1961) é possível observar a lógica positivista levada ao extremo. O método da observação racional e objetiva dos fatos leva o autor a isolá-los, codificá-los, descrevê-los, como uma espécie de fórmulas. Crê que suas afirmações sobre esses fatos (verdadeiras ou falsas) representam o mundo, o real, o que é, afastando qualquer possibilidade de subjetividade. O conhecimento científico será obtido basicamente a partir do método empírico.

Popper (1979) recebe influência dos neopositivistas, mas diferencia-se deles e também os critica. O autor defende a necessidade de “provas objetivas” em termos de ciência, porém acredita que devemos refutar ou validar provisoriamente as hipóteses, nunca considerar as provas como definitivas. Aborda o caráter provisório da teoria científica, e que novas experiências/observações devem buscar falseá-las, no sentido de testar sua força/poder de explicação e confiança que se pode ter em tal resultado. 

Em certo trecho do livro o autor declara-se contrário aos neopositivistas quanto à perspectiva indutiva de método, defendendo o “dedutivismo”. Segundo o autor, “não existe uma coisa como um método lógico de ter novas ideias, nem uma reconstrução lógica desse processo (...) Toda descoberta contém ‘um elemento irracional’...” (POPPER, 1979, p. 7) e cita Einstein e sua experiência de dedução de leis universais da física a partir da intuição. 

O autor critica o tratamento dos neopositivistas às demarcações metafísicas. Declara que sua intenção não é a derrocada da metafísica, mas a de “formular uma caracterização apropriada da ciência empírica ou de definir os conceitos de ‘ciência empírica’ e ‘metafísica’ de tal maneira que sejamos capazes de dizer de um sistema dado de enunciados se é ou não o propósito da ciência empírica o estudo mais detalhado desse sistema” (POPPER, 1979, p. 12). Os procedimentos para o seu “teste dedutivo das teorias” consistem em: 1º) comparação lógica das conclusões entre si, testando a consistência interna do problema; 2º) investigação da forma lógica da teoria (se empírica ou científica, ou ainda uma tautologia); 3º) comparação com outras teorias, para poder determinar se consiste em avanço científico; 4) aplicações empíricas das conclusões que se podem deduzir.

O texto de Parsons (1967) começa a encaminhar-nos para os estudos futuros de epistemologia na ciência da administração, pode-se dizer, visto que insere o conceito de organização e delimita aspectos de sua estrutura, mobilização de recursos e do seu modo operante. O termo “organização”, aqui, segundo o autor, refere-se ao amplo tipo de coletividade que exerce importância nas modernas sociedades industriais e que pode ser traduzida em “burocracia”, tendo-se como exemplos as autarquias públicas, as empresas comerciais, as universidades e os hospitais. 

Parsons (1967) declara que o estudo das organizações constitui parte do estudo da estrutura social, nos termos adotados pelos sociólogos, sendo que a prioridade da atenção dessas organizações para a consecução de uma meta específica é considerada a característica que a distingue de outros tipos de sistemas sociais. Ao longo do artigo o autor descreve os elementos básicos de uma organização e do seu funcionamento, conforme bem conhecemos na área de administração, destacando aspectos como a distribuição e amplitude de poder e de alocação de recursos conforme os níveis ou funções organizacionais (sua estrutura). Dessa forma, nesse texto estamos tratando de ciência social com um objeto de estudo específico – a organização. 
O autor é conhecido pelos seus trabalhos em termos de funcionalismo estrutural, que não chega a ser abordado explicitamente no artigo lido, porém no texto é possível identificar as relações que o autor estabelece em termos de combinação de atividade humana e estrutura, ao abordar as organizações. Em comparação com os demais autores lidos, fica claro que a organização estudada na perspectiva de unidade social/objeto de estudo por Parsons (1967) nos leva a relacioná-lo principalmente com Durkheim (2007), que ocupou-se de estudar os fatos sociais de forma objetiva, como coisas observáveis, e sobre as quais é possível fazer inferências e projeções. Outro aspecto importante do pensamento de Durkheim (2007) que é possível identificar em Parsons (1967) é na relação entre fato social e instituições. 

O texto de Parsons (1967) traz uma abordagem bastante familiar àquilo que lemos, escrevemos, ensinamos e adotamos na administração. De certa forma, delimitamos a organização com alguns contornos que julgamos necessários para melhor descrevê-la, o que neste momento de leitura pareceu-me bastante “quadradinho”, mas fácil de compreender. Dessa forma, apesar de antigo o texto pareceu-me muito ilustrativo daquilo que tratamos por organização em administração, o que me faz pensar que ainda possuímos uma forte influência estruturo-funcionalista nesta ciência. Da mesma forma, cada vez que releio Durkheim (2007) e demais autores positivistas, percebo o quanto minha formação (e possivelmente, visão) em administração é influenciada por essa corrente de pensamento – parece-me mais fácil, rápido e objetivo adotar essa lente em alguns momentos. O que mais impressionou-me na leitura para esta aula, contudo, foi perceber o método de Popper (1979) tão próximo daquilo que temos estudado/revisado em Métodos Quantitativos: a “hipótese nula” dos nossos softwares estatísticos passaram a fazer mais sentido a partir de então.


Referências

COMTE, A. Discurso sobre o espírito positivo. Porto Alegre: Globo; São Paulo: USP, 1976. 
DORTIER, J-F. Le cercle de Vienne et le nouvel sprit scientifique. In: Sciences Humaines, hors-série, septembre, 2000. (Tradução livre.) 
DURKHEIM, E. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
PADOVANI, U. CASTAGNOLA, L. O criticismo kantiano e o positivismo In: PADOVANI, U. CASTAGNOLA, L. História da filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1990.
PARSONS, T. Sugestões para um tratado sociológico da teoria das organizações In: ETZIONI, A. Organizações complexas. São Paulo: Atlas, 1967. 
POPPER, K. A lógica da investigação científica. In: POPPER, K. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
WITTGENSTEIN, L. Tractatus logico-philosophicus. São Paulo: USP, 1961.