As Bases Positivistas do Programa Future-se

 Pequeno ensaio produzido pela acadêmica de doutorado Monica F C Pedrozo Gonçalves

Este breve ensaio pretende apresentar questões fundamentais do paradigma da ciência moderna, representados aqui pelo empirismo de Bacon e racionalismo de Descartes e sua relação com as políticas públicas educacionais, especificamente, no que tange ao Programa Future-se (BRASIL, 2019).

Conforme Kneller (1980), a ciência é histórica uma vez que é uma atividade, uma instituição e um corpo de conhecimentos que se modificam no tempo em prol da busca de uma completa explicação da ordem da natureza.

No contexto de desenvolvimento das ciências, a ciência moderna, constituída na Europa do século XVI, caracteriza-se pela crença na capacidade do homem em transformar a sociedade. É um período no qual predomina-se a ideia de que a ciência e a técnica podem desvendar toda a realidade, além da certeza de que a razão humana tem a capacidade de conhecer toda a complexidade que envolve a subjetividade.

Os filósofos Bacon e Descartes, foram representantes da ciência moderna e desenvolveram em seus  estudos, o empirismo e o racionalismo, respectivamente. Bacon elabora e apresenta o método experimental que tem por objetivo descrever todas as condições em que um fenômeno ocorre. A investigação minuciosa dos diferentes casos individuais e a combinação entre eles, leva a produção do conhecimento, ou seja, compreender as formas como os fenômenos acontecem significa entender as possibilidades de manipulá-los. Segundo Bacon (1979), a melhor demonstração é a experiência, desde que se dedique rigorosamente ao experimento e não se aplique a outros fatos entendidos como similares, a não ser que se proceda de forma metódica e correta.

Descartes, por sua vez, fundamenta seus estudos na dúvida, e a converte em um método, pautado na razão. Para ele, nada é tão verdadeiro que não possa ser colocado em dúvida. Neste sentido, encaminhou seus estudos especialmente na matemática, na qual oferecia a certeza de suas razões. Os estudos ligados a poesia e às línguas não eram férteis para o espírito, considerando que tais estudos não conseguiriam tornar as coisas mais claras e distintas. Descartes (1979) defendia que não existia tanta perfeição nas obras compostas por várias peças e feita pela mão de vários artistas, pois para ele, todos os corpos eram semelhantes, o que se diferencia entre eles, é a mente pensante. 

A reverência à ciência na racionalidade, embora tenha tido muito avanços, sobretudo, do ponto de vista tecnológico, revela também questões passíveis de críticas. Conforme Souza Santos (1989), o paradigma científico da racionalidade nega o caráter racional de outras formas de conhecimento que não se sustentaram nos seus princípios e regras epistemológicas e metodológicas, o que revela o caráter arbitrário do método. Ademais, este paradigma considera que, o que não é quantificável é cientificamente irrelevante, o que denuncia um desprezo ao conhecimento intersubjetivo, descritivo e compreensivo.

As orientações oferecidas pelo paradigma da racionalidade remetem a uma questão atual, que interfere em questões científicas, formativas e sociais das universidades públicas federais brasileiras, a saber, o Programa Future-se. O referido programa foi lançado em 2019 (BRASIL, 2019), com a proposta de transformar de forma inédita e inovadora, a cultura nas instituições públicas de ensino superior, conferindo-lhes maior autonomia. Trata-se de uma proposta de Projeto de Lei que teve sua primeira versão lançada em julho de 2019, a segunda versão em outubro de 2019 e a terceira versão em janeiro de 2020.

Fonte: Elaboração própria

À medida que as versões eram lançadas seguiam-se um período de análise crítica. O Future-se foi objeto de muitas críticas da comunidade científica, uma vez que provocou controvérsias e preocupações às comunidades universitárias das instituições envolvidas e aos cidadãos do país que defendem a ideia da educação superior estatal pública. Giolo, Leher e Sguissardi (2020), advertem que no Future-se é evidenciado o autoritarismo do método, considerando que não houve um diálogo prévio com os agentes destinatários da proposta. Ademais, as proposições contidas no Programa apontam para a desresponsabilização do Estado em relação ao financiamento do ensino superior e atendem a um modelo de gestão voltado para a privatização. 

No programa Future-se, é possível perceber a sustentação em bases positivistas, reveladas inicialmente pela própria arbitrariedade do método que não ousou ouvir, dialogar com as instâncias envolvidas. O positivismo tem como fundamento a concepção de verdade como um princípio absoluto. Outrossim, o positivismo possui em sua essência, a base nos métodos científicos, pautando-se sob a égide do capitalismo e no progresso advindo da industrialização.

Deste modo, é importante ressaltar que o papel das universidades federais está diretamente vinculado com a vida social e política do país e, portanto, as diretrizes das políticas públicas educacionais impactam no desenvolvimento científico, social e formativo da universidade.

Faz-se necessário uma ruptura do paradigma dominante, daquilo que é estabelecido e vigente, no que tange a ciência e a sociedade, trabalhando dentro de uma concepção que entenda o natural e o social como eixos indissociáveis. É relevante que os indivíduos, enquanto sujeitos que interagem com esta realidade, assumam o desafio de exigir mudanças e se coloquem no papel de agentes de transformação, não somente como sujeitos sociais, mas também numa perspectiva diferente de constituição da pesquisa científica.

Referências

BACON, F. Novum Organum. In: Francis Bacon. Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979.
BRASIL. MEC lança programa para aumentar a autonomia financeira de universidades e institutos. Brasília: 2019. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/component/content/index.php?option=com_content&view=article&id=78211:mec-lanca-programa-para-aumentar-a-autonomia-financeira-de-universidades-e-institutos&catid=212&Itemid=86>. Acesso em: 07 out. 2019.
DESCARTES, R. Discurso do Método. In: René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
GIOLO, J.; LEHER, R.; SGUISSARDI, V. FUTURE-SE: ataque à autonomia das instituições federais de educação superior e sua sujeição ao mercado. São Carlos: Diagrama Editorial, 2020.
KNELLER, G. F. A Ciência como atividade humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.
SANTOS, B. de S. Um discurso sobre a ciência. Porto: Afrontamento, 1989.

A Ciência do Poder

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica de doutorado Ana Luiza Leite

Desde que nascemos, buscamos entender o mundo à nossa volta. Inicialmente, somos guiados pelas ideias e conhecimentos de nossos familiares, até que se esgotam e começam os “porque sim” e “porque não”. Todo esse poder dos adultos, essa influência, vai se perdendo aos poucos, quando vamos descobrindo que ninguém sabe de nada, isto é, que nenhum saber é exatamente seguro (BACON, 1979). E o mundo e a vida ainda são grandes incógnitas para todos. Aí buscamos o tal do poder, o tal do controle (necessidade intrínseca à natureza humana), na busca de novos conhecimentos, sem deixar de ter fé (o caminho é árduo). Buscamos a tal da ciência. Que a ciência é poderosa já sabemos. Desenvolvo esse ensaio a fim de exaltar a ciência moderna como uma Ciência do Poder devido às suas características.

Descartes (1979) entende que somos como um edifício projetado desde a infância por muitos arquitetos, ou seja, caso usássemos do raciocínio desde criança, o nosso relacionamento com o mundo poderia ser bem diferente do que se tem. Somos influenciados por ideias, opiniões, preconceitos, interpretações e intenções, bem como influenciamos os outros (BARBOSA et al., 2013). Ou seja, no sistema em que somos criados não precisamos raciocinar desde cedo, recebendo grande parte das influências justamente na infância. Ao longo do tempo, vamos construindo nossas próprias ideologias que estão carregadas de influência do que nos é apresentado, do que a ciência nos mostra.

Da mesma forma, no campo científico, somos influenciados por relações de força que estabelecem tendências e orientações para produção e reprodução do conhecimento (BARBOSA et al., 2013). Contudo, a Ciência Moderna nos apresenta que a ideologia mais inteligente é aquela que se escamoteia (ocasiona o desaparecimento sem que ninguém dê falta) na ciência e tem no intelectual uma figura importante na elaboração de argumentos de justificação do poder (DEMO, 1985). Isto é, na Ciência Moderna a ruptura epistemológica simboliza o salto qualitativo do conhecimento do senso comum para o conhecimento científico (SANTOS, 1995).

O que tento apresentar, singelamente, aqui, é como a Ciência Moderna ganhou poder e força ao longo do tempo, isto é, como imiscuiu-se entre os homens sem ser percebido, de modo disfarçado e carregado de subterfúgios (BARBOSA et al., 2013). Descartes (1979) traz o entendimento que está mais próximo de ser verdadeiro, o simples raciocinar de um homem de bom senso a respeito das coisas do mundo do que a ciência que está contida em livros que reúnem opiniões de diversas pessoas. Mas então, como fazer ciência? Descartes e Bacon tentam nos mostrar a mais adequada forma de fazer ciência: racionalidade e experimentação, respectivamente. Assim, influenciaram pesquisadores, ganharam força, adquiriram poder, esbanjaram autoridade científica e construiu-se um paradigma dominante na ciência. Os dominantes são aqueles que impõem a definição de ciência e determinam que a realização ideal consiste em ter, ser e fazer aquilo que eles têm, são e fazem (BOURDIEU, 1976, apud BARBOSA et al., 2013).

Fonte: Bio Diversidad La (2017)

No campo da Administração, por exemplo, notamos um campo científico contendo lutas de poder, monopólios, estratégias, relações de forças, interesses particulares, de lucro etc. O próprio sistema de capitalismo agrega o apetite por novos conhecimentos, de simpatia pela experimentação e de uma robusta crença na exploração da natureza (KNELLER, 1980). Na nossa própria família, vivemos em uma hierarquia onde há constantes influências e autoridades. Ou seja, como a ciência não irá apresentar poder, se tudo a nossa volta (família, trabalho, escola, sistema econômico) está impregnado dele? Longe de esgotar as discussões, Barbosa et al. (2013) buscaram reafirmar o entendimento de que o fazer científico envolve uma atividade humana que possui vínculo indissociável com espaço, tempo e imbrica-se com jogos de poder.

Lembro-os que a Ciência é uma atividade humana complexa, histórica e coletivamente construída, que influencia e sofre influências de questões sociais, tecnológicas, culturais, éticas e políticas (KNELLER, 1980). Falamos, então, um pouco sobre algumas características da Ciência Moderna e seu envolto poder: corrigibilidade, objetividade e experimentação.

A corrigibilidade da Ciência é histórica na medida em que todo e qualquer enunciado ou conjunto de enunciados científicos está aberto à revisão ou substituição, à luz de novas provas ou novas ideias (KNELLER, 1980). Ah, o Poder da Humildade! Quando achamos que já temos todo o conhecimento, nos limitamos em aprender algo novo. Ou seja, tem que ter poder para convidar outros pesquisadores a realizarem correções e apresentarem novos estudos.

À medida que a Ciência foi crescendo tornou-se mais objetiva (KNELLER, 1980) e racional (DESCARTES, 1979). A objetividade e a racionalidade nos trazem o sentimento de fidedignidade, de certo, de adequado, de razão. Ora, o Poder estar justamente na razão, no entendimento, no pensar. Não é à toa que Penso, logo Existo, não é mesmo, Descartes?

A explicação, experimentação e demonstração com rigor também é uma característica importante na Ciência Moderna (BACON, 1979). Parte-se de uma hipótese e a consequente observação e classificação de um fenômeno em condições controladas. Condições controladas (humm) implicam poder. O que dizer, então, da quantidade de poder intrínseca a uma prova irrefutável?

Desta forma, a Ciência do Poder tem ganhado a dominação no modo de fazer ciência, conquistando o poder e o utilizando a seu favor ao longo do tempo. Contudo, conforme a continuidade do tempo e consequente evolução do conhecimento, a ciência tem passado por uma crise, onde surge um novo paradigma em busca do “poder”. A crise do paradigma da Ciência Moderna se explica por condições teóricas e sociais (SANTOS, 1995). A identificação dos limites, das insuficiências estruturais do paradigma científico moderno e o resultado do grande avanço no aprofundamento do conhecimento, permitiram ver a fragilidade dos pilares em que se funda (SANTOS, 1995). Os questionamentos que me resta são: o poder pode ser transferido a esse novo paradigma emergente? Terá esse novo paradigma características suficientemente impregnadas de poder?

Referências

BACON, F. Novum Organum In: Francis Bacon. Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979. p. 1-21. (trechos escolhidos)
BARBOSA, M. A. C. et al. Nem só de debates epistemológicos vive o pesquisador em administração: alguns apontamentos sobre disputas entre paradigmas e campo científico. Cadernos EBAPE.BR, v. 11, n. 4, p. 636-651, 2013.
BIO DIVERSIDAD LA. [Imagem de uma mão segurando o globo terrestre.], 2017. Disponível em: <http://www.biodiversidadla.org/Documentos/Contra_la_dominacion>. Acesso em: set. 2020.
DEMO, P. Demarcação científica. In: DEMO, P. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, 1985.
DESCARTES, R. Discurso do Método. In: René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
KNELLER. A Ciência como Atividade Humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 15-29.
SANTOS, B. de S. Um discurso sobre as ciências. Afrontamento, 1995.

Ativismo Científico nas Redes Sociais

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica de doutorado Vanessa Regina Ostrowski

Em nossa sociedade moderna, com advento das mídias sociais, observa-se o surgimento de uma nova profissão: “influencer”; este profissional é um novo tipo de endossante, teoricamente independente, de comportamentos, atitudes. A existência dos influencers pode ser um grande problema para uma sociedade como a brasileira, pois inúmeros são aqueles que, munidos de ideologias, deturparam fatos, buscando adesão de um grande número de seguidores. Entretanto, esta pode ser uma oportunidade de a ciência aproximar-se da sociedade, pois a comunidade científica para além de discutir metodologias, epistemologias e ontologias precisa contribuir para o avanço da sociedade.

Por meio de plataformas de mídia social como Twitter, Instagram e Facebook os influencers ditam as preferências e os gostos de seus seguidores, sendo reconhecidos como líderes (FREBERG et al., 2011). Os influencers não possuem necessariamente uma formação na área ou áreas a respeito da qual opinam. Eles defendem seus pontos de vista e lidam com as expectativas de um público amplo e variado. Um público carente de ídolos que forneçam atalhos, respostas rápidas e informações instantâneas. Na defesa de ideologias, os influencers utilizam-se de informações incorretas, imprecisas, falaciosas e colocam uma capa de ciência objetiva para justificar seus posicionamentos.

Fonte: Horvath (2019)

A falta de conhecimento profundo nos temas, bem como a falta de reflexão a respeito das opiniões emitidas podem ser especialmente prejudiciais em sociedades pouco críticas como a brasileira. No Brasil, há um problema estrutural, qualidade da educação, apesar da narrativa de aumento dos investimentos no setor, os resultados do PISA (Programme for International Student Assessment) demonstram a estabilidade de resultados medíocres nas últimas duas décadas (ver: www.pisa.oecd.org) Os resultados demonstram o parco conhecimento dos conceitos de ciência e o letramento dos adolescentes brasileiros. Esta informação torna-se ainda mais preocupante quando nos atentamos que o teste é realizado com as escolas que tiveram o melhor desempenho no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio).

Segundo relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 2019 no Brasil, apenas 21% dos jovens entre 25 e 34 anos possuem ensino superior e entre pessoas de 24 a 64 anos, somente 0,84% concluíram o mestrado e 0,11% finalizaram o doutorado. Os baixos índices de educação formal demonstram a fragilidade do pensamento crítico da população em geral. Neste cenário, faz-se necessário que a comunidade científica também desenvolva seus influencers, ocupe espaço nas mídias sociais e dissemine a ciência de forma mais simples a sociedade, pois a linguagem acadêmica por vezes é inteligível ao não acadêmico.

Há em nossa sociedade grupos que fomentam a disseminação de conhecimento científico por meio de canais diversos, como documentários, revistas, reportagens com intuito de popularização da ciência. Esses canais buscam, por meio de linguagem comum, vídeos ilustrativos, por vezes divertidos, demonstrar conceitos científicos complexos ao público em geral. Estes influencers vêm ganhando espaço nas mídias sociais, canais como Nerdologia, Neurovox, Casa do Saber, Superleituras são canais de destaque nessa área. Quando a pessoa comum passa a compreender a ciência fica mais difícil ser captada por ideólogos. O fazer científico cada vez mais científico, mesmo que isso seja um ideal intangível (DEMO, 1985) deve ser buscado, assim como a divulgação ampla do conhecimento.

Fonte: Png Image (2020)

Desde a modernidade o conhecimento científico foi o tipo de conhecimento mais difundido na humanidade e propõe além de conhecer os problemas da humanidade resolvê-los, procura além de conhecer, transformar a realidade (SANTOS, 1988). A ciência não é soberana, pelo contrário ela se reconstrói e se reinventa constantemente, entretanto quando uma teoria é sancionada outras são caladas (DEMO, 2012). Esse movimento impulsiona o progresso da ciência e deveria ser puramente científico, contudo o conhecimento é uma fonte de saber e, como tal, está sujeito às relações interpessoais e subjetividades.

O saber é poder (BACON, 1973), esta frase já foi pronunciada por inúmeros pensadores e cientistas. Por isso, a comunidade científica tem como dever disseminar conhecimento e contestar ideologias que prejudiquem a sociedade como um todo. À medida que a ciência se desenvolve o homem percebe-se como possuidor da capacidade de dominar o mundo (KNELLER, 1980). Faz-se muito importante que esta percepção seja compartilhada pela sociedade como um todo não apenas por grupos isolados que podem manipular a sociedade em prol de suas causas. As mudanças na sociedade são acompanhadas pela ciência, os influencers são apenas mais uma mudança, uma adaptação pela qual iremos passar. Os influencers ideólogos são apenas mais um problema gerado pela própria ciência ao gerar soluções para a comunicação.

A ciência é histórica no sentido de que é um processo em constante evolução, à medida que novos conhecimentos são constituídos para solucionar problemas, novos problemas são gerados (KNELLER, 1980). Não haverá momento em que a ciência será superada, pois seu objeto de estudo é a realidade que está em constante mudança. A ciência tem como questão central explicar a realidade da melhor maneira possível, contudo esta explicação será sempre parcial e imperfeita (DEMO, 1985).

O avanço da ciência, as complexidades e incertezas da atualidade demandam um ativismo científico com intuito de divulgar a ciência em canais não tradicionais. A ciência além de formar cientistas deve formar influencers, comunicadores que possam traduzir a linguagem científica ao cidadão comum, que possa conquistar e apresentar os paradigmas científicos não como verdades absolutas, incontestáveis, mas como verdades que estão sendo construídas e reconstruídas com o passar do tempo (KNELLER, 1980).

Referências

BACON, F. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza (1620). Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, Livro XIII, 1973.
DEMO, P. Metodologia Científica em Ciências Sociais. Atlas, 1985.
DEMO, P. Ciência Rebelde: para continuar aprendendo, cumpre desestruturar-se. São Paulo: Atlas,2012.
FREBERG, K.; GRAHAM, K.; MCGAUGHEY, K.; FREBERG, L. A. Who are the social media influencers? A study of public perceptions of personality. Public Relations Review, 37 (1), 2011, 90–92.
HORVATH, V. [Digital Influencer: Como se tornar um Influenciador Digital e ganhar dinheiro produzindo conteúdo para Redes Sociais.], 2019. Disponível em: <http://agenciafirma.com.br/blog/digital-influencer-como-se-tornar-um/>. Acesso em: out. 2020.
KNELLER, G. F. A ciência como atividade humana. Zahar, 1980.
SANTOS, B. de S. Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna. Estudos Avançados, 2 (2), 1988, 46–71.
PNG IMAGE. [Imagem de uma lâmpada com diferentes elementos vinculados às redes sociais]. Disponível em: <https://pngimage.net/fikir-png-8/>. Acesso em: out. 2020.

Racionalismo e Empirismo: opostos que se atraem?

Pequeno ensaio produzido pelo acadêmico de doutorado Luis Antonio Pittol Trevisan

“Cogito ergo sum” (Penso, logo existo) é uma das máximas mais populares da filosofia. Escrita por René Descartes (1596 – 1650 d.C.), a célebre frase, lida de relance, parece despretensiosa. Contudo, a simplicidade da afirmação oculta uma imponente declaração: a de que o conhecimento só se obtém por meio da razão e que a única certeza alcançável é a da própria existência. Essa crença no “racionalismo” se chocava com a corrente então propagada por Francis Bacon (1561 – 1626 d.C.) de que o conhecimento do mundo não provinha da razão, mas sim da experiência, visão esta denominada “empirismo” (KIM, 2016; STOKES, 2016).

Alcunhado por alguns como o pai da filosofia moderna, Descartes afirmava que a razão é o instrumento fundamental do conhecimento e da verdade espiritual, e que o exercício da razão, não a percepção dos sentidos ou a revelação “divina”, forneceria a única base válida para a ação e a crença. Com o objetivo de fornecer fundações firmes ou “ordem” para a produção do conhecimento, elaborou um “método da dúvida” com o objetivo de questionar a origem de crenças e testar a sua (in)falibilidade (DESCARTES, 1979; STOKES, 2016; RUSS, 2015).

(...) produziu um método de quatro fases de investigação científica, baseado em matemática: não aceite nada como verdade, a menos que seja evidente; divida problemas em partes simples; resolva os problemas passando dos simples aos complexos; e por último, verifique seus resultados. Ele também desenvolveu o sistema cartesiano de coordenadas – com eixos x, y e z para representar pontos no espaço, usando números (HART-DAVIS, 2016, p. 332).

Partindo do pressuposto de que boa parte das crenças são derivadas de sentidos e percepções, Descartes desconfia e põe em dúvida todas as supostas certezas obtidas por estes meios por acreditar que, frequentemente, podem levar a enganos, incertezas e falhas (STOKES, 2016).

Vejamos, abaixo, um exemplo de como o cérebro interpreta o que vemos e como molda nossa percepção da realidade:

Fonte: The Illusions Index (2020)

A ilusão ótica acima engana nossos sentidos e nos induz a enxergar vários pontos pretos quando somente existem pontos brancos. Em verdade, nosso sistema sensorial parece não conseguir processar com precisão todas as informações, levando a uma interpretação equivocada. Descartes, assim, afirmaria que deveríamos rejeitar todo conhecimento perceptivo, pois é baseado em frágeis alicerces. Constata-se, assim, uma intenção de mudança de foco – ou até mesmo de separação –, daquilo que é pensado (objeto) para o que pensa (sujeito), ou seja, da realidade para a razão (KIM, 2016).

Esta certa autonomia do pensamento não afasta uma questão crucial: a razão é capaz de produzir o conhecimento genuíno do real e da compreensão do mundo? Autores como Immanuel Kant e Gottfried Leibniz convalidariam o pensamento de Descartes ao acreditarem em um conhecimento a priori ou inato. Já autores como Francis Bacon, John Locke, George Berkeley e David Hume fariam parte da oposição e afirmariam que não existem ideias inatas, nem conceitos abstratos, e todo o conhecimento é fruto da experiência sensível, que vai preenchendo a mente como uma “página em branco” (KIM, 2016; STOKES, 2016).

A divergência quanto à origem do conhecimento, razão ou percepção dos sentidos, não afasta, todavia, um ponto de partida comum vigente na ciência: a centralidade do ser humano, e a busca pela natureza da mente humana e do “eu”.

Referências

BACON, F. Novum Organum In: Francis Bacon. Coleção os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979. p. 1-21. (trechos escolhidos)
DESCARTES, R. Discurso do Método. In: René Descartes. Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (trechos escolhidos)
HART-DAVIS, A. [et al]. O livro da ciência. 2ª. ed. São Paulo: Globo, 2016.
KELLY, Paul et al (Org.). O livro da política. São Paulo: Globo, 2013. 352 p. Tradução de: Rafael Longo.
KIM, D. O livro da filosofia. 1. Ed. São Paulo: Globo Livros, 2016.
KNELLER, G. F. A Ciência como Atividade Humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 15-29
RUSS, Jacqueline. Filosofia: os autores, as obras. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
STOKES, Philip. Os 100 pensadores essenciais da filosofia: dos pré-socráticos aos novos cientistas. 4ª. ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2016.
THE ILLUSIONS INDEX. [Imagem da ilusão de grade de Ludimar Herman (1838-1914)]. Disponível em: < https://www.illusionsindex.org/i/hermann-grid>. Acesso em: 02 set. 2020.

As escolhas individuais: do isolamento social ao campo científico

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica de doutorado Julia Viezzer Baretta 

Atualmente a sociedade vive um momento atípico em que as escolhas individuais trazem grandes impactos. Cuidados extremos com higiene, notícias diárias trágicas e o isolamento social preenchem a nossa vida cotidiana. Diante do caos da pandemia mundial, fomos forçados a modificar nossos hábitos e rever nossas ações, porém, nem todos encaram a situação da mesma forma. Ao mesmo tempo em que o Governo do Estado de Santa Catarina (2020) registra a maior taxa de isolamento social desde o início da pandemia, o Brasil registra os piores indicadores de isolamento social da América Latina (ZERO HORA, 2020). Apesar de todos estarem inseridos em um contexto mundial único, existem aqueles que reorganizam suas vidas, acumulam tarefas, se privam dos momentos em família e que sentem falta de respirar o ar puro fora de casa. Já outros, resolveram encarar a situação como o “novo normal”, seguem em suas tarefas diárias, frequentam bares e restaurantes e a disseminação do coronavírus que uns temem tanto, a estes, aparentemente, não assusta mais.

Tentando compreender os fatores que influenciam as pessoas a fazerem escolhas tão diferentes neste momento ímpar, podemos chegar à conclusão de que as decisões tomadas perante tal situação possam estar relacionadas às visões de mundo e as influências pessoais próprias dos indivíduos. Segundo Bracken (2010) existe uma perspectiva conceitual de que os comportamentos e ações humanas são amplamente determinados por estímulos que não são de sua própria autoria. Assim, crenças, valores, conhecimentos profissionais, ensinamentos familiares e as influências políticas e ideológicas refletem, mesmo que inconscientemente, nas ações. Dessa forma, meu argumento nesse short paper será: “As visões de mundo individuais influenciam nas escolhas cotidianas e científicas”.
 
Fonte: https://www.gotasdepaz.com.br/escolhas-4/ (2020)
 
A diversidade de pensamento e ações, traduzidas em escolhas individuais, refletem em todos os aspectos do convívio social, inclusive no fazer ciência. Cada um possui a sua maneira de ver a realidade social, assim como um pesquisador adota diferentes perspectivas ontológicas (BRACKEN, 2010). Nas produções científicas, os pesquisadores utilizam de procedimentos metodológicos para alcançar resultados de formas legítimas, mas ao mesmo tempo constroem teorias repletas de suas próprias ideologias e conceitos políticos (DEMO, 1985). A construção do conhecimento, conceituada como epistemologia, é permeada por nossas visões ideológicas (BRACKEN, 2010). Não existe na área científica a descrição pura, pois a ela é sempre agregada de algo construído pelo pesquisador (DEMO, 1985) da mesma forma ocorrem nas nossas decisões cotidianas.

Tais escolhas são seguidas de justificativas. O fato de estar incomodado por estar confinado é a razão daqueles que optam por não seguir a risca o isolamento social, da mesma forma o argumento de que esta é a única saída no momento é defendido por aqueles que estão reclusos. Da mesma forma os pesquisadores buscam justificar os resultados encontrados nas suas pesquisas, por meio de justificativas, que vão além de argumentos (DEMO, 1985), seja através da escolha das teorias, métodos ou objetos de estudo. As suposições individuais sobre a realidade social dão origem a diferentes preocupações de pesquisa e baseiam as maneiras de como conduzi-la (BRACKEN, 2010).

Porém, percebe-se a falta de críticas relacionadas a essas justificativas, principalmente autocríticas. É importante que haja uma reflexão sobre nossas escolhas, no sentido de tentar compreender de que forma ela pode ser falha, e não está contribuindo para a sociedade, ou buscando entender as perspectivas alheias também existentes. O mesmo comportamento é evidenciado desenvolvimento de pesquisas, Demo (1985) afirma que a crítica e a autocrítica são critérios de validação científica. Alperstedt e Andion (2017)
destacam a importância da realização de pesquisas que busquem além do funcionalismo, resultados que gerem impacto social. Bracken (2010) ao analisar pesquisas, identifica que mesmo quando não atingidos os resultados esperados, nunca são apontados como defeituosos os projetos de pesquisas propostos por seus próprios autores. Demonstrando assim que não existem reflexões a respeito das escolhas e as consequências que elas geram, seja no âmbito acadêmico ou no convívio social. 
 
Fonte: Julia (2020)

Por fim é importante enfatizar que diante de um cenário incerto, composto de tantas dúvidas e falta de instruções padronizadas por parte dos governantes, a opções individuais estão relacionadas ás visões e experiências de cada um, refletindo pensamentos próprios, assim como os cientistas devem saber que seus resultados se tratam de uma opção, relacionada a uma teoria (Demo, 1985), que interligadas as suas concepções, geram resultados, mas não representam verdades absolutas. Ou seja, é importante ter conhecimento a respeito das escolhas individuais – científicas ou não – tendo consciência de que estão repletas de heranças pessoais.

Referências

ALPERSTEDT, G. D.; ANDION, C. Por uma pesquisa que faça sentido. Revista de Administração de Empresas, v. 57, n. 6, p. 626-631, 2017.
BRACKEN, Seán Discussing the Importance of Ontology and Epistemology Awareness in Practitioner Research. Worcester Journal of Learning and Teaching, v. 4, 2010, p. 1-9. Disponível em: <https://eprints.worc.ac.uk/843/>. Acesso: set. 2020.
DEMO, P. Demarcação científica. In: DEMO, P. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 1985. 
GOVERNO DO ESTADO DE SANTA CATARINA. Coronavírus em SC: Governo do Estado amplia medidas de isolamento social para 10 regiões. Notícias, Florianópolis, 24 jul. 2020. Disponível em: <https://www.sc.gov.br/noticias/temas/coronavirus/coronavirus-em-sc-governo-do-estado-amplia-medidas-de-isolamento-social-para-dez-regioes>. Acesso em: 24 ago. 2020.
HARTMANN, Marcel. Brasil tem piores indicadores de distanciamento social da américa latina. Zero Hora, GZH Coronavírus Serviço, Porto Alegre, 17 abr. 2020. Disponível em: <https://gauchazh.clicrbs.com.br/coronavirus-servico/noticia/2020/04/brasil-tem-piores-indicadores-de-distanciamento-social-da-america-latina-ck94irdl000ig014qbor5o93g.html>. Acesso em: 25 ago. 2020. 
JULIA, L. [Cute children boy and girl in medical mask is sitting at home in quarantine.] In: SHUTTERSTOCK. 2020. Disponível em: <https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/cute-children-boy-girl-medical-mask-1682895007>. Acesso em: set. 2020.

CORDEL EPISTEMOLÓGICO

Trabalho produzido pelos acadêmicos de doutorado, Hudson Oliveira, e de mestrado, Flávio Monteiro, sob a orientação da professora Carolina Andion, no comitê da aula sobre conhecimento e discurso sobre as ciências.


“ROMANCE E CRISE DA CIÊNCIA”


Fonte: Sev. Borges


I

FILHA DO MÉTODO E DA RAZÃO

A VAIDOSA DONA CIÊNCIA

DE SOBRENOME “NATURAL”

Fonte: J. Victtor


CASOU-SE COM UM RAPAGÃO

TAMBÉM CHAMADO CIÊNCIA

DE SOBRENOME “SOCIAL”


II


TIVERAM UMA LINDA FILHA

CHAMADA “CIÊNCIA MODERNA”

É OBEDIENTE AO MÉTODO

E DA RAZÃO É SUBALTERNA


Fonte: shutterstock.com


COM O POVO NÃO SE MISTURA

É CONSIDERADA ARROGANTE

ELABOROU UMA ESTRUTURA

O “PARADIGMA DOMINANTE”!


III


A TEORIA QUÂNTICA E O ANTIPOSITIVISMO,

O CONHECIMENTO SOBRE SI E OUTROS DESLIZES

ABALARAM IRREVERSIVELMENTE O PARADIGMA

QUE NUM CHILIQUE ENTROU EM CRISE


IV


FLERTA AGORA COM O SENSO COMUM

CABRA MUITO POPULAR

SE APROXIMANDO DAS GENTES

NO “PARADIGMA EMERGENTE”


V


DIZEM POR AÍ QUE OS DOIS VÃO SE CASAR

E SE APROXIMAR DO POVO E DO ARTISTA

SEMPRE JUNTOS MONTADOS NO LOMBO

DO JEGUE CHAMADO CIENTISTA!


Fonte: J. Borges

A teoria ator-rede e o fenômeno das fake news: uma fábula da pós-modernidade?

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica de mestrado Kely Mattos de Figueiredo.

A Teoria Ator-Rede (TAR), ou Actor-Network Theory (ANT), também conhecida como sociologia das associações, consiste num aporte teórico-metodológico que foi desenvolvido por Bruno Latour, Michel Callon e John Law, visando, a princípio, contribuir para os estudos de ciência e tecnologia através de um olhar aprofundado sobre as noções de espaço e lugar, de micro e macro, de estruturas e de interações locais. Interrompendo as noções de escala, ela vê conexões e articulações entre atuantes num espaço relacional plano. (LATOUR, 2012).

Tal teoria destaca-se por evidenciar a proposição hipoteticamente simétrica entre as relações humanas e aquilo que denomina como não-humanos, a exemplo de objetos, animais, fenômenos da natureza e artefatos materiais, ou seja, toda a variedade de elementos que perpassam a condição humana (LATOUR, 2012). 

Nesse sentido, quando os humanos se relacionam e interagem com os não-humanos, acabam por formar associações, produzindo, assim, os fenômenos sociais (LATOUR, 2012). Assim, a referida teoria compreende a sociedade como nada mais do que o resultado das muitas associações estabelecidas entre os citados anteriormente (LATOUR, 2012). 

Neste contexto de interação entre humanos e elementos não humanos, surge a problemática das fake news, fenômeno social proliferado principalmente nos últimos anos pela relação humano-tecnológica, cujas consequências são a proliferação, principalmente, de conteúdos falsos/extremistas e de cunho geralmente duvidoso. Contudo, é errôneo pensar que se trata de um fenômeno moderno: a desinformação (dito pela Unesco como o termo mais coerente a ser utilizado, apesar de muitos associarem o termo como sinônimo de fake news) é um velho conhecido das sociedades, embora tenha sido substancialmente nutrido por novas tecnologias (UNESCO, 2018).

Fonte: Artuzi (2019).
Neste sentido, é sabido que e a manipulação de informações era uma característica historicamente conhecida muito antes do jornalismo moderno estabelecer os padrões que definem as notícias como um gênero contendo regras particulares de integridade (UNESCO, 2018), contudo, o avanço das tecnologias e das mídias sociais contribuem para a repercussão rápida desse tipo de informação (UNESCO, 2018).

Posto isto, é de conhecimento dos mais “sabidos” que as tecnologias disponíveis hoje podem simplificar a manipulação e a fabricação de conteúdo, incluindo o protagonismo (e o papel de vilã) das redes sociais para ampliar diariamente as “verdades absolutas”, vendidas por Estados, políticos e entidades corporativas, e visando o compartilhamento e a credulidade da massa não-crítica (LATOUR, 2012). Desse processo, pode-se dizer que o estrago começa a tomar proporções largas para a desestabilização social – das micro às macro sociedades e/ou grupos.  

A questão é que a desinformação, em contexto de polarização, vem pouco a pouco dominando os contextos da vida cotidiana – seja pelo compartilhamento de alguma “corrente do WhatsApp”, ou a postagem de notícias sensacionalistas de fontes duvidosas, principalmente em redes sociais, como o Facebook. (UNESCO, 2018).

A consequência disso tudo é que o fenômeno da desinformação (ou demais sinônimos) vai ao encontro do que Latour (2012) chama de “social”: não se trata de uma coisa homogênea, muito pelo contrário; não distingue uma coisa das outras, “como um carneiro negro entre carneiros brancos, e sim um tipo de conexão entre coisas que não são, em si mesmas, sociais” (LATOUR, 2012, p. 23).

Assim sendo, tal conexão entre as redes estabelecidas faz parte o indivíduo ser o que ele é, sem o separar de suas ações – o que sugere a reflexão acerca do fato que a identidade dos indivíduos não existe sem a glória e a “desgraça social.” (LATOUR, 2012). Isso porque, segundo o autor, (1) se um indivíduo junto com demais criou recursos de comunicação e tecnologia pensando na agilidade das relações sociais; (2) e se o uso de tais recursos vem propiciando, igualmente, vantagens e distúrbios coletivos, (3) o resultado dessa fábula reavivada na pós-modernidade é culpa e também parte intrínseca de nossas vidas – individuais e coletivas.

Portanto, um dos objetivos pertinentes da TAR junto ao fenômeno abordado seria o de elencar possíveis olhares sobre como se engajar à educação da sociedade em tempos de pós-verdade. Assim, por exemplo, ao invés de se adotar uma abordagem puramente técnica e sistematizada, como a dos livros didáticos, pode-se procurar uma estratégia didática holística, isto é, ao invés de ensinar simplesmente que a terra é redonda ou que vacinas funcionam, é pertinente discutir quais são as evidências que sustentam essas ideias e como essa rede tenta ser desarticulada por programas concorrentes e vice-versa. Nesse contexto, pode-se discutir, também, as questões de poder e de disputa que envolvem as práticas sociais, incluindo a científica. (LIMA et al., 2019).

Ao atar os atores em suas redes, denota-se, assim, que aquilo que fortalece uma proposição é a rede que ela articula e não uma suposta objetividade. Assim, quando propostas alternativas se apresentarem para a opinião pública, elas terão que mobilizar uma rede satisfatória para fazer frente ao que já foi massificado. Essas medidas, contudo, não garantem que as pós-verdades serão abandonadas; mas, ainda que paulatinamente, busca contribuir para a formação de cidadãos com maior possibilidade de desenvolver um olhar reflexivo sobre o que lhes é apresentado. (LIMA et al., 2019; LATOUR, 2012).

À guisa de conclusão, cabe refletir a respeito do comportamento da sociedade frente a fenômenos amplificados e intensificados pelos artefatos tecnológicos, de modo que se seja possível a ressignificação de ações subjetivas daqueles que participam desta atuação-rede, formando cidadãos capazes de analisar criticamente não só as informações recebidas, mas o contexto que cerca e, de tal modo, discernir sobre os fatos, as consequências e, principalmente, questionar a bolha contemporânea que permeia a vida em sociedade. 

Referências:

ARTUZI, Thomás. [Imagem de pessoa sendo sugada por tela de celular.] In: GARATTONI, Bruno; SZKLARZ, Eduardo. Você tira o celular do bolso mais de 200 vezes por dia. Super Interessante, Comportamento, 23/09/2019. Disponível em: https://super.abril.com.br/comportamento/voce-tira-o-celular-do-bolso-mais-de-200-vezes-por-dia/. Acesso em: 17/11/2019.
LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria ator-rede. Bauru: EDUSC, 2012.
LIMA, Nathan Willig et al. Educação em ciências nos tempos de pós-verdade: reflexões metafísicas a partir dos estudos das ciências de Bruno Latour. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, v. 19, p. 155-189, 2019.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A
CULTURA (UNESCO). Journalism, ‘fake news’ & disinformation. France:
Unesco, 2018.

Pela indissociabilidade entre ciência, natureza e sociedade

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica de mestrado Camila Alves d’Avila.

A base dos problemas ambientais pode ser relacionada com o início da ciência: na busca de melhor compreender e dominar a natureza, o ser humano passou a distanciar-se dela. No século XVIII, o surgimento da Revolução Industrial fez com que essa situação se agravasse, uma vez que, por meio do racionalismo positivista e do princípio de eficiência, as noções de ordem e progresso eram propagadas enquanto motores da dinâmica social da época. Assim, esse movimento de afastamento ia se consolidando, ao passo que as pessoas se encantavam cada vez mais com os avanços da tecnologia e da ciência, conscientes apenas de uma realidade de curto-prazo (DE CAMPOS; PALMA, 2017). A produção do conhecimento, por sua vez, se referia às demandas estratégicas advindas de grandes indústrias, para contribuir na produção de novos produtos (FLORIANI, 2000). 

Aos poucos, as consequências desse ritmo desenfreado de produção começaram a emergir, trazendo consigo manifestações que defendiam um novo olhar sobre o desenvolvimento socioeconômico. Entre as décadas de 60 e 70, a proteção do ecossistema tornava-se pauta de estudos e debates, conquistando a atenção do público que assimilava sua relevância. Nesse contexto, os cientistas sociais não se mobilizavam suficientemente, fazendo com que o apoio por parte da academia se desse de maneira lenta. Foi só na década de 90 que as ciências sociais estabilizaram um bom nível de pesquisa e produção acerca do meio-ambiente. Em 1993, uma revista francesa chamada Nature, Science, Sociétés era lançada. Aqui, a noção de que essas três questões – natureza, ciência e sociedade – não deveriam ser desassociadas, começava a se legitimar (CHATEAURAYNAUD, 2015). Alguns anos depois, Floriani (2000) reforçava essa relação ao denunciar o poder de intervenção, por parte da ciência, na natureza e na sociedade:

uma das principais críticas dirigidas ao atual processo de produção do conhecimento científico deriva de sua hiper-especialização (leia-se fragmentação), trazendo graves consequências para o entendimento e a explicação da realidade, principalmente no domínio das ciências da vida, da natureza e também da sociedade; como as sociedades modernas estão apoiadas em bases produtivistas, ao conhecimento científico é imposta uma racionalidade instrumental, traduzindo-se em técnica intervencionista, tanto na natureza como na sociedade [...]. (FLORIANI, 2000, p. 5)

Dessa forma, dada a crescente consciência da indispensabilidade de um desenvolvimento sustentável, se fez urgente uma reconfiguração profunda na forma de fazer ciência, bem como nos paradigmas e nas interações sociais de forma geral. No campo científico, exaltava-se o preciso afastamento da “ciência pura”, totalmente livre de necessidade social, e da “ciência escrava”, dominada por demandas político-econômicas (MELO, 2011). A sociologia da ciência surge nesse meio, tendo como objeto de estudo os modos pelos quais as condições sociais influenciam a pesquisa científica e a difusão do conhecimento científico que, por sua vez, influenciam o comportamento social (BEN-DAVID, 1975).
Fonte: Tech Brasil Teaching School (2019).
Nesse campo, pode-se destacar a contribuição do antropólogo, sociólogo e filósofo Bruno Latour, reconhecido por defender a necessidade de construção de um novo mundo comum, coletivo e inclusivo. Em sua obra Politics of Nature (2004), ele formula a concepção de uma nova Constituição que ponderasse também os não-humanos, em nome da ecologia, e reafirma as conexões entre ciência, sociedade e natureza. Latour é principalmente renomado por ter sido um dos fundadores da Teoria Ator-Rede, que propõe uma redefinição do que se entende por “social” e dá total foco para a lógica das associações – também conhecida como sociologia das associações –, na qual humanos e não-humanos têm poder de agência. Assim, ator é aquele que produz ações para com sua rede que, respectivamente, é representada pelas conexões e interligações dessas ações (LATOUR, 2012; CHATEAURAYNAUD, 2015; DE CAMPOS; PALMA, 2017).

Ainda, por meio de sua afirmação de que “jamais fomos modernos”, Latour (1994) faz uma dura crítica ao racionalismo e a institucionalização de dicotomias, que buscaram purificar entidades e objetos, como exigência estabelecida pelo projeto epistemológico da modernidade. Ao verificar o trabalho prático da ciência, revela-se que essas polaridades são impossíveis de serem mantidas. Percebe-se, então, um rompimento do paradigma moderno da ciência, de padrão cartesiano e positivista, que reduz a complexidade dos fenômenos para compreendê-los de forma ordenada. Igualmente, a observação da realidade passa a ir além da ótica utilitarista e antropocêntrica, emergindo uma visão direcionada para a valorização do ecossistema em sua totalidade. Novamente, enfatiza-se que não é possível tratar a ciência, a sociedade e a natureza de forma isolada, pois estão intrinsicamente conectadas (MORIN, 2003; DE CAMPOS; PALMA, 2017).

Essa orientação sistêmica é fundamental para a promulgação dos princípios do desenvolvimento sustentável e abre um novo caminho para os estudos no campo da sustentabilidade, visto que essa “deve ser compreendida como um fenômeno complexo, a partir de conexões entre práticas heterogêneas, indissociáveis e em constante movimento” (DE CAMPOS; PALMA, 2017, p. 64). 

A partir dos argumentos aqui expostos, é esclarecida a relevância da sociologia da ciência, bem como da sociologia das associações, para o entendimento de que existe uma relação indissociável entre ciência, natureza e sociedade. Por sua vez, essa relação se faz importante para a consolidação de uma agenda socioambiental que, segundo Floriani (2000, p. 37), exige “o concurso desse diálogo interdisciplinar, no qual as ciências da vida, da natureza e da sociedade buscarão novas alianças”.

Referências:

BEN-DAVID, J. Sociologia da ciência. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1975.
CHATEAURAYNAUD, F. Environmental issues between regulation and conflict. Document de recherché du GSPR, Paris, EHESS, 2015.
DE CAMPOS, S; PALMA, L. Contribuições da teoria ator-rede para o estudo da sustentabilidade. Revista Metropolitana de Sustentabilidade, v. 7, n. 1, p. 47-67, 2017.
FLORIANI, D. Diálogos interdisciplinares para uma agenda socioambiental: breve inventário do debate sobre ciência, sociedade e natureza. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 1, p. 21-39, 2000.
LATOUR, B. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.
_____. Politcs of nature: how to bring the sciences into democracy. Cambridge: Harvard University Press, 2004.
_____. Reagregando o social: uma introdução à teoria do ator rede. New York: Oxford University Press, 2012.
MELO, D. A agenda do professor pesquisador em administração: uma análise baseada na sociologia da ciência. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2011.
MORIN, E. Introdução ao pensamento complexo. Lisboa: Instituto Piaget, 2003.
TECH BRASIL TEACHING SCHOOL. [Imagem de Globo terrestre.] Maestría: didáctica de la historia y la geografia em primaria. Tech Education, 2019. Disponível em:
https://www.techtitute.com/educacion/maestria/maestria-didactica-geografia-historia-educacion-primaria. Acesso em: 24/11/2019.

Da sociologia do conhecimento à sociologia da ciência

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica de doutorado Marília Ribas Machado.

Neste short paper serão abordadas as perspectivas sociológicas de Merton e de Bourdieu, assim como, de que forma a sociologia da ciência de Bourdieu consegue realizar correspondências além da teoria proposta em Merton.

A ciência passou por uma crise há algumas décadas e, naquele momento, os filósofos (responsáveis pelo fazer científico) foram convidados a justificar a ciência como um meio de acordo com os fins da sua utilidade econômica. Segundo Ben-David (1975), a sociologia da ciência caracteriza-se por estudar os modos pelos quais a produção científica e a difusão do conhecimento científico sofrem influências das condições sociais, bem como, de que forma a ciência influencia no comportamento da sociedade. 

A partir disso, Merton definiu a ciência a partir de uma perspectiva sociológica, como uma atividade social, possuidora de suas regras e de suas normas institucionalizadas (BEN-DAVID, 1975). Com isto, Merton procurou definir o ethos da ciência, ou a ciência como um campo com certo grau de independência e separada das demais instituições sociais, ou seja, uma instituição autônoma que não sofre influências da política, da economia, da teologia.

Nesse sentido, Merton (2013, p. 182) destaca algumas das principais características da ciência, afirmando que a “ciência é uma palavra enganosamente inconclusiva, que se refere a uma variedade de itens distintos, embora inter-relacionados entre si”. Ele ainda declara que a ciência é comumente usada para denotar um conjunto de métodos característicos por meio dos quais o conhecimento é certificado; um estoque de conhecimento acumulado que se origina da aplicação desses métodos; e, ainda, um conjunto de valores e costumes culturais que governam as atividades denominadas científicas. 

Tais costumes que governam a atividade científica propõem fundamentos derivados de objetivos e métodos baseados em fundamentos morais e técnicos, fundamentalmente. Merton (2013) elenca quatro chamados imperativos institucionais, compreendidos pela ciência moderna para fundamentar a atividade científica: universalismo; comunismo; ceticismo organizado; e desinteresse. 

O universalismo delimita uma dimensão impessoal da ciência, ou seja, caracteriza-se por considerar que as alegações da sociologia do conhecimento devem ser submetidas a critérios impessoais e pré-estabelecidos. O comunismo diz respeito ao fato de que as descobertas da ciência são produto de uma colaboração social dirigida para a comunidade. O  ceticismo organizado questiona determinada rotina estabelecida, da autoridade, além dos procedimentos constituintes do campo. E o desinteresse é um elemento básico da ciência. Merton não nega que há interesse e competição na instituição científica, porém afirma que esses impulsos interessados encontram poucas oportunidades de expressar-se.

Nesse sentido, a ideia do fazer científico proposto por Merton remete a uma ciência que é autônoma, independente e separada das demais instituições sociais. Em contraposição a isso, Bourdieu (2013) estabeleceu o debate acerca dos campos científicos, caracterizando o campo da ciência - a instituição científica - como um ambiente de lutas, embates e poder, tal qual ocorre em outros campos sociais. Para Bourdieu, o campo científico é coordenado por um sistema de relações objetivas entre posições adquiridas através de lutas simbólicas, que se autonomizou (relativamente) do espaço social. Além disto, é um sistema constituído por relações objetivas entre posições adquiridas em lutas anteriores. É, segundo ele, um espaço de intensa competição entre os concorrentes do campo, ou seja, um campo formado por forças e por intensos conflitivos, com o objetivo de conservar ou transformar o mesmo. Desta forma, o que está em jogo, em disputa, são os monopólios da autoridade científica.

Nesta perspectiva, por serem ambientes de lutas e disputas,  prevalece a ideia de que o campo científico legitima formas específicas de interesse,  produz e reproduz habitus próprios daquele campo. E, ao contrário da sociologia proposta por Merton, Bourdieu mostra que a ciência não é desinteressada; é produtora de determinadas formas específicas de interesse, com o intuito de aquisição de autoridade científica (capital científico). Bourdieu (2013) afirma ainda que as práticas científicas somente mostram-se desinteressadas quando se referem a interesses diversos, exigidos por um campo distinto. Desta forma, o que chamamos de “interesse” por uma atividade científica tem sempre dupla face.

Referências:

BEN-DAVID, J. Introdução. In: BEN-DAVID, J. et al. Sociologia da ciência. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1975. p. 1-32.
BLOOR, D. Conhecimento e imaginário social. São Paulo: Editora Unesp, 2009. Introdução.
BOURDIEU, P. O campo científico. In: ORTIZ, R. (Org.). A sociologia de Pierre Bourdieu. São Paulo: Olho d’Água, 2013.
MERTON, R. K. A ciência e a estrutura social democrática. In: MERTON, R. K. Ensaios de sociologia da ciência. São Paulo: Editora 34, 2013.