Conhecimento por quem e para quê? Dos caminhos do conhecimento aos problemas que eles representam

Pequeno ensaio produzido pelo acadêmico de mestrado Vinicius Yasuto Ikeda

O conhecimento se manifesta e é percebido de formas distintas em diferentes espaços sociais no mundo atual. A forma na qual ele é enxergado e empregado cria desafios para a as relações entre ciência, administração pública e sociedade. A partir desses desafios, este paper tem como objetivo ilustrar algumas formas de interpretação de conhecimento e de como sua legitimidade ou reconhecimento afeta a sociedade que vivemos.

Há abordagens teóricas que hierarquizam o conhecimento: ele pode ser dado, informação, conhecimento e virtude/sabedoria (ACKOFF, 1989). A constituição desse nivelamento é justificada pela sua contextualização e pela forma e exercício do conjunto de construções de concepções acerca do objeto ou evento a ser reconhecido. Um dado, nesta vertente, é considerado um número ou palavra fora de contexto, isolado; informações seriam, dessa forma, um conjunto agregado de números e palavras que tenham sentido; já o conhecimento é concebido como uma estrutura lógica, consolidada, testada e validada de informações e a virtude/sabedoria como a forma “correta” de aplicação e práticas desses conhecimentos obtidos. 

Entretanto, dados, informações e conhecimentos podem adquirir interpretações diversas a depender do ator que se depara com eles. Informações e conhecimentos para quem? No contexto da administração, um relatório contábil pode adquirir um significado diferente se o ator for um contador, um jurista ou um engenheiro civil. Dessa forma, a história de vida de cada ator é determinante para a construção do conhecimento. Dados, informações e conhecimentos não existem no vácuo, isolados. Latour (1994a) argumenta que durante o desenvolvimento da ciência a forma de produção do conhecimento foi feita de modo purificado, isto é, recortado, dividido, separado e decomposto através de análises para o isolamento dos dados-informações-conhecimentos. Contudo, o autor argumenta que esta purificação oculta o trabalho e as relações entre o conhecimento obtido e o objeto físico por trás deste conhecimento. Neste sentido, da mesma forma que o relatório contábil foi interpretado, ele foi elaborado por alguém bem como representa algo físico que foi transformado em número. Latour (1994b, 2000) também compara esta forma de compreensão da realidade a uma caixa-preta: apesar do reconhecimento de que o relatório contábil é um relatório contábil, o ator que interpreta pode não conhecer a trajetória que o relatório teve até chegar ao seu campo de visualização. Quais seriam os interesses e influências para que o relatório chegasse até ali? Quais as relações entre os objetos físicos e seu respectivo relatório?   


Fonte: Milosavljevic, 2021. 

Para compreender a dinâmica de certos objetos e eventos, isto é, para compreender a forma na qual lidamos com variados tipos de conhecimento, é preciso enxergá-los de forma histórica e relacional. Tsoukas (2005) argumenta que o conhecimento de eventos únicos pode ter explicações múltiplas, sendo necessário observá-los de forma narrativa conectando ator, objeto, discurso e indivíduo. 

É possível perceber então a diferença entre o conhecimento dado como caixa-preta e do conhecimento ligado ao objeto em profundidade, com a sua narrativa de formação, construção e composição. Entretanto, o trajeto dessa narrativa pode sofrer desvios, deturpações e confusões que podem distanciar e romper a conexão do significado do discurso com a forma e natureza do objeto original (LATOUR, 1994b). Dessa forma, a consolidação e a distribuição coletiva do conhecimento requerem múltiplas perspectivas num processo de legitimação que se institucionalizou na ciência através das revistas científicas. A discussão levantada por Sousa Santos (2004) sugere que a legitimação científica possui limitações atreladas às percepções dos grupos de cientistas e suas visões de mundo, o que interfere no efeito e nos interesses na utilização destes conhecimentos. Demo (2012), por sua vez, argumenta que a postura do pesquisador de forma autocrítica, aprofundando e buscando diferentes perspectivas em atores no campo para lidar com conhecimento é indispensável para que a ciência produza conhecimentos prudentes que tenham proximidade com a realidade. Esta percepção realista e honesta de conhecimento é fundamental, principalmente em um contexto em que se vendem neutralidades acerca do conhecimento científico construído. Esta visão neutra de conhecimento converge com a visão purificada que Latour (1994a) critica, a qual foi abordada anteriormente. Neste sentido, Putnam (2004) argumenta que não há divisão entre fato e valor, sendo todos os argumentos e conhecimentos científicos imbuídos de valor e de política em vistas à algum interesse. Quando um pesquisador reflete e coloca sua história de vida, trajetória até chegar ao problema de pesquisa, bem como suas motivações e interesses para empreender em um trabalho científico, ele está dessa forma desvelando os valores e influências que o levou a prosseguir com este trabalho científico. A exposição desse posicionamento parece tornar mais legítimo o conhecimento trazido à tona do que obscurecer os interesses envolvidos na produção dos trabalhos que se consideram neutros ou “apolíticos”.

Estaria então a ciência isolada com todos os conhecimentos legítimos? A partir da abordagem ilustrada anteriormente sobre a narrativa do conhecimento e seu processo de consolidação e legitimação é possível perceber que a trajetória do conhecimento é dependente de suas origens, isto é, o conhecimento “não científico” se faz importante para esta construção. 

Apesar disso, é discutível até que ponto este conhecimento consolidado é legítimo para a vida em sociedade. Em Jamais Fomos Modernos (1994a), Latour esclarece como os conhecimentos científicos foram utilizados para a elaboração de tecnologias que podem até prejudicar a relação entre humanos e humanos e entre humanos e não-humanos. A mesma tecnologia micromolecular para a cura de doenças pode ser utilizada para gerar doenças. Ou ainda pior, surgem interesses para criar tecnologias destinadas à destruição de humanos e não-humanos. 

Se levarmos em conta que o produto mais sofisticado e avançado da ciência é de teor destrutivo (tecnologia de guerra do domínio sobre a natureza e sua consequente poluição, da manipulação do comportamento etc…). não sabemos sequer provar que é preferível ao senso-comum (DEMO, 1985, p. 20).

Assim, faz-se necessário o direcionamento do conhecimento para causas que resolvam os problemas públicos enfrentados pela sociedade, e não para a criação de outros. O trajeto do conhecimento do âmbito individual relacional à magnitude coletiva de seus efeitos exige um esforço coletivo. Seja através de uma estrutura organizacional como a administração pública, seja através da mobilização de diversos atores da sociedade civil, a virada para se tratar o conhecimento e seus objetos de forma responsável é urgente. Latour (2000) argumenta que além de compartilhar o conhecimento de forma coletiva é necessária mobilização de interesses, atores, humanos e não humanos para encarar os problemas enfrentados pela sociedade.


Fonte: Maluli, 2020.

A ação, dessa forma, deve se dar de forma estratégica. Quais os conhecimentos necessários para resolver os problemas públicos? De quais lugares eles vêm? Ciência? Administração Pública? Sociedade? De que forma os atores desses setores interagem para resolver os problemas coletivos? Com as tecnologias da informação nos tempos de hoje recebemos uma quantidade brutal de informações. Não seria possível inverter a forma de distribuição de informações? Como unificar, compartilhar e mediar os conhecimentos e informações para desenhar soluções contra os problemas coletivos enfrentados?

Plataformas organizacionais de resolução de problemas públicos; parcerias entre multisetores, sistemas de inovação, movimentos sociais, inovações sociais, redes sociais, living labs, plataformas e tecnologias digitais são exemplos de eixos que envolvem conhecimentos diversos como alternativas para a resolução deste problema. O conhecimento, portanto, não se dá de forma individual. O conhecimento é coletivo, seja entre humanos ou não humanos. As informações que recebemos durante a vida e no cotidiano, dessa forma, se transformam aos termos contatos com pessoas, imagens e objetos e se renovam ao descobrir novos coletivos. Nossa compreensão é fluída e para vencermos mentiras e fake news bem como para criarmos uma ciência mais responsável é preciso diálogo constante com esses coletivos humanos e não humanos. É necessário também senso crítico e reflexivo sobre as decisões tomadas e sobre os sensos e consensos estabelecidos. 

Considerar nosso conhecimento como fruto das relações históricas sendo percebido de forma diferente por uma diversidade de atores é essencial para unir as pessoas, sustentar os coletivos. As plataformas organizacionais e o diálogo constante buscando trazer à tona a história fundamentada nas relações entre humanos e não-humanos também são fundamentais para a criação de um conhecimento responsável, sustentável e não-destrutivo. As trajetórias do conhecimento, suas crises de legitimação e seu pleno exercício são temas importantes para se refletir e compartilhar em sociedade. Administrar este conhecimento é condição basilar para a existência da natureza da sociedade humana no planeta. 

Referências Bibliográficas

ACKOFF, Russell L. From data to wisdom. Journal of applied systems analysis, v. 16, n. 1, p. 3-9, 1989.
DEMO, Pedro. Demarcação científica. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, p. 13-28, 1981.
DEMO, Pedro. Introdução. IN: DEMO, Pedro. Ciência rebelde: para continuar aprendendo, cumpre desestruturar-se. São Paulo: Atlas, 2012.
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. Editora 34, 1994a.
LATOUR, Bruno. On technical mediation: philosophy, sociology and genealogy. Common Knowledge, v. 3, n. 2, p. 29-64, 1994b.
LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. Unesp, 2000. 
MALULI, Luisa. Como Criar Uma Cultura De Engajamento De Captação Em Organizações Do Terceiro Setor. Júnior Pública Consultoria FGV, 2020.
MILOSAVLJEVIC, Branislava. Why Do We Need Knowledge Networks? Enton Digital, 2021. 
PUTNAM, Hilary. Introduction. IN: PUTNAM, Hilary. The collapse of the fact/value dichotomy and other essays. Harvard University Press, 2004.
TSOUKAS, Haridimos. Complex knowledge: Studies in organizational epistemology. Oxford University Press, 2005.
SANTOS, Boaventura Sousa. Introdução. IN: SANTOS, Boaventura Sousa. Conhecimento prudente para uma vida decente. 2004.


O Wicked Problem “a desigualdade na oportunidade de aprendizagem” à luz do fato social de Émile Durkheim

Pequeno ensaio produzido pela acadêmica Maryane Cristina de Souza 

Segundo Durkheim (2007), à medida em que o indivíduo vai se desenvolvendo, partindo dos primeiros momentos da sua existência, ele é introduzido a ensinamentos coercitivos, com o propósito de ensiná-lo a conviver na coletividade. A inserção dos ensinamentos coletivos é conduzida pelos pais: insistindo a dormir em horários certos, a comer, a ter calma, a beber e outras condutas. Mas após um certo período, esse indivíduo, por meio da coerção social, precisa ter acesso à educação formal. 

Um estudo realizado pela organização da sociedade civil Todos Pela Educação no ano de 2021, relatou a grande deficiência que está sendo enfrentada na educação, entre elas, desigualdades profundas, arraigadas e históricas, falta de infraestrutura, de investimentos e de prioridade na educação. A partir do objeto de estudo, a desigualdade na oportunidade de aprendizagem, será brevemente justificada a questão como um Wicked Problem. Após o esclarecimento do problema abordado, em segundo momento será levado a problemática para o entendimento da obra “As regras do método sociológico” de Émile Durkheim, especificamente o segundo capítulo sobre “Fatos Sociais”. 

O Wicked Problem pertence a uma categoria de problemas que não apresenta limites compreensíveis, onde não é possível definir suas delimitações, por decorrência, não há como estabelecer um escopo eficaz para a sua resposta (RITTEL; WEBBER, 1973). O processo de enfrentamento desses problemas está na reestruturação constante da própria questão discutida. O fato social é “toda a maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou ainda toda a maneira de fazer que é geral na extensão de uma sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência própria, independentemente de suas manifestações individuais” (DURKHEIM, 2007). O objetivo da educação é produzir o ser social (DURKHEIM, 2007). 

A educação permite que o indivíduo se desenvolva e aprenda a viver em sociedade a partir da sua moral vigente. Partindo desse pressuposto, o argumento que será defendido no presente paper é: o problema da desigualdade na oportunidade de aprendizagem à luz do fato social de Émile Durkheim.
Fonte: Blog-superinteressante 

Com as escolas fechadas, tendo em vista a pandemia de corona vírus (COVID-19), veio a intensificar as diferenças de oportunidades, distanciar direitos e reacender problemas sociais que já estavam sendo combatidos no Brasil. Com base no Anuário Brasileiro de Educação Básica (2021), as disfunções estruturais, sendo o acesso ao ensino, a evasão de estudantes e a baixa qualidade do sistema, aumentaram em uma proporção ainda não mensurável. A desigualdade na oportunidade de aprendizagem é considerada um Wicked Problem pois, não há limites tangíveis, nem mesmo uma resposta concisa capaz de resolver o problema social, não é possível definir delimitações e não há um escopo eficaz que possa solucionar o problema. Essa desigualdade vai comumente se reestruturando, a pandemia é um exemplo, o Wicked Problem já não é mais o mesmo enfrentado antes do isolamento social, é preciso novas reformulações das políticas públicas voltadas a essa questão. 

Um estudo publicado pela Unicef (2021), prevê o risco do Brasil retroceder duas décadas na introdução de meninos e meninas à educação. Para a organização Todos Pela Educação (2021), a ineficiência do sistema educacional é causada pela progressiva descontinuidade de políticas, que oscilam a cada novo governo, a educação é um processo que requer tempo, análise e considerações, formação continuada, planejamento, organização, entre outros. Desenvolver uma política pública de sucesso para a gestão voltada à desigualdade na oportunidade de aprendizagem não é uma tarefa simples, porque a questão abordada não é apenas um Wicked Problem, mas é ainda mais complexo quando considera a questão política envolvida. 

Os Wicked Problems por se tratar de problemas sociais, nunca são resolvidos, na melhor das hipóteses são enfrentados repetidamente. Para esses problemas, a partir da sua definição é possível encontrar respostas para o enfrentamento. Os Wicked Problems possuem as 10 propriedades a seguir (RITTEL; WEBBER, 1973): 

1. Não existe formulação definitiva de Wicked Problem. 
2. Wicked Problems não têm regras de finalização. 
3. As soluções para Wicked Problems não são verdadeiras ou falsas. 
4. Não há teste imediato e definitivo de uma solução para um Wicked Problem. 
5. Cada solução para um Wicked Problem é uma "operação única". 
6. Wicked Problem não têm um conjunto enumerável de soluções potenciais. 
7. Cada Wicked Problem é essencialmente único. 
8. Cada Wicked Problem pode ser considerado um sintoma de outro problema. 
9. A discrepância que representa um Wicked Problem pode ser explicada de inúmeras maneiras. 
10. O planejador não tem o direito de estar errado. 

Os autores Head e Alford (2013) trazem algumas estratégias para lidar com os Wicked Problems: o foco na colaboração, para que seja possível trazer diferentes enfrentamentos e diferentes pontos de vista; formas mais amplas de pensar sobre as variáveis; mais opções e conexões; novos modelos de liderança, incluindo a liderança adaptativa e colaborativa; e por último, mudanças nas estruturas (que inclui mudanças na gestão pública) e processos de gestão. Para se estruturar um Wicked Problem é necessário assimilar que não há critérios para se compreender suficientemente um problema, o planejador sempre pode fazer melhor. Também não há como aprender por tentativa e erro, cada tentativa conta de forma significativa, o enfrentamento realizado pode deixar rastros que não poderão ser desfeitos. Não há critérios na qual comprove que todas as soluções foram identificadas, sempre pode haver algo diferente (RITTEL; WEBBER, 1973). 

A pesquisa da PNAD (2019) publicada pela Unicef (2021), relata que algumas crianças foram entrevistadas sobre o motivo de não frequentarem a escola, os maiores resultados foram o desinteresse em estudar, trabalho ou procura por trabalho e gravidez. Segundo a Unicef, o dado relacionado ao desinteresse em estudar não é uma análise simples ou fácil, é preciso compreender por meio de uma investigação mais aprofundada o motivo pelo qual levou a esses jovens perderem o interesse em estudar. Segundo o Instituto Rui Barbosa (2021), aproximadamente 10 milhões de estudantes frequentam escolas com algum problema grave voltado à estrutura, como a falta de água e a falta de acesso à internet. Apesar dos estudos informarem algumas questões que apresentam motivos que se relacionam com a desigualdade na oportunidade de aprendizagem, pode haver muitas outras questões atreladas a esse problema, não há um conjunto enumerável de soluções em potencial, justamente pelas causas desses problemas não serem únicas. 

Há uma alta ligação entre a pobreza e o afastamento de crianças e adolescentes da escola, na pesquisa feita pelo IBGE através do PNAD (2019), cerca de 90,1% dos que estavam fora da escola possuíam uma renda familiar per capita menor que um salário-mínimo. Os autores Rittel e Webber (1973) afirmam, através das propriedades dos Wicked Problem, que esse tipo de problema pode ser considerado o sintoma de outro problema, assim, é possível afirmar (por meio da pesquisa do PNAD de 2019) que a desigualdade na oportunidade de aprendizagem está vinculada à questão da pobreza. Anterior a pandemia, os desafios que envolviam a educação já eram tremendos. Mas, no momento atual, se intensificaram excepcionalmente. No ponto de vista de Durkheim (2007) a educação é um fato social, a criança passa por ações coercitivas que a impõe a estudar. No decorrer do livro, Durkheim expõe que uma educação racional deveria reprovar tais procedimentos e deixar a criança proceder com toda a liberdade. Na contemporaneidade é possível considerar que tal argumento não corresponde às complexas dificuldades enfrentadas pela sociedade. 

A imagem abaixo ilustra a problemática da pobreza relacionada à problemática educacional, mostra também a desigualdade na oportunidade de aprendizagem como uma questão incluída na problemática educação. Todas as problemáticas são consideradas fatos sociais:
Fonte: Elaborado pela autora 

Na visão de Durkheim (2007), toda a educação consiste num esforço incessante com o objetivo de impor à criança maneiras de ver, de sentir e de agir, na qual ela não teria alcançado espontaneamente. Nesse sentido, apesar de Durkheim estar fazendo uma crítica a educação daquela época, o acesso à educação é de fato muito importante para a construção do ser no contexto coletivo. O fato social é toda maneira de fazer suscetível a exercer por meio do indivíduo uma coerção exterior, possuindo uma existência própria e sendo independente de suas manifestações individuais (DURKHEIM, 2007). Assim, os fatos sociais são exteriores, coercitivos e generalizados. 

Analisando a caracterização feita por Durkheim (2007) sobre fatos sociais, não há como deixar de reconhecer a natureza coercitiva do problema da desigualdade na oportunidade de aprendizagem. Além da coerção da própria educação, esse problema também tem a mesma natureza, pois a desigualdade na oportunidade de aprendizagem é um poder que se impõe a quem quer que seja. Mesmo em sociedades mais desenvolvidas, não há equivalência na aprendizagem, ela vai variar de acordo com as normas estabelecidas, a educação familiar e entre outros aspectos. Analisando em contexto mundial, a intensidade da coerção costuma ser menor em países mais desenvolvidos e maior em países menos desenvolvidos. Afinal, nos países em desenvolvimento a desigualdade é intensificada por outras adversidades, como a pobreza, por exemplo. 

Há também sociedades em que o conjunto de crenças e práticas transmitidas pelas gerações anteriores afeta a desigualdade na oportunidade de aprendizagem. Algumas regiões delimitam o acesso à educação a partir da segregação de gênero, impedindo mulheres de terem acesso à educação. A segunda caracterização definida por Durkheim (2007) é a exterioridade, o autor relata que os fenômenos sociais devem ser manuseados de forma desassociada dos sujeitos conscientes que os concebem, segundo o autor, é preciso estudá-los de fora, como coisas exteriores. 

Não é possível afirmar que a problemática abordada pode ser estudada separada do sujeito, o objeto poderá ser analisado com a máxima imparcialidade na investigação dos fatos, mas o julgamento em questão é a total imparcialidade. Conforme Pedro Demo, “todo cientista, ao fazer ciência, saberá que não faz a ciência, mas oferece apenas um enfoque, um ponto de vista, uma interpretação, já que ele próprio não passa de um cientista”, a demarcação científica mais importante é a discussão crítica (DEMO, 1995). Em relação a sua generalização, o problema da oportunidade de aprendizagem existe fora das consciências individuais, não é algo que pertence ao indivíduo, mas sim, é fruto da sociedade. Como relatado, está presente de forma difundida em diversos países e culturas.
Fonte: George Goodwin Killburne 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A pandemia de COVID-19 vai deixar um grande impacto no que diz respeito à educação de crianças e jovens com maior vulnerabilidade. Para que a situação seja combatida de forma positiva é preciso investir em políticas públicas, desenvolvendo práticas coletivas voltadas ao enfrentamento do problema. É preciso que os gestores caracterizem melhor a problemática, sempre buscando se atualizar em relação à sociedade. 

Segundo Durkheim (2007), “quando se observam os fatos tais como são e tais como sempre foram, solta aos olhos que toda a educação consiste num esforço contínuo para impor à criança maneiras de ver, de sentir e de agir às quais ela não teria chegado espontaneamente”. Essa estratégia que acompanha o processo de socialização, por meio da atribuição de valores e sentimentos, correspondendo às necessidades coletivas, está ligada também ao que Head e Alford (2013) declararam como estratégia para lidar com os Wicked Problems. É a partir da coletividade que se lida com a desigualdade na oportunidade de aprendizagem e, também, é responsabilidade da educação “produzir o ser social”, gerando assim, um vínculo de dependência entre tais análises. 

REFERÊNCIAS

DEMO, P. Demarcação científica. In: DEMO, P. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, 1985. 
DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007 
HEAD, Brian; ALFORD, John. Wicked Problems: Implications for Public Policy and Management. Administration & Society, 2013. 
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. PNAD: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/9171-pesquisa-nacional-por-amostra-de-do micilios-continua-mensal.html?=&t=o-que-e 
IRB, Instituto Rui Barbosa. Dados de Infraestrutura Escolar. Disponível em: https://projetoscte.irbcontas.org.b r/2021/06/21/quase-10-milhoes-de-estudantes-estao-matriculados-em-escolas-publicas-sem-condicoes-basicas-para-seguir-protocolos-durante-a-pandemia/ 
RITTEL, H. W. J.;WEBBER, M. M. Dilemmas in a general theory of planning. Policy Sciences, 155-169, 1973. 
TODOS PELA EDUCAÇÃO. Anuário Brasileiro da Educação Básica. Disponível em: https://www.moderna .com.br/anuario-educacao-basica/2021/a-educacao-brasileira-em-2021.html UNICEF, Fundo das Nações Unidas para a Infância. Relatório do Cenário da Exclusão Escolar no Brasil. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/relatorios/cenario-da-exclusao-escolar-no-brasil. 2021

Em busca de uma racionalidade substantiva e reflexiva no processo de ensino-aprendizagem em Administração

Pequeno ensaio produzido pelo acadêmico de doutorado Samayk Henrique Ferro da Silva

O homem não deve ser um pensador inconsciente e, para tanto, precisa ter a capacidade para não aceitar, de forma automática, as opiniões alheias por ser dotado de senso crítico. O homem, tem a consciência de que se vive, hoje em dia, em uma época em que o processo de ensino-aprendizagem possui contornos diferentes do que era praticado no passado. Particularmente, no campo da Administração, enquanto ciência social aplicada, as relações do processo de ensino-aprendizagem têm sido caracterizadas por uma visão estreita, mecânica, reprodutora e instrumental, dificultando o exercício dos elementos da racionalidade substantiva, tais como: a) auto realização; b) entendimento; c) julgamento ético; d) autenticidade: integridade, honestidade e franqueza dos indivíduos nas interações; e) valores emancipatórios, dentre outros (RAMOS, 1983; 1989; SERVA, 1993; 1997; BERTERO, 2007).

A preocupação excessiva dos docentes e líderes de instituições em atender o mercado, ao invés de formar para transformar as relações sociais, produtivas e econômicas é reflexo das diferentes ontologias (realista, idealista e intersubjetiva), epistemologias (objetiva, subjetiva e construtivista), paradigmas (positivismo, funcionalista, interpretativo, humanista e estruturalista radical e da complexidade) e de seus impactos nas abordagens pedagógicas e no processo de ensino e aprendizagem. Além disso, as prescrições impostas pela sociedade centrada no mercado levam o homem a reprimir seus pensamentos, assimilando em sua essência, segundo Ramos (1989), a busca da coerência entre meios e fins para maximizar os ganhos econômicos da sociedade capitalista em detrimento do entendimento do ser humano.

A conduta comportamentalista na visão de Batistela e Rotta (2014) surgiu como consequência de um esforço histórico sem precedentes para modelar uma ordem social de acordo com os critérios de economicidade, transformando o homem numa criatura que se comporta segundo os imperativos impostos pelas organizações e da sociedade. Como diz Fromm (1977, p. 35) “tem-se a impressão de que a própria essência de ser é ter, de que se alguém nada tem, não é”. 

Para Carraher (1999, p. 69) “O indivíduo com senso crítico encontrará mais erros ou razões para dúvida em argumentos do que aquele que não tende a refletir sobre suas próprias comunicações e as dos outros”. Além da formação de pensadores criativos, a educação tem como objetivo segundo Piaget (1970, p. 182), “formar mentes que possam ser críticas, que possam analisar, ao invés de aceitar tudo que lhes é oferecido [...] Temos que ser capazes de resistir individualmente, de criticar, de distinguir entre o que foi provado e o que não foi”.

Diante disto, este pequeno ensaio tem por objetivo discutir a racionalidade substantiva e reflexiva frente aos desafios do processo de ensino-aprendizagem no curso de Administração. Segundo Batistela e Rotta (2014), houve uma ofuscação do senso pessoal de critérios adequados de modo geral à conduta humana, onde a principal preocupação do ser humano é somente com o que é produzido e não aquilo que desenvolvemos, ou seja, a instrumentalidade tornou-se uma característica básica das sociedades industriais contemporâneas. Além disso, é nítido neste modelo de sociedade a preocupação mercadológica e a indução do ser humano apenas a condição de fabricação de objetos que não são necessários para sua sobrevivência.

Racionalidade Substantiva e Reflexiva

O termo racionalidade percorre todo o pensamento científico, podendo ser retratado desde o pensamento grego antigo até os dias atuais. Para Vasconcellos (2005), o pensamento científico pode ser distinguindo em: (1) pensamento grego; (2) pensamento do homem medieval; e (3) pensamento do homem moderno. A descoberta da razão e/ou logos pelos primeiros gregos (por exemplo: Sócrates, Aristóteles, Platão, Thales, Anaximandro e Anaxímenes) serviu de instrumento de conhecimento para a descoberta dos fatos e coisas do mundo, ou seja, centraram a atenção na natureza, elaborando diversas concepções de cosmologia (procuraram explicar racionalmente a formação do cosmos).

Na idade Média o homem procurava buscar o conhecimento através de quadros filosóficos baseados em religião mais, especificamente, nas sagradas escrituras (por exemplo: Santo Agostinho e São Thomás de Aquino). Na Idade Moderna é enfatizada a separação entre o que é conhecimento científico e o que é conhecimento filosófico. Esta “unidade ciência-filosófica” separada através do pensamento moderno, pode ser representada em duas formas de racionalidade, a matemática e a lógica. A Matemática é, desta forma, um dos mais antigos dos padrões de logos surgido com os gregos antigos (Pitágoras, Platão, Arquimedes e Euclides) (NASCIMENTO JUNIOR, 2001). No conhecimento moderno o raciocínio matemático/lógico sofreu uma alteração, pois hoje o que é levado em consideração é a observação controlada e sistemática, sem ter nenhuma forma de abstração sobre objeto. Em seguida, temos a racionalidade lógica como um padrão adotado por um filósofo, também, da Grécia antiga chamado de Aristóteles (VASCONCELLOS, 2005). O conceito de racionalidade é um elemento central, principalmente constitutivo no conceito de ação social. O comportamento racional não fica desprovido de ‘sentido’, já que para Fernandes (2008), um indivíduo ou uma sociedade só será capaz de atribuir um sentido em suas ações quando suas racionalidades atingirem seu sentido lato. 

A racionalidade depende da matriz cultural e civilizacional que rodeia uma ou outra sociedade (SOUZA, 2006). O primeiro conceito sobre racionalidade surgiu com as ideias de Weber (1999), numa tentativa de definir o racional através das ações que os indivíduos praticam em sociedade, ou seja, a racional no tocante aos fins, a racional no tocante aos valores, a afetiva e a tradicional. A ação social afetiva e tradicional são respectivamente determinadas por estados emotivos ou sentimentais e por costumes, sendo nula ou escassa a avaliação sistemática de suas consequências. A ação racional no tocante a valores é portadora de consciência sistemática de sua intencionalidade, visto que é ditada pelo mérito intrínseco do valor ou dos valores que a inspiram, bem como é indiferente aos seus resultados. É conduta, por assim dizer, heroica ou polêmica, que testemunha fé ou crença num valor ético, religioso, estético, ou de outra natureza, e sua racionalidade decorre apenas de que é orientada por um critério transcendente. A ação racional no tocante a fins é sistemática, consciente, calculadas, atenta ao imperativo de adequar condições e meios a fins deliberadamente elegidos. A razão se tornou, por excelência, segundo Ramos (1983, p. 38) um cálculo utilitário de consequências, expressa na matematização do mundo, onde a ideologia do progresso e do desenvolvimento não trouxeram para os indivíduos a autonomia e as liberdades esperadas para o exercício da substantividade.

Mannheim (1962) argumenta que a industrialização desenvolveu um tipo de racionalidade funcional, exercendo tamanha influência no que tange a capacidade crítica do indivíduo em detrimento da racionalidade substantiva. A racionalidade funcional “se refere às condutas que têm como objetivo atingir uma determinada meta e que tendem a solapar as qualificações éticas e as faculdades críticas do indivíduo, na proporção do desenvolvimento da industrialização, fazendo com que este desista da sua própria autonomia e interpretação dos acontecimentos, rendendo-se ao que é oferecido pelos outros” (CANÇADO; CARVALHO; PEREIRA, 2011, p. 7-8). 

O indivíduo deixa de exercer o ato de pensar no mundo moderno, segundo Fernandes (2008), por gastar parte de sua vida produzindo coisas, sem entender a utilidade e o significado da atividade realizada. Barreto, Thompson, Thompson et al. (2011) comentam que a racionalidade instrumental está centrada no mercado, prevalecendo o capital sobre a vida. Serva (1997, p. 22-23) toma por base os fundamentos de Ramos (1989) e de Habermas (1999), argumentando que a ação racional instrumental está baseada no cálculo e orientada para o alcance de objetivos operacionais ligados a interesses econômicos ou de poder social, através da maximização dos recursos disponíveis, sendo caracterizada pelos seguintes elementos: a) cálculo: projeção utilitária das consequências dos atos humanos; b) fins: metas de natureza técnica, econômica ou política (aumento de poder); c) maximização dos recursos: busca da eficiência e da eficácia máximas, sem questionamento ético, no tratamento de recursos disponíveis, quer sejam humanos, materiais, financeiros, técnicos, energéticos ou ainda, de tempo; d) êxito/resultados: o alcance, em si mesmo, de padrões, níveis, estágios, situações, que são considerados como vitoriosos face a processos competitivos numa sociedade capitalista; e) desempenho: performance individual elevada na realização de atividades, centrada na utilidade; f) utilidade: dimensão econômica considerada na base das interações como um valor generalizado; g) rentabilidade: medida de retomo econômico dos êxitos e dos resultados esperados; h) estratégia interpessoal: aqui entendida como influência planejada sobre outrem, a partir da antecipação das reações prováveis desse outrem a determinados estímulos e ações, visando atingir seus pontos fracos.

O predomínio da razão instrumental nas organizações, segundo Ramos (1981) cria uma sociedade centrada no mercado, e, tendo o mercado como centro de todas as ações, tira do homem os espaços que lhe garantem segurança, qualidade de vida e interação social. Portanto, a razão instrumental procura atender às necessidades das organizações, deixando de lado os valores, habilidades e emoções de cada indivíduo. A racionalidade instrumental impõe regras para o funcionamento de toda a sociedade, além de definir como os indivíduos devem se posicionar diante dela. “Na civilização gerida pela racionalidade instrumental, o indivíduo precisa ser conduzido à crença de que se não obedecer a certas regras estabelecidas de cima para baixo jamais conseguirá viver em harmonia com a sociedade” (LIMA; HOPFER; LIMA, 2003, p. 11).

A racionalidade substantiva, neste sentido, permite ao indivíduo conduzir sua vida pessoal para a autorrealização e para a satisfação social, pois as ações humanas devem ser direcionadas por critérios humanos e não por critérios instrumentais. Os limites entre a organização formal e os demais tipos de microssistemas sociais devem ser claros, permitindo o desenvolvimento do homem, tanto individualmente como coletivamente. A ação racional substantiva baseada na autorrealização, no entendimento, no julgamento ético, nos valores emancipatórios e na autonomia, constitui, na verdade, ações voltadas às práticas de mudança social (RAMOS, 1989). Isto porque o homem é portador da razão substantiva. Assim, “pelo exercício da razão substantiva, e vivendo de acordo com os imperativos éticos dessa razão, o homem transcende a condição de ser puramente natural e socialmente determinado, e se transforma num ator político” (RAMOS, 1983, p. 44).

Serva (1997, p. 22-23), complementa o assunto, destacando os elementos da racionalidade substantiva: a) auto realização: processos de concretização do potencial inato do indivíduo, complementados pela satisfação; b) entendimento: ações pelas quais se estabelecem acordos e consensos racionais, mediadas pela comunicação livre, e que coordenam atividades comuns sob a égide da responsabilidade e satisfação sociais; c) julgamento ético: deliberação baseada em juízos de valor (bom, mau, verdadeiro, falso, certo, errado etc.), que se processa através do debate racional sobre as pretensões de validez emitidas pelos indivíduos nas interações; d) autenticidade: integridade, honestidade e franqueza dos indivíduos nas interações; e) valores emancipatórios: aqui se destacam os valores de mudança e aperfeiçoamento do social nas direções do bem-estar coletivo, da  solidariedade, do respeito à individualidade, da liberdade e do comprometimento, presentes nos indivíduos e no contexto normativo do grupo; f) autonomia: condição plena dos indivíduos para poderem agir e expressarem-se livremente nas interações. 

Habermas (1999), por sua vez, considera a racionalidade como uma proposta de explicação das possibilidades de ação racional na sociedade industrial contemporânea, com vistas à emancipação do homem ante aos constrangimentos impostos pela sociedade. Propõe o conceito de racionalidade comunicativa, de ações dialógicas voltadas para o entendimento, caracterizada por uma razão não inteiramente direcionada ao êxito; ou seja, o mais importante é garantir a legitimidade da ação social por meio da participação de todos os envolvidos no processo decisório. A racionalidade comunicativa, baseada na dialogicidade representa uma alterativa de aproximação das racionalidades instrumental e substantiva, tendo em vista eliminar ações autoritárias, impondo a mudança de paradigma “da ação instrumental para a ação comunicativa, da subjetividade para a intersubjetividade, da razão monológica para a razão dialógica” (TENÓRIO, 1993). Na ação comunicativa, os indivíduos não estão orientados para a busca do êxito individual e, sim, por atos de entendimento interpessoal. Os indivíduos procuram buscar a solução através do debate, da argumentação e da permeabilidade acerca do ponto de vista dos outros. O debate e a argumentação são incentivados em ambientes de ensino-aprendizagem que valorizem o agir e o pensar de forma interdisciplinar e transdisciplinar, tanto na construção como na reconstrução dos saberes.

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Ensino-aprendizagem

No entender de Freire e Faundez (1985) o ato de ensinar não equivale a apenas transferir conhecimento, mas significa criar as possibilidades para a produção ou a construção desse conhecimento. Neste processo de ensinar, quem ensina aprende no ato de ensinar e quem aprende ensina ao aprender. O docente, como profissional não pode ser ingênuo ao ponto de pensar que sabe tudo, e os seus alunos não sabem nada, e que não há o que aprender com eles, criando uma mão única de aprendizagem. Freire (2009, p. 23), alerta que: “Quem forma se forma e reforma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado [...] Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender [...] Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa”.

As diferentes abordagens de ensino-aprendizagem são fundamentadas por múltiplas racionalidades, desde a instrumental, organizacional, política e substantiva, por exemplo, além de refletirem a estrutura, estratégia e valores da instituição. Os autores por acreditarem que múltiplas racionalidades permeiam as ações do dia a dia, defendem a adoção de uma abordagem integrativa das diversas racionalidades na construção de ambientes de aprendizagem que venham contribuir no desenvolvimento da consciência crítica articulada a outros recursos que possibilitem constituir competências organizacionais que favoreçam a formação integral do indivíduo.

Os mais diferentes problemas da Educação são decorrentes das questões ontológicas, epistemológicas e paradigmáticas fundamentadas numa racionalidade característica de um certo momento histórico, refletidas nas abordagens pedagógicas e nas práticas correspondentes. Os autores acreditam na existência de um diálogo entre modelo de ciência, as teorias de aprendizagem e as atividades desenvolvidas, já que toda formulação teórica, segundo Moraes (2003) evidencia um paradigma do qual decorre todo um sistema de valores que influencia não apenas o processo de construção do conhecimento, mas também a maneira de ser, de fazer e de viver/conviver do professor, aluno e de outros atores envolvidos no processo educativo.

A concepção reflexiva difundida por Schön (2000) procura superar a relação linear e mecânica entre o conhecimento técnico-científico e a prática de sala de aula. O autor distingue o conhecer na ação (saber fazer), da reflexão na ação (processos de pensamento realizados no decorrer da ação) e da reflexão sobre a ação e sobre a reflexão na ação (processo de construção do pensamento que ocorre, retrospectivamente, sobre uma situação problemática e sobre a reflexão na ação produzidas pelo profissional). A prática é valorizada na formação dos profissionais: uma prática refletida que lhes possibilite responder a situações novas, nas situações de incerteza e indefinição (DEWEY, 1979; ALARCÃO, 2000; SCHÖN, 2000). Sabe-se que o ser humano por ser racional e capaz de um pensamento abstrato e com estruturas cognitivas que são adaptadas, re-modeladas, construídas e reconstruídas a partir da interação com a realidade social, podendo tornar-se reflexivo; quando reflete, pensa e critica sua prática, seu próprio fazer.

Considerações finais

Este pequeno ensaio teve como objetivo discutir a racionalidade substantiva e reflexiva frente aos desafios do processo de ensino-aprendizagem no curso de Administração. É importante, compreendermos que a discussão acerca da formação do Administrador busca nos moldes atuais apenas a instrumentalidade enquanto ferramenta mercadológica, mas sabemos que durante seu percurso é possível realçar a sua relevância e importância durante o processo de formação acadêmica. O processo de ensino-aprendizagem, dentro de um contexto social mais amplo revela que a aprendizagem acontece de diferentes formas e por meio da utilização de recursos diversificados.

Um fator que pode-se destacar é a distância estabelecida pelo professor com o aluno observada nos ambientes de ensino aprendizagem que valorizam os pressupostos do paradigma tradicional, tem dificultado o desenvolvimento do “pensar substantivo”, já que este pensar é atrofiado pela instrumentalidade das ações. O domínio da instrumentalidade nas ações pedagógicas tem contribuído para o “esquecimento” dos preceitos na dimensão substantiva, assim como do pensar “crítico”, tornando quase um sonho o alcance da formação cidadã. O desenvolvimento da racionalidade instrumental tem se firmado na industrialização, submetendo o homem a critérios funcionais, antes que substanciais, de entendimento e compreensão. Nesse tipo de racionalidade não é questionada a qualidade das ações dos docentes, pois o que interessa é o alcance dos fins preestabelecidos e não o conteúdo e a qualidade das ações em questão.

De modo geral, o ensaio traz um tema reflexivo e que nos faz perceber como a mudança de entendimento e de concepção acerca do processo de ensino-aprendizagem leva tempo, porque o conceito de ciência dominante está fundamentado na racionalidade, influenciando a maneira como o professor e aluno percebem o mundo (ontologia), e quando um conhecimento pode ser julgado científico ou não, a partir dos processos utilizados para a sua geração (epistemologia).

Referências bibliográficas

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Democracia Hegemônica versus Democracia Contra Hegemônica: as bases epistemológicas do modelo representativo

Democracia Hegemônica versus Democracia Contra Hegemônica: as bases epistemológicas do modelo representativo

 

Pequeno ensaio acadêmico produzido pela acadêmica de doutorado Bruna Hamerski


 “[...] a sociedade participativa é a qualidade política mais qualitativa que a história poderia engendrar” (DEMO, 1995, p. 25). Ao observar esta frase de Pedro Demo, nota-se que a participação da Sociedade Civil nas políticas públicas, para o autor, possui um caráter qualitativo, uma dimensão subjetiva, uma interpretação complexa. Tal questão é, no mínimo, curiosa, uma vez que, quando se observa as práticas de gestão participativa no Brasil, nota-se que o que está consolidado em lei são formas de participação extremamente quantitativas, alinhadas a um viés mais objetivo de interpretação da realidade.

As formas de exercer o sufrágio presentes na Constituição Federal de 1988 são o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular (BRASIL, 1988). Tais ferramentas vão ao encontro de um modelo objetivo de participação, uma vez que o plebiscito consiste em uma consulta prévia à população (antes de entrar em votação na câmara), referente a determinado assunto, e o referendo consiste em consulta posterior à população (depois que o projeto já foi votado). Em ambas as situações, a população vota a respeito do assunto. Já a iniciativa popular consiste em projeto de lei elaborado pela população, mediante assinatura de um por cento do eleitorado nacional, distribuído pelo menos por cinco Estados, com não menos de três décimos por cento dos eleitores de cada um deles (BRASIL, 1998). Veja só quantos números, ou seja, por mais que existam práticas para além do voto para eleger o representante, elas também são qualificadas por um critério objetivo. A iniciativa popular, apesar de ainda não ser uma forma tão ambiciosa de participação, é a que mais avança. Mas o curioso é que, em 30 anos, apenas quatro projetos de iniciativa popular foram aprovados pelo congresso, sendo eles: Lei 8.930/1994: o caso Daniella Perez, Lei 9.840/1999: combate à compra de votos, Lei 11.124/2005: moradia popular e Lei Complementar 135/2010: a Lei da Ficha Limpa (G1, 2021). É claro que esta afirmação é ampla e há a necessidade de analisar cada projeto, uma vez que há muitos projetos que vão contra a própria participação popular, mas é curioso o fato de que apenas quatro projetos foram aprovados.

Outro fator curioso pode ser observado quando falamos do recall e do veto popular. O recall consiste na possibilidade de a sociedade revogar o mandato de determinado governante. Já o veto popular consiste na possibilidade de os cidadãos bloquearem uma iniciativa legislativa. Estas duas ferramentas são dispositivos poderosos de participação da Sociedade Civil. Entretanto, apesar de já terem sido objetos de projeto de lei, ainda não foram aprovadas (SENADO FEDERAL, 2015; CAMARA DOS DEPUTADOS, 2017).

Ademais, cabe destacar as experiências de gestão participativa que surgem com os conselhos de políticas públicas e orçamentos participativos. Experiências estas que acontecem na atualidade, apesar de não haver uma lei geral sobre conselhos, por exemplo. No entanto, muitas vezes, o Poder Público não leva em conta as decisões tomadas no âmbito dos conselhos, fazendo com que estas experiências, na prática, acabem funcionando apenas como formas consultivas, por parte do Poder Público (HAMERSKI, 2021, no prelo).

Por que isso acontece? Por que, historicamente, o modelo representativo tem sido hegemônico quando estamos falando de participação? Este trabalho quer argumentar a respeito de uma possível resposta para esta pergunta: a defesa deste modelo, e também a tentativa de derrubada de modelos que se mostrem mais abertos à participação da Sociedade Civil está relacionada a dois elementos: aos valores ideológicos dos governantes que chegam ao poder e à base epistemológica hegemônica dos estudos sobre participação popular. Em vista disso, este texto tem por objetivo apontar elementos que demonstram a relação entre a hegemonia da democracia liberal/burguesa na participação popular e as bases epistemológicas dos defensores deste molde de participação.

Para tanto, início trazendo uma possível analogia: a democracia liberal está relacionada aos modelos positivistas de compreensão da realidade e a democracia participativa e/ou deliberativa está relacionada aos modelos de caráter interpretativista de compreensão da realidade, as duas, além disso, estão relacionadas aos valores ideológicos de seus defensores. Tendo em vista estas preposições, a seguir serão apresentados os elementos dos respectivos modelos de participação e a relação com a abordagem epistemológica e com os valores ideológicos dos defensores de cada modelo de participação.

 APRESENTAÇÃO DA TEORIA E POSICIONAMENTO

 Ao analisar o que os defensores do modelo representativo têm a dizer sobre o conceito de participação, nota-se uma defesa do modelo representativo para evitar uma possível “perda de controle”, ocasionada pelo aumento das exigências populares (TOCQUEVILLE, 2005). Ademais, para estes autores, o governo do povo é o governo aprovado pelo povo, ou seja, não há uma oposição em dar poder ao povo, apenas não há a defesa de necessidade de aumentar esse poder para além do voto, pois teme-se que haja uma tirania da maioria (SCHUMPETER, 1961).

Pode-se observar que, até aqui, foram mencionados dois autores clássicos. No entanto, ao avançar para autores da democracia contemporânea, inclusive autores que analisaram a entrada das massas no processo decisório, como Dahl (2003), não se observa muitas mudanças de pensamento em relação ao avanço de um modelo representativo para uma democracia direta. Para Dahl (2003), a democracia depende de mecanismos institucionais, sendo ela um método político, e não um princípio, um valor que deva estar assentado nas bases sociais. Ademais, Dahl não desconsidera as instituições em seu modelo de pensamento sobre participação popular.

Ao observar os critérios levados em conta para validar a participação no modelo liberal (um indivíduo = um voto), nota-se que estes se assemelham a visões objetivas da realidade, uma vez que consideram critérios numéricos e percentuais para validar a participação da Sociedade Civil. Tal interpretação da realidade pode ser encontrada no paradigma positivista, segundo o qual a realidade é observada a partir de uma lógica mecanicista e carente de profundidade (BRACKEN, 2010). Entretanto, é necessário que esta abordagem seja observada com muito cuidado, uma vez que, ao tentar aplicar critérios objetivos a elementos subjetivos na análise, há um grande risco de distorção da realidade (TSOUKAS, 2005).

O paradigma positivista deriva de uma visão de mundo chamada de realismo, segundo a qual a realidade é compreendida de uma maneira objetiva, dando origem a técnicas mais estruturadas para análise e interpretação da realidade (SACCOL, 2009). Tal elemento vai ao encontro da lógica do modelo representativo, uma vez que os defensores deste modelo acreditam no voto como ferramenta mais adequada de participação da Sociedade Civil.

Argumenta-se que a abordagem positivista vai ao encontro do modelo representativo porque ela parte do pressuposto de que a realidade já está dada, não sendo necessária uma interação entre sujeito e objeto e, neste caso, fazendo a analogia com a participação, entre o Estado e a Sociedade Civil. Portanto, parte-se do pressuposto de que o voto seria suficiente para efetivar a participação e de que o resultado numérico dele seria o suficiente para garantir a congruência entre os anseios da Sociedade Civil e o conteúdo das decisões administrativas dos governantes que chegam ao poder. Do mesmo modo, uma abordagem positivista de interpretação da realidade que, via de regra utiliza critérios quantitativos e formulação de hipóteses, teria a mesma visão de interpretação da realidade: os números são suficientes para chegar aos resultados pretendidos.

Mas será que este modelo não distorceria a participação, assim como pode-se dizer que determinada ferramenta utilizada pelo pesquisador pode distorcer o objeto de pesquisa? (TSOUKAS, 2005) Seria esta distorção proposital? Esta é uma visão de muitos defensores da corrente que se coloca em oposição à democracia liberal: a democracia participativa e, mais recentemente, a democracia deliberativa. Argumenta-se, neste texto, que a democracia participativa estaria ligada à abordagem interpretativista, que deriva de uma dimensão que considera a interação entre o pesquisador e o objeto de pesquisa para entender a realidade. Nesta abordagem, os métodos de coleta de dados não costumam ser estruturados e sua posterior análise não é estatística. Aliás, não há uma forma consolidada de interpretar os dados analisados, o que requer maior rigor no momento de explicar como a pesquisa foi realizada (SACCOL, 2009).

Ademais, é necessário destacar que, no uso das abordagens interpretativistas, atribui-se uma importância maior ao rigor e cuidado para que a posição ideológica do pesquisador não interfira na interpretação do objeto, cabendo destacar que a posição ideológica do pesquisador, caso a pesquisa não seja levada com rigor, pode impactar os resultados da pesquisa (BRACKEN, 2010).

No entanto, esta abordagem possui diversos pontos positivos, possibilitando o aprofundamento em relação ao objeto de estudo, possibilitando a criação de novas teorias e renovação do que já foi escrito sobre o assunto (CUNHA; REGO, 2019). Em relação à temática da participação, como seria possível propor um modelo alternativo de participação direta se os estudos existentes, em sua maioria, baseiam-se em países de primeiro mundo, não permitindo uma transposição destes estudos adequada às peculiaridades dos países latino-americanos? Esta é uma das vantagens, e, talvez, a principal, dos estudos qualitativos sobre a temática da participação popular.

Ora, é dessa mesma forma que os teóricos defensores da participação direta e, desse modo, da democracia participativa e, mais recentemente, da democracia deliberativa, interpretam a realidade. Para os defensores de uma participação mais efetiva da Sociedade Civil, é necessário que haja interação, diálogo, deliberação, para que, posteriormente, ocorra a institucionalização da esfera pública, o momento no qual as decisões da Sociedade Civil são levadas em conta para compor o conteúdo das decisões administrativas (PATEMAN, 1992; 2012; HABERMAS, 1997).

Os autores que defendem uma democracia mais direta vão ao encontro de um modelo interpretativista de compreensão da realidade não apenas por enxergarem que a dinâmica da participação está inserida numa dimensão subjetiva, complexa, mas porque, para entender a complexidade da participação, é necessário que o modo de enxergar esta realidade também seja complexo (TSOUKAS, 2005).

Com as mudanças tecnológicas, surge a necessidade, cada vez maior, de aderir a um método mais complexo de interpretação da realidade (TSOUKAS, 2005). No caso brasileiro, e aqui destacando os conselhos de políticas públicas, nota-se que são espaços onde diversos atores da sociedade civil levam suas opiniões e valores para o jogo. Opiniões, crenças e valores que são formados previamente por esses atores, sejam eles empresas privadas, terceiro setor, entidades de classe ou usuários de políticas públicas. Entender todo esse processo, desde o contexto histórico-cultural de cada indivíduo até sua opinião levada para a esfera pública e como se dá esse processo de decisão não é uma tarefa fácil, sendo necessário, portanto, uma análise mais complexa deste contexto.

Por isso, argumenta-se neste trabalho que a abordagem interpretativista vai ao encontro da democracia participativa porque a primeira considera a interação entre sujeito e objeto para interpretação da realidade, ao passo que a democracia participativa e/ou deliberativa considera a interação e/ou deliberação entre Estado e Sociedade como caráter prévio para a tomada de decisão pelo Poder Público.

No caso da participação, mesmo que as ferramentas de democracia participativa não estejam institucionalizadas, em outras palavras, não há uma lei geral sobre conselhos, por exemplo, elas costumam ser efetivadas na prática, combinadas com o modelo representativo. Do mesmo modo, estabelecendo a relação com a ciência, uma alternativa apresentada pela literatura é a utilização de métodos mistos de pesquisa (BRACKEN, 2010).

A pesquisa objetiva, mais orientada a dados quantitativos, pode ser útil para a obtenção de dados mais amplos sobre o tema. No caso da participação, uma abordagem quantitativa pode ser um mapeamento de todos os conselhos de políticas públicas, em nível nacional, bem como do número de resoluções elaboradas por eles e aprovadas pelo Poder Público em determinado recorte temporal. Já uma abordagem qualitativa pode ser a realização de entrevistas com um membro de cada um destes conselhos, visando entender o porquê de determinadas resoluções não terem sido aprovadas, por exemplo. Dizer que mais de 50% das resoluções dos conselhos foram aprovadas e que, por isso, o poder público atende das demandas da Sociedade Civil não é uma afirmação que pode ser feita, uma vez que há diversos tipos de resoluções feitas pelos conselhos, como, por exemplo, as resoluções de seu próprio funcionamento, que não implicam em nenhuma mudança nas políticas sociais. Se 50% das resoluções foram acatadas pelo poder público, mas nenhuma delas dizia respeito às políticas públicas ou ao montante de recursos, não é possível afirmar que haja congruência entre os anseios da Sociedade Civil e o conteúdo das decisões administrativas.

Mas por que a participação foi escolhida para fazer essa reflexão entre visões de mundo e maneira de enxergar a realidade? Por que a participação e não outro elemento? Não apenas para mostrar que o modelo representativo está ligado a uma epistemologia mais positivista e o modelo participativo a uma epistemologia interpretativista, mas também para se questionar a respeito do motivo. Afinal, é um fato explicitamente exposto na realidade que o modelo representativo é predominantemente quantitativo e o modelo participativo está relacionado a uma dimensão mais subjetiva da participação, uma vez que o voto é a ferramenta presente na Constituição Federal de 1988 como forma de exercer o sufrágio universal (BRASIL, 1988), enquanto que, em relação à participação cidadã nas políticas públicas em caráter deliberativo, o que se observa na carta constitucional é apenas “O Estado exercerá a função de planejamento das políticas sociais, assegurada, na forma da lei, a participação da sociedade nos processos de formulação, de monitoramento, de controle e de avaliação dessas políticas (BRASIL, 1988, art. 193, parágrafo único). Ou seja, não há uma lei geral sobre conselhos ou a presença destes de forma explícita na Constituição Federal de 1988. Mas por que há uma disputa velada entre esses dois modelos? Por que os defensores da democracia liberal argumentam que a democracia participativa não é eficaz mesmo depois das experiências dos conselhos de políticas públicas e orçamentos participativos? (DAGNINO, 2004).

Porque a adoção de determinada abordagem epistemológica e defesa de determinada teoria não está relacionada apenas à forma de enxergar a realidade, mas também à realidade que o pesquisador deseja alcançar, ao que ele almeja em um mundo ideal. Aqui entra o debate sobre ideologia e a crítica à forma como ela pode ser utilizada para consolidar determinados tipos de poder e, no caso da participação, de Controle Social (DEMO, 1995). Nesse sentido, o debate sobre participação é um exemplo claro sobre as formas de justificativa do ultraliberalismo para se perpetuar como modelo hegemônico, ressignificar a participação, a menor, defendendo novas visões de Sociedade Civil, Cidadania e Participação (DAGNINO, 2004).

Carlos Estevam Martins (2003) em seu texto Liberalismo: o direito e o avesso, discorre de maneira clara sobre a hegemonia do liberalismo em todas as esferas. Para o autor, quem se contrapõe ao liberalismo enfrenta tarefas difíceis, destacando como principal a necessidade de separar-se do liberalismo, definindo-o como algo a ser repudiado, e, em segundo lugar, conceber a democracia como um ideal distinto (MARTINS, 2003, p. 619). Para tanto, utiliza-se do discurso: “o liberalismo é tudo, fora dele não há nada que preste” (MARTINS, 2003, p. 629). A esse discurso o autor dá o nome de boca de jacaré, que absorve tudo para o liberalismo e considera tudo que for a favor dele como bom e o que for contra como autoritário, numa era em que o liberalismo, como forma de hegemonia, absorveu as contribuições positivas da esquerda (MARTINS, 2003). Para o autor: “Nas lutas ideológicas, a indefinição oferece muitas vantagens. Uma delas é ofuscar a visão dos outros” (MARTINS, 2003, p. 620).

Argumentar a respeito de um modelo quantitativo e objetivo de participação cidadã não seria uma forma de ter a possibilidade de distorcer a subjetividade da participação? Defender esse modelo a qualquer custo, mesmo havendo novas teorias e pensadores contemporâneos trazendo teorias alternativas de participação não seria uma forma de colocar a ideologia acima da ciência? A participação nos conselhos de políticas públicas realmente é ineficaz, sendo que o que se observa são os conselhos elaborando resoluções que são completamente contrariadas pelo Poder Público?

Diversos estudos (KRONEMBERGER et al., 2012; MIWA; SERAPIONI; VENTURA, 2017; DELE; OLIVEIRA, 2021) apontam a baixa participação da Sociedade Civil nos conselhos municipais, mas os plenários dos conselhos são divulgados amplamente? O espaço é adequado e suficiente para uma grande quantidade de pessoas? Por que não há uma lei geral/federal sobre conselhos? Por que há uma ênfase na participação da sociedade na constituição federal, mas os conselhos não estão presentes na carta constitucional?

Afinal, conforme Demo (1995), a interpretação rigorosa da realidade flerta com a ideologia e o senso comum, não podendo ser confundida com nenhum dos dois, mas como não há limites rígidos entre os conceitos, é necessário que a análise seja feita com rigor. No caso da ideologia, fica a reflexão sobre uma possível distorção do que seria a verdadeira participação, usando como argumento de defesa um critério quantitativo, visando perpetuar determinada visão de mundo como hegemônica, o que tem acontecido com sucesso, no caso do ultraliberalismo.

No caso brasileiro, apesar da Constituição Federal de 1988 e sua ênfase na participação cidadã ter feito com que várias experiências de participação, em tese, direta, tivessem surgido no Brasil, não é possível dizer que elas foram consolidadas. Essa poderia ser uma alternativa interessante de combinação de abordagens mistas de participação, combinando o voto com as deliberações nos conselhos de políticas públicas e orçamentos participativos e, portanto, combinando o caráter positivista, mais objetivo, do voto, com a subjetividade do consenso que pode ser obtido nas práticas de gestão participativa.

No entanto, o que se observa, na maioria dos casos, não é essa combinação. Mas a tentativa de invalidação da participação nos conselhos por parte do Poder Executivo, ao não acatar as decisões tomadas nas resoluções elaboradas após as plenárias dos conselhos. Seria este um caso de interferência ideológica?

Assim, destaca-se o caráter positivista do modelo de democracia liberal, devido ao sistema de voto como método hegemônico de participação, e o caráter interpretativista dos defensores da democracia participativa e da democracia deliberativa, cujas decisões devem ser tomadas a partir do consenso e diálogo. Ou seja, a primeiro admite a realidade social como independente da interação entre Estado e Sociedade Civil, considerando suficiente uma forma de participação que depende unicamente de um critério objetivo. Já a segunda compreende a interação entre sujeito e objeto – Estado e Sociedade Civil – como fundamental para uma implementação de políticas públicas mais qualificada e eficaz.

Ademais, destaca-se que a adoção de determinado modelo de participação não advém apenas da forma de interpretação da realidade por parte de seus defensores, mas também devido à necessidade de perpetuação da hegemonia de determinados tipos modelos de Estado.

Por fim, destaca-se que o posicionamento da autora deste trabalho é a favor da combinação de abordagens, seja na pesquisa, seja nas decisões coletivas. As informações oriundas de dados quantitativos são importantes para trazer um panorama geral sobre determinado tema, ou, no caso da participação, para manifestar a opinião geral da Sociedade. Mas é justamente pelo fato de as práticas de gestão participativa não estarem institucionalizadas que a opinião da Sociedade Civil deve ser ouvida, ou, no caso da pesquisa, a opinião de determinado sujeito, que está diretamente vinculado à uma realidade social específica, cujas informações não podem ser obtidas a partir de uma variável. Isso é importante para que, no caso da pesquisa, o objeto não seja distorcido e, no caso da participação, a opinião da Sociedade Civil não seja levada em conta apenas quando vai ao encontro do Poder Público.

 CONSIDERAÇÕES

Este texto teve como objetivo principal trazer uma reflexão sobre a relação entre a democracia liberal/burguesa, no âmbito da qual se destaca o modelo representativo, e as bases epistemológicas dos defensores deste tipo de participação. Ademais, buscou refletir sobre a possibilidade de interferência dos valores ideológicos na defesa de determinadas formas de participação.

Como principais apontamentos e reflexões, o texto buscou chamar atenção para a relação entre a análise quantitativa, estruturada, advinda da lógica positivista e o modelo representativo (um indivíduo = um voto), que se coloca em oposição ao modelo participativo, que usa uma dimensão subjetiva para interpretar a participação, sendo, portanto, oriunda de um caráter mais subjetivo de interpretação da realidade, estando relacionado a visões interpretativistas. 

Ademais, também buscou trazer a reflexão de que, no caso da participação popular, determinados argumentos e defesas de determinados modelos de participação podem estar relacionados não apenas à abordagem epistemológica dos defensores deste modelo, mas também aos seus valores ideológicos, que podem ser utilizados com o objetivo de perpetuar determinada visão de mundo e solidificar estratégias de controle social. Defensores, estes, que podem, inclusive, usar de argumentos científicos para distorcer a verdadeira participação popular.

Destaca a importância da adoção de métodos mistos de participação, com o intuito de combinar diferentes critérios de interpretação da realidade e de manifestação de opinião da Sociedade Civil, visando possibilitar maior congruência entre os anseios dos cidadãos e as decisões dos governantes que estão no poder.

Cabe salientar que é sabido que a participação popular, sobretudo a qualificação da participação direta da Sociedade Civil nas políticas públicas, ainda enfrenta muitos desafios. Em parte, pela falta de uma cultura participativa, mas também em parte pelos valores ideológicos e visões de mundo que os defensores de diferentes formas de participação possuem. Entretanto, as práticas de gestão participativa precisam ser analisadas com cuidado, não se deixando levar pelos valores ideológicos de alguns críticos da participação popular e da formação de uma cultura participativa.

O posicionamento da autora deste trabalho é na defesa de métodos mistos, partindo do pressuposto de que a combinação de diferentes métodos para analisar o mesmo fenômeno pode ser uma abordagem interessante para garantir que o objeto seja analisado de maneira fiel à realidade. No caso da participação, o posicionamento é o mesmo: na defesa da combinação entre o voto e as práticas de gestão participativa, considerando que o voto permite entender uma visão geral que a Sociedade Civil tem sobre determinado governante ou valor ideológico que está no poder, enquanto que a democracia participativa permite resolver questões em nível local, aprofundando os problemas públicos específicos de cada região do Brasil e entendendo quais são os anseios mais importantes da Sociedade Civil sobre determinadas políticas públicas.

 Por fim, cabe fazer a ressalva a respeito dos valores ideológicos da autora deste trabalho, que podem influenciar a interpretação sobre a participação nas políticas públicas.

 

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