O objeto muda quando mudamos o modo de conhecê-lo? Epistemologia - Antropoceno - Transição Energética Justa

Ensaio produzido pelo acadêmico Leonardo Mosimann Estrella. 


A leitura de Greco (1999), Tsoukas & Chia (2011) e Japiassu (1991) suscitou a formulação de duas questões que avançam na discussão epistemológica e alcançam problemas concretos da Administração: o método e a raiz epistêmica modificam o objeto investigado? E, se todo conhecimento parte de recortes da realidade, é possível produzir um conhecimento que alcance algum grau de universalidade? A resposta proposta parte de uma aparente contradição. Entende-se que o método de pesquisa não modifica necessariamente a realidade material, mas modifica o objeto científico construído sobre ela; ao mesmo tempo, reconhecer essa mediação não implicaria aceitar que todo conhecimento seja apenas relativo. A possibilidade de generalização permanece, desde que a abstração retorne ao concreto e seja confrontada com suas determinações históricas.

Greco (1999) coloca a epistemologia diante de três questões fundamentais: o que é conhecimento, o que podemos conhecer e como conhecemos aquilo que afirmamos conhecer. A pergunta pela verdade, para o autor, portanto, não pode ser separada da pergunta pelas condições que permitem considerar uma afirmação como conhecimento. Japiassu (1991) acrescenta outro elemento: a ciência não encontra simplesmente seus objetos prontos na realidade. Ela os delimita, constrói conceitualmente e os submete a determinados procedimentos de investigação. A epistemologia torna-se, assim, como uma crítica às condições pelas quais um saber se constitui como científico.

É Tsoukas & Chia (2011), contudo, que tornam evidente a implicação desse problema para a Administração. Toda teoria carrega uma ontologia, isto é, uma concepção sobre aquilo que existe e sobre quais propriedades do fenômeno são relevantes, e uma epistemologia, que estabelece como podemos conhecê-lo. Mudar essas premissas pode mudar o objeto científico. A passagem proposta por Weick de organizations para organizing é um exemplo. O que antes era tratado como entidade estável passa a ser compreendido como processo, interação e produção contínua. A organização concreta continua existindo, mas o objeto teórico já não é o mesmo.

Não se trata, contudo, em afirmar que a realidade é desenvolvida de forma livre pelo pesquisador ou o seu olhar. Mas, de reconhecer que a realidade tende a ser mais rica que sua representação científica. O método seleciona, separa e organiza determinações do real. Seria por isso que Tsoukas & Chia colocam que uma teoria deve ser interrogada também a partir de seu campo de aplicação e dos limites além dos quais deixa de iluminar satisfatoriamente aquilo que pretende explicar. O problema epistemológico passa a seria menos escolher entre um objetivismo absoluto e um relativismo igualmente absoluto e mais compreender a relação entre o objeto real e o objeto construído pelo pensamento.

Introduzo o debate sobre o Antropoceno, para tentar evidenciar essa espécie de contradição. O mesmo processo histórico de transformação das relações entre sociedade e natureza, um tipo de clássico cientifico, pode ser apreendido por objetos distintos. Molion (2007), concentrando-se na climatologia, questiona séries de temperatura, atribuições de causalidade às emissões e limitações dos modelos de simulação climática. Seu objeto é construído prioritariamente pela mensuração físico-atmosférica, pelas escalas de tempo e pelos modelos empregados para explicar a variabilidade do clima. Danowski e Viveiros de Castro (2015) constroem outro objeto. Partem da crise ambiental para discutir o próprio horizonte civilizacional, o chamado fim do mundo e a possibilidade de um mundo sem nós. A questão deixa de ser apenas quanto a temperatura poderá variar e passa a envolver que humanidade produziu determinada relação com o mundo e que futuro essa relação se impõe.

A mudança do objeto torna-se ainda mais explícita quando o próprio conceito de Antropoceno é contestado. Haraway propõe pensá-lo em relação com Capitaloceno, Plantationoceno e Chthuluceno, deslocando o foco de uma humanidade abstratamente tomada para relações históricas, econômicas e multiespécies determinadas. Armiero (2021), por sua vez, chama atenção para o Wasteocene. Se procurarmos a marca da época apenas na geosfera, encontramos uma narrativa; se a procurarmos nos corpos, territórios e relações sociais que distribuem desigualmente contaminação e descarte, encontramos outra. Para Armiero, resíduo não é apenas uma coisa: são relações que produzem lugares e populações
descartáveis.

Aí reside talvez um ponto central desse debate proposto em alinhamento as referências principais deste texto (Greco, 1999; Tsoukas & Chia, 2011; Japiassu 1991): trocar a raiz epistêmica não necessariamente muda o concreto, mas muda aquilo que nele é identificado como determinação essencial. E essa mudança produz consequências. Se o problema é definido apenas como quantidade de carbono emitida, determinadas soluções aparecem. Se passa a ser definido também como desigualdade na apropriação dos recursos, divisão internacional do trabalho, dependência tecnológica, pobreza energética ou distribuição dos custos ambientais, outras soluções se tornam necessárias. 

Isso nos conduz à segunda questão colocada: é possível universalizar aplicação do conhecimento? O risco de responder negativamente é dissolver a ciência numa infinidade de pontos de vista incomensuráveis. O ponto inverso consiste, non entanto, em transformar abstrações historicamente determinadas em leis universais potencialmente indiferentes ao espaço e ao tempo — o que contrapõe os autores que angulam essa texto, considerando o processo histórico. Uma saída está no movimento do concreto ao abstrato e do abstrato novamente ao concreto. O conhecimento precisa abstrair. Sem abstração não existem conceitos, teoria ou ciência. Mas a abstração é apenas um momento da investigação. Depois de separar determinadas relações para compreendê-las, é necessário reencontrá-las na totalidade concreta em que efetivamente existem.

A universalidade possível não seria, portanto, a transformação de uma experiência particular em regra eterna. Seria a identificação de determinações que se repetem sob determinadas condições e cuja capacidade explicativa precisa ser testada historicamente — por isso o papel da conjuntura citada por Greco. Uma relação pode possuir validade geral e, simultaneamente, manifestar-se de maneira diferente conforme as formações sociais, as instituições e os territórios em que atua. 

A transição energética ilustra concretamente esse problema. Existe uma determinação geral: os sistemas energéticos passam por transformações tecnológicas, econômicas e políticas envolvendo fontes de energia, infraestrutura, armazenamento, produção e consumo. Entretanto, Santos et al. (2025) mostram que não existe uma trajetória única ou linear de transição. Estados nacionais, empresas, trabalhadores, finanças, recursos disponíveis, tecnologias e posições geopolíticas condicionam caminhos, velocidades e resultados distintos.

É justamente a adjetivação justa que obriga a abstração a retornar ao concreto. Não basta afirmar abstratamente que é necessário substituir fontes energéticas; no caso as fósseis. É necessário perguntar: quem realizará essa transformação? Quem dominará as tecnologias? Quem financiará os investimentos? Quais trabalhadores perderão ou ganharão empregos? Quais territórios receberão investimentos e quais suportarão seus custos? Quem terá acesso à energia e a que preço? A obra citada e organizada pelo Ineep coloca essas relações no centro da análise ao compreender a transição como processo disputado por atores com interesses diferentes, e não como evolução técnica automática.

Essa discussão retorna, finalmente, à Administração. Organizações não apenas respondem às transformações ambientais e energéticas; participam da construção dessas transformações. A dimensão praxeológica indicada por Tsoukas & Chia é relevante justamente porque a teoria não permanece exterior à prática. Os conceitos utilizados para definir eficiência, sustentabilidade, transição ou desenvolvimento podem orientar decisões empresariais, políticas públicas e investimentos e, desse modo, transformar a própria realidade que pretendiam inicialmente apenas explicar.

Talvez (a ver ao longo do percurso da disciplina), portanto, a questão central não seja escolher entre universalidade e particularidade. É compreender suas unidades contraditórias. Pensa-se que sem abstração, permanecemos presos à singularidade imediata; sem retorno ao concreto, transformamos nossas abstrações eventualmente em dogmas. O método e a posição epistemológica modificam o objeto científico porque selecionam as determinações pelas quais o se compreenderá aquilo que seria o real. Mas o próprio real coloca limites a essa construção, sendo esta a contribuição que absorvo dos autores. É nesse movimento entre realidade, abstração e verificação concreta que se pode posicionar uma ciência como simultaneamente crítica e capaz de produzir conhecimento. No caso da transição energética, essa exigência pode ser classificada como fundamental: a transformação pode ser universal enquanto problema histórico, mas só será compreendida, e eventualmente será justa, quando regressar às sociedades, aos territórios, às organizações e aos sujeitos concretos que irão realizá-la e suportar suas consequências.

Referências

ARMIERO, Marco. Wasteocene: stories from the global dump. Cambridge: Cambridge University Press, 2021.

DANOWSKI, Déborah; DE CASTRO, Eduardo Viveiros. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie; Instituto Socioambiental, 2015.

GRECO, John. Introduction: what is epistemology? In: GRECO, John; SOSA, Ernest (ed.). The Blackwell guide to epistemology. Massachusetts/Oxford: Blackwell Publishers, 1999. p. 1-33.

HARAWAY, Donna. Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno, Chthuluceno: fazendo parentes. ClimaCom Cultura Científica: pesquisa, jornalismo e arte, Campinas, a. 3, n. 5, p. 139-146, abr. 2016. p. 4

JABBOUR, Elias; GABRIELE, Alberto. China: o socialismo do século XXI. São Paulo: Boitempo, 2021. JAPIASSU, Hilton. Alguns instrumentos conceituais: o que é a epistemologia? In: JAPIASSU, Hilton. Introdução ao pensamento epistemológico. 6. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991. p. 15-39.

MAMIGONIAN, Armen. Introdução ao pensamento de Ignacio Rangel. Geosul, Florianópolis, v. 2, n. 3, p.63-71, jan./jun. 1987.

MOLION, Luiz Carlos Baldicero. Desmistificando o aquecimento global. Maceió: Instituto de Ciências Atmosféricas, Universidade Federal de Alagoas, [s.d.]. 12 p.

SANTOS, Mahatma Ramos dos; ALVARES, Ticiana de Oliveira; LEÃO, Rodrigo Pimentel Ferreira; COUTINHO, Isadora (org.). Transición energética: geopolítica, corporaciones, finanzas y trabajo. Rio de Janeiro: Telha, 2025.

TSOUKAS, Haridimos; CHIA, Robert. Introduction: why philosophy matters to organization theory. In: TSOUKAS, Haridimos; CHIA, Robert (ed.). Philosophy and organization theory. Bingley: Emerald Group Publishing, 2011. p. 1-21. [Research in the Sociology of Organizations, v. 32]

Nota sobre o uso de inteligência artificial: ferramenta de inteligência artificial generativa foi utilizada como apoio à revisão do texto quanto aos aspectos gramaticais da língua portuguesa e à organização e padronização das referências bibliográficas segundo as normas da ABNT.

Nenhum comentário:

Postar um comentário